Atacar pela internet é mais barato e ‘divertido’

Da mesma forma que outras inovações tecnológicas fizeram a diferença em conflitos pela história (vide as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, há cinco décadas), são os recursos cibernéticos que podem decidir as guerras a partir de agora. A opinião de especialistas consultados pelo Link é clara: ciberguerras são baratas, têm o melhor custo-benefício, eficiência e ainda "divertem" as equipes de hackers mantidas pelos exércitos. Diversão, claro, é força de expressão – quer dizer que o trabalho é fácil e instigante para programadores militares. "Nações com pretensões militares devem financiar grupos exclusivos de hackers não apenas para atacar a infra-estrutura alheia como para se defender", afirma o pesquisador em segurança do Instituto de Computação da Unicamp Paulo de Geus. "Atacar, então, se torna a parte mais divertida." A facilidade do ataque se explica pelo pouco controle do governo sobre a internet dos países. No caso do Brasil, por exemplo, as redes estão na mão de empresas privadas (Telefônica, Embratel, Claro, Oi, etc.) e qualquer invasão seria difícil de evitar e combater pelos órgãos públicos. Para piorar, há infinitas portas de entrada em sistemas governamentais, que um ataque programado daria conta de superar sem dificuldade. "Se, quando o Speedy caiu em São Paulo, a polícia não tinha como registrar presos, imagine a desorganização causada por um ataque coordenado", afirma De Geus. "É muito mais fácil derrubar governos quando os países estão caóticos, desorganizados." A verdade por trás das armas cibernéticas é a perigosa dependência das nações urbanizadas em relação à internet, o que faz das cidades atuais muito vulneráveis. Quanto mais desenvolvidos os países, mais vulneráveis ciberneticamente, já que riqueza geralmente significa mais pessoas conectadas e sistemas automatizados. No caso da Geórgia, os danos foram reduzidos, a não ser pela divulgação de informações oficiais. Há a suspeita ainda de os hackers terem agido individualmente, sem coordenação do governo russo. "Não podemos excluir essa possibilidade", afirmou o porta-voz da Embaixada da Rússia em Washington, Yevgeniy Khorishko. "Há pessoas que não concordam com determinadas ações e tentam se expressar dessa forma." Para a professora de história contemporânea da USP Maria Aparecida de Aquino, é pouco provável que isso tenha ocorrido. "Por mais que a tecnologia avance e novas práticas de guerra surjam, não se pode desconectar o processo histórico. Se há um golpe tramado no mundo cibernético, é em um contexto maior de geopolítica", diz. Para Maria Aparecida, o ciberataque foi o elo detonador da guerra real. A empresa de softwares antivírus McAfee produziu no ano passado um relatório sobre ciberguerras, que chamou de "uma batalha global 7 dias por semana e 24 horas por dia". Segundo o texto, 120 países desenvolveram em 2007 meios de usar a internet como armas cujos alvos são o mercado financeiro e computadores de outros governos. A guerra por informações não por acaso lembra a Guerra Fria, polarizada por Rússia e EUA por 44 anos, entre a 2ª Guerra Mundial e a queda do Muro de Berlim. "Os ataques progrediram de uma curiosidade inicial para investidas organizadas política, econômica e tecnicamente", afirma no relatório o vice-presidente do McAfee Avert Labs, Jeff Green. A publicação também diz que a China é o país líder em suspeitas de promover ciberguerras. Outro relatório, este específico sobre a questão da Ossétia do Sul, na Geórgia, foi elaborado pelo Institute for Security Studies (ISS), da União Européia, em 2007. Já se preocupava com a possibilidade de haver uma ciberguerra contra a Rússia. Pouco adiantava, nessa caso, alertar sobre o risco, já que a dificuldade de prevenir ataques do tipo é imensa. Talvez aí esteja o trunfo da guerra do futuro: ainda não inventaram o antídoto.

Lucas Pretti,

18 Agosto 2008 | 00h00

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