Bossa nova vinícola

Os vinhateiros da biodinâmica observam as fases da lua, seguem calendário próprio e são mais radicais na sua prática agrícola

Luiz Horta,

09 Setembro 2010 | 09h05

 
 

"Isto é bossa nova, isto é muito natural". Como cantava a música de Tom Jobim, poucos vinhos ainda podem ser chamados de desafinados no coro das novas exigências de pureza. Primeiro foi o movimento dos orgânicos - os pesticidas e herbicidas tornaram-se, com justiça, algo a ser erradicado. Eles, que tinham surgido no pós-guerra como salvação da lavoura, viraram o horror, contaminando terras e líquidos. O orgânico venceu, não há quem queira químicos inorgânicos mais. A discussão começa com os biodinamistas, grupo menor que segue as normas antroposóficas estabelecidas por Rudolf Steiner no seu livro Sobre a Agricultura. Os vinhateiros da biodinâmica observam as fases da lua, seguem calendário próprio e são mais radicais na sua prática agrícola. Mesmo assim, usam cobre em pequenas proporções, e alguns deles, dióxido de enxofre na hora de engarrafar. Esse gás, o SO2, é o tema do momento. Um grupo de autointitulados produtores de vinhos naturais, francês, evidentemente, prega a não intervenção absoluta no manejo do vinhedo e na feitura do vinho. Nada de químicos na terra, nada que não seja natural na elaboração dos vinhos - só leveduras selvagens, fermentação até onde o líquido queira fermentar e engarrafamento com zero enxofre.

 

 

Confira a análise dos vinhos:

linkRiesling 04 (sem enxofre)

linkRiesling 05 (com enxofre)

 

 

O que torna o SO2 tão discutível? Os naturalistas mais radicais dizem que causa alergias terríveis, caso da jornalista americana Alice Feiring (veja comentário sobre seu livro na página ao lado). Os defensores do gás alegam que sem ele, que é um conservante, os vinhos não duram, não podem nem mesmo ser exportados. E dificilmente atingirão a evolução e longevidade tão desejada nos grandes Bordeaux e Borgonhas, por exemplo. Há uma terceira via: um produtor famoso e respeitado dentro do grupo, o excelente Philippe Pacalet, é pragmático. Quando esteve no Brasil recentemente, disse que usa um mínimo de dióxido de enxofre nos seus vinhos que saem da França, ou não teria condição de vendê-los. Provei um mesmo vinho, um Riesling alsaciano, nas suas versões com e sem enxofre. E já que o negócio é experimentar, fui testar o desafio de Nicolas Joly, papa biodinâmico, que diz que seus famosos e caros Coulée-de-Serrant aguentam qualquer tranco e melhoram quando abertos três dias antes de serem bebidos. Joly alega que a casca das uvas têm suficientes conservantes naturais, liberados na fermentação e que isso basta para proteger os vinhos.

 

A conclusão sobre tudo isso é simples, pelo menos do meu ponto de vista: ninguém pode ser contra o produto mais puro, mas tampouco é preciso demonizar o dióxido (mesmo sendo de enxofre...) e deixar de beber vinhos por isso. O gás é eliminado na abertura da garrafa e não chega a ser consumido. O importante é não criar um preconceito e passar a vigiar rótulos como se fossem bulas. É uma conclusão pessoal e temporária. A discussão vai longe ainda.

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