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''Basta uma faísca de eletricidade estática''

O Estadao de S.Paulo

25 Setembro 2009 | 00h 00

Especialistas alertam para manuseio incorreto e para qualidade inadequada dos explosivos

Não é necessária uma chama para detonar uma explosão em fogos de artifício e pólvora, segundo o capitão da reserva da Polícia Militar de São Paulo e ex-chefe do esquadrão de bombas do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), Eduardo Augusto. Basta uma faísca provocada por eletricidade estática do corpo de uma pessoa ou mesmo uma faísca originada em qualquer objeto metálico. "Essa faísca de eletricidade estática detona uma vareta (um fogo de artifício), o que leva a outra explosão e desencadeia uma sucessão de explosões, detonando tudo. Essa grande explosão tem enorme poder destrutivo", disse.

O ex-chefe do Gate conta que os fogos de artifício não precisam ter alto poder de fogo para provocar desastres. Normalmente, é utilizada a chamada pólvora negra de alumínio nesse tipo de artefato. "A concentração de explosivos num ambiente fechado causa grande explosão", explica. Augusto disse que nas fábricas clandestinas de fogos de artifício ou nas lojas onde se manipula pólvora ilegalmente o ambiente fica impregnado do produto e em milésimos de segundos tudo acaba detonado. "Quando atuava na polícia, cansei de ver lojas que faziam manuseio irresponsável de pólvora. Era comprado um artefato dentro da lei e depois desmontado, para se fazer um outro mais potente, ilegal."

"A armazenagem inadequada num só ambiente é muito perigosa. Se você põe um quilo de pólvora solta no chão e põe fogo, tudo queima como se fosse um grande flash, sem grande impacto. Mas se você pega esse mesmo quilo de pólvora e soca numa caixa de papelão e põe fogo, haverá uma explosão muito violenta."

Já a professora Janaina Lira Fonseca, do programa de gerenciamento de resíduos da Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (Unesp) e especialista em explosivos, diz que teria de haver um incêndio para detonar todo o explosivo que estava armazenado dentro da loja de Santo André. "Teria de se atingir uma determinada temperatura para provocar essa grande explosão", observa Janaina.

QUALIDADE

Além do armazenamento e do manuseio inadequado, pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) evidenciou que a própria qualidade dos fogos de artifício comercializados no País já coloca em risco os consumidores, vendedores e espectadores desse tipo de produto. Em 2005, foram analisadas 18 marcas de explosivos e 89% das amostras - 5 rojões de vara e 13 foguetes - foram consideradas fora dos parâmetros em relação aos ensaios de segurança.

O principal problema detectado pelos pesquisadores foi que quase nenhuma das marcas garantiu o tempo necessário para o usuário se afastar do fogo de artifício, logo após acendê-lo, de modo a garantir uma distância segura no momento do lançamento do fogo de artifício. De lá para cá, nenhuma outra pesquisa confirmou se os problemas foram corrigidos.

"O fogo de artifício é a pólvora que a gente chama de estopim, que é encapsulada em papel craft e amarrada com barbante. É refugo da fábrica de explosivos, que seria vendido como estopim para dinamites", explica Janaina.

Segundo a Associação Brasileira de Pirotecnia (Assobrapi), entidade representativa da Indústria e Comércio de Fogos de Artifício, o Brasil é o segundo produtor mundial de fogos de artifício. Fica atrás apenas da China.

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