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Brigadeiro brasileiro estreia na TV americana e fabricante desafia Jamie Oliver

Chris Delboni - Com Liliana Pinelli

22 Agosto 2014 | 09h 28

Paulistana Pietra Diwan conta como passou de historiadora, pesquisadora e iconógrafa a confeiteira e empresária

Caio Ferraz
Pietra Diwan na cozinha da fábrica de sua empresa Samba Gourmet

 

A paulistana Pietra Diwan é historiadora, autora, pesquisadora, editora e iconógrafa. Tem uma história longa como responsável pelo levantamento e edição de imagens usadas em publicações, tanto que durante uma época chegou a coordenar simultaneamente 18 revistas. Nunca pensou em mudar de área, tão radicalmente. 

Mas a vida dá voltas, e foi o que acabou acontecendo quando se mudou para Miami. Hoje, ela é dona do Samba Gourmet, uma fábrica de brigadeiros que até outubro vai vender os doces na QVC, rede nacional de vendas pela televisão, uma espécie de Polishop ou Shoptime no Brasil.

A fábrica montada em fevereiro de 2013 tem um meta ambiciosa: vai aumentar a produção de 20 mil para 100 mil brigadeiros, em média, por mês. "Sou movida a desafios", diz Pietra, que enxerga o docinho brasileiro com olhos e mente da pesquisadora de sempre. "Eu encaro o brigadeiro aqui, em Miami, como um objeto de pesquisa", brinca.

Ela e Silvia Aronson, sócia na empreitada, passam horas experimentando e testando os sabores, que hoje chegam a 100, entre eles, brigadeiro de maracujá, limão, uns sem leite para quem tem intolerância a lactose e o próximo, que está quase pronto, sem açúcar para os diabéticos. Mas os mais vendidos ainda são os tradicionais: chocolate, coco e doce de leite.

O padrão Samba Gourmet passou no rigoroso teste de qualidade da direção da QVC, onde os produtos são vendidos ao vivo dos estúdios da TV na Filadélfia. A própria rede compra uma quantidade determinada e coordena os pedidos que vão chegando, também ao vivo. A função dos apresentadores, no caso as próprias donas do Samba Gourmet, é vender, ou seja, convencer o telespectador da qualidade do brigadeiro.

Caio Ferraz
Pietra Diwan (direita) e a sócia Silvia Aronson (esq.) mostram com orgulho seus brigadeiros

 

E um dos maiores desafios é justamente na comunicação: "Dizer para as pessoas que no Brasil existe um doce que se chama bri-ga-dei-ro, quatro silabas, uma junção de duas vogais, impronunciável, é um desafio gigantesco", diz Pietra, que, em um ano de empresa, conseguiu colocar o produto em vários mercados locais, como em toda a rede brasileira de restaurantes Giraffas daqui, na americana Au Bon Pan e até no site de vendas Amazon.com, entre outros.

Ela descreve o produto publicamente com o slogan: "It's not a truffle, it's not fudge, it's BRIGADEIRO! (bree.ga.day.row)", que se traduziria como: "Não é uma trufa, não é caramelo, é brigadeiro".

Pietra diz que espera nacionalizar - e internacionalizar - seu docinho brasileiro, que recentemente ganhou um prêmio respeitado numa importante feira de confeiteiros dos Estados Unidos chamada "San Francisco International Chocolate Salon".

"Queremos fazer todas as pessoas se apaixonarem pelo brigadeiro", diz Pietra, e uma delas é o chef inglês Jamie Oliver, que no mês passado declarou que o doce é "um horror". 

"Eu acho que a declaração dele no Brasil foi infeliz, na escolha das palavras, poderia ter sido mais cauteloso", e provoca: "Jamie Oliver, te desafio a provar o nosso brigadeiro e ver que é o melhor doce que existe". Mas, apesar do tom de brincadeira, Pietra leva todos os obstáculos muito a sério e agradece a eles pela sua força, determinação e sucesso de sua empresa, que logo no seu lançamento sofreu um revés.

Caio Ferraz
As funcionárias do Samba Gourmet enrolam 1.200 brigadeiros por dia

 

Ainda com alma de historiadora, Pietra publicou em sua página no Facebook uma matéria que dizia que muitas fotos espalhadas na rede social denunciando atos de violência na Venezuela eram de outros locais, como Egito e Síria. 

Por causa deste post, Pietra foi alvo de críticas pessoais, acusada de comunista radical, sofreu ameaças e sua empresa, um boicote, incitado exatamente por venezuelanos moradores de seu bairro, Doral, com quem ela havia feito amizade assim que chegara a Miami. 

"A empresa ficou praticamente parada neste período", diz ela. "A gente teve uma interrupção de fornecimento por duas semanas de um cliente."

A história durou um mês e rendeu uma grande matéria na rádio local e no jornal Miami Herald, com o título: "Como uma mulher de Doral virou vítima de perseguição antichavista." Como historiadora, Pietra sempre teve em sua essência a necessidade de expor a história que sua pesquisa mostrou verdadeira. Mas, para ela, sua coragem em se expor naquela história foi o momento mais difícil de seus 40 anos, diz.

Caio Ferraz
Os brigadeiros são empacotados e etiquetados manualmente

 

"Me senti muito ofendida. São pessoas para quem abri minha casa, minha família. De repente, me senti apunhalada e sem chão. Por sorte, tive também pessoas nesse momento do meu lado que me deram suporte, como a minha sócia, meu marido e o consulado. O embaixador Hélio Vitor Ramos Filho (cônsul-geral do Brasil em Miami) colocou à minha disposição o consulado - e isso foi extremamente importante", conclui ela, hoje mais comedida e reticente.

"A gente tem poucas oportunidades de fazer algo que seja marcante, que não seja medíocre. Eu tenho muito medo de cair na mediocridade", diz. "Agora, quando você tem uma discussão que põe em risco a sua família, sua empresa e sua segurança, não vale a pena. Nesse aspecto, acho que deveria ter sido mais cautelosa."

Mas essa fase passou e acabou fortalecendo a empresa. "A gente sentou e falou, então tá, vamos provar que isso aqui não é uma brincadeira", diz Pietra. "Isso não vai nos abater. Quem está na chuva é para se molhar."

E disposição não falta. O Samba Gourmet acaba de comprar US$ 100 mil em novos equipamentos. "A ideia da empresa é levar o sabor do brigadeiro para o mundo", sonha a historiadora. "Estamos criando aqui a cultura do brigadeiro, internacionalizando o docinho simples de festas de criança e educando as pessoas sobre o que ele é."

Caio Ferraz
Brigadeiros do Samba Gourmet

 

Mas o mais importante para ela ainda é manter o desafio, seja ele qual for, vivo. E, enquanto existir, a historiadora/confeiteira/empresária continua seguindo sua pesquisa, hoje dos docinhos brasileiros, e amanhã, quem sabe?

Seu maior sonho é escrever um livro de ficção cientifica, e ela espera realizá-lo um dia. Se pudesse apressar o tempo? "Estaria hoje bem velhinha, numa casinha bem tranquila, num lugar, algum lugar, bem bucólico, cheio de livros ao meu redor, uma janelinha e uma máquina de escrever", diz. 

No vídeo, Pietra Diwan conta o segredo do seu sucesso, de historiadora a confeiteira e empresaria.

Conheça o segredo do sucesso da historiadora, confeiteira e empresária Pietra Diwan. Por Chris Delboni. from Chris Delboni on Vimeo.

Twitter @chrisdelboniS