As uvas misturadas do Brunellogate

Escândalo de adulteração desata polêmica à italiana

Luiz Horta,

13 Agosto 2009 | 10h53

O escândalo que abalou a região de Montalcino no ano passado, apelidado de Brunellogate, terminou com um laudo da polícia italiana apresentado com sentido dramático esta semana. Os vinhos, para terem o selo de Brunello di Montalcino, conforme a legislação do Conzorcio del Vino Brunello di Montalcino, entidade reguladora da produção regional, precisam ser feitos exclusivamente de uvas Sangiovese (chamada lá justamente de uva Brunello). Seguindo uma denúncia anônima, os carabinieri começaram a investigar produtores que estariam adulterado seus tintos com a adição de outras uvas mais amigáveis, para que os vinhos tivessem sua indomável acidez facilitada e seu consumo pudesse ser feito mais rapidamente, agradando ao mercado americano. Isso resultou em uma crise de proporções de ópera italiana, acusações, gestos extremados, como a renúncia do presidente da entidade, o conde Marone Cinzano do Col d’Orcia e estremecimento na imagem desses caros tintos. Sete vinícolas foram investigadas. Cinco dos produtores sob suspeição foram considerados culpados . E não são nomes pequenos: Antinori, Marchesi de Frescobaldi, Argiano, Banfi e Casanova di Neri. Escaparam apenas Biondi Santi e o próprio Col d’Orcia. A anteprima Na anteprima (apresentação da nova safra) deste ano, quando o Paladar provou a safra 2004 (seguinte à do escândalo) muitos vinhos pareciam demasiado delicados e supreendentemente prontos para consumo. Em geral, a adulteração é feita com Merlot, uva muito mais macia que a Sangiovese. Mas o que isso quer dizer? Que os respeitáveis produtores são criminosos? Antes de dar uma resposta é preciso entender que o sistema de denominações de origem serve para organizar as regiões vinícolas, mas é normal que num determinado momento se torne um constrangimento. A produção de vinhos é dinâmica e segue um pouco o gosto da época. Esse "escândalo" está anunciando que, provavelmente, a fórmula dos Brunellos vai mudar, que as pessoas têm pressa de beber os vinhos e os cortes acabarão incorporados à DOC. Ou seja, a exceção criminosa de hoje pode vir a ser discutida e virar a regra futura. Pode também significar que esses produtores, cientes de todo o peso que têm, sairão do Consorzio e passarão a produzir vinhos sem o selo de origem e com uvas proibidas. Há antecedentes em todas as regiões vinícolas do mundo com legislação inflexível. E muitas vezes os dissidentes geniais acabam por se tornar mais importantes que as burocracias locais. Exemplos não faltam, como Angelo Gaja, ali mesmo na Toscana. A crise é só o começo de redefinição dos Brunellos.

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