1. Usuário
Paladar
Assine o Estadão
assine

Cacho de ouro acidental

Cíntia Bertolino

26 Novembro 2009 | 09h 28

No princípio as framboesas eram brancas. Aí, por um incidente entre os deuses, surgiram as vermelhas - e as púrpuras, e as negras... Ainda era pouco. Eis que brota então a framboesa dourada. O fato de ela virar troféu para filme ruim é outra história.

Tudo começou com um desses acidentes naturais, do tipo que mesmo botânicos experientes têm dificuldade de explicar, mas são rápidos em reconhecer. De repente, no meio de uma florada de framboesas vermelhas, lá estava ela, uma framboesa dourada. A primeira reação foi achar que a "intrusa" estava estragada, que, por não ter a característica pigmentação rubra, não servia para consumo. Não é de admirar conclusão tão precipitada, afinal, entre as mais de 300 variedades de framboesa - uma frutinha vermelha natural da Europa, América do Norte e Ásia -, a esmagadora maioria pertence a uma paleta de cores fortes, que vai do vermelho vivo até o negro, passando pelo púrpura. Separada das outras framboesas, notou-se que a frutinha dourada tinha sabor e personalidade particulares. Ela era apenas fruto de uma mutação genética natural: sofria de albinismo. Até aqui, nada dramático, ou melhor, a caçula da família provou ter brilho próprio. "A framboesa dourada tem pouco mais de 80 anos. É mais delicada e só começou a ser cultivada comercialmente nos Estados Unidos há 30 anos", diz o engenheiro agrônomo Rodrigo Veraldi Ismael, que cuida da plantação da fazenda Baronesa Von Leithner (Av. Alto da Boa Vista, 3025, 12/3662-1121), em Campos do Jordão (interior de SP). Rodrigo também produz a fruta em seu sítio, o Frutopia (12/ 9745-9897) e avisa que em 15 dias elas devem chegar ao Mercado Municipal de São Paulo. Veja também:  No vermelho-vivo, o sangue da ninfa  Um oscar que ninguém deseja ganhar  Receita de geleia dourada A fruta dourada é sutil, mais doce e menos ácida que seus pares vermelhos e negros. Na boca, é quase cremosa. E o amarelo radiante talvez ajude a provocar a sensação de que se tem algo bastante incomum entre os lábios. Privilégio é poder prová-la diretamente do pé, já que é frágil - ponto em comum com o restante da família Rosacea, especialmente as Rubus idaeus, nome botânico das framboesas. Provar do pé foi o que fez a reportagem do Paladar na Fazenda Baronesa Von Leithner, uma das primeiras a produzir a framboesa dourada no País. Na encosta de uma montanha com vista para a Pedra do Baú, esparrama-se uma plantação ainda pequena. As frutas são colhidas uma a uma, manualmente. Por enquanto a maior parte da produção vai se destinar ao consumo interno e logo vai começar a aparecer em sucos, geleias e doces produzidos na fazenda e servidos em seu café e restaurante. A ideia, porém, é aumentar a produção no ano que vem. Ao lado, fizemos um raio-x da framboesa dourada, um desses felizes e deliciosos acidentes da natureza.

  • Tags: