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Banco dos Brics desafiará influência do Ocidente nas finanças globais

ALONSO SOTO - REUTERS

11 Julho 2014 | 15h 20

Líderes dos Brics se reunirão na semana que vem para lançar um banco de desenvolvimento e um fundo de reservas emergenciais, no mais ousado desafio ao multilateralismo ocidental que têm moldado as finanças globais desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul vão aprovar na terça-feira as novas instituições após dois anos de negociações árduas, num importante passo para o grupo conhecido mais por sua retórica anti-Ocidente do que por ação coordenada.

Os Brics injetarão inicialmente 50 bilhões de dólares no banco, com cada país contribuindo com igual fração. Com isso, buscarão conseguir influência global oferecendo a países em desenvolvimento financaimento alternativo ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional (FMI), há tempos dominados pelos Estados Unidos e pela Europa.

"É simbolicamente importante. Sinaliza a insatisfação dos Brics com sua posição no palco econômico global", disse o economista Charles Collyns, do Institute of International Finance, que representa os principais bancos privados e instituições financeiras do mundo.

"O fato de que eles conseguem se juntar e acertar a implementação dessas instituições é um símbolo importante de sua crescente importância", acrescentou.

O banco será chamado Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), não "Banco Brics", deixando a porta aberta para outros países emergentes como Turquia, México, Indonésia e Nigéria se juntarem como sócios no futuro.

Muitas das regras operacionais do banco, como investimento futuro em projetos privados, serão decididas após sua criação formal na cúpula da semana que vem em Fortaleza. O banco deve fazer seu primeiro empréstimo em 2016.

AMEAÇA CHINESA?

Líderes dos Brics decidirão na terça-feira que país controlará a primeira presidência de 5 anos do banco e se ele será sediado em Xangai ou em Nova Délhi.

Temores de que a China, cuja economia é muito maior do que às de todos os outros Brics somadas, poderia tomar o banco para atender seus próprios interesses, levantaram dúvidas sobre seu futuro.

"Os Brics não querem ver um mundo em que a China substitui os Estados Unidos como a hegemonia global. O Brasil e alguns outros estão muito preocupados com a ascensão da China", disse o professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Oliver Stuenkel, que escreveu extensivamente sobre os Brics.

Os Brics também vão criar um fundo de reservas de contingência de 100 bilhões de dólares, que poderia começar as operações até 2015 para ajudar qualquer um de seus membros, se eles forem atingidos por uma fuga súbita de capitais.

Os Brics estão à frente do crescente coro de países emergentes e desenvolvidos que se queixam de que o FMI e o Banco Mundial impõem políticas de austeridade sobre eles em troca de empréstimos, sem oferecer grande poder de decisão sobre os termos.

O NBD e o fundo de reservas vêm em resposta a tentativas mal-sucedidas de aumentar a influência dos Brics no FMI no centro da ordem de Bretton Woods criada pelos EUA e pela Europa.

Os poderes de voto dos Brics no FMI não refletem a tremenda ascensão de suas economias, que agora respondem por quase um quinto do Produto Interno Bruto (PIB) global e sustentam 40 por cento da população do mundo.

O termo Brics foi cunhado em 2001 pelo economista do Goldman Sachs Jim O'Neill, como uma maneira de se referir ao grupo de mercados emergentes com grande potencial econômico. Em 2009, os líderes desses países abraçaram o acrônimo e começaram a realizar cúpulas anuais com o objetivo de aumentar sua influência coletiva global.

Embora os Brics continuem crescendo em ritmo maior do que a maioria dos países desenvolvidos, suas economias desaceleraram fortemente nos últimos anos. Alguns temem que a desaceleração possa prejudicar sua influência no sistema financeiro global, mesmo se continuarem sendo o motor do crescimento mundial.

"O peso dos Brics no palco global está bastante ligado à sua performance econômica", disse o diretor do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (CINDES), Pedro da Motta Veiga.

"Eles não são os mesmos Brics explosivos de uma década atrás e isso poderia diminuir sua influência", emendou.

((Tradução Redação São Paulo; 55 11 5644 7757)) REUTERS BBF