Cada vez mais sozinhos ou mais conectados?

Ao tornar-se portátil e digital, a música vem mudando o comportamento das pessoas ao mesmo tempo em que estas mudam sua relação com a música

Lucas Pretti, de O Estado de S. Paulo,

15 Junho 2009 | 16h23

Há 30 anos levamos a música no bolso (e nos fones de ouvido). E faz 10 anos que ela também está solta por aí, pela rede. Isso nos coloca no olho do furacão digital - enquanto nos isolamos na própria trilha sonora, ouvimos música que vem de todos os cantos da rede. Cada vez mais conectados e cada vez mais sozinhos. Ou seria o contrário?   Veja o caso do publicitário e músico Felipe Daros, 25 anos. Ele resume o que entendemos como hábitos digitais (e musicais) do início deste século. Só ouve as faixas que baixa da internet ou indicações de amigos, que passam músicas para ele via pendrives ou redes sociais, como Twitter ou Last.fm. Não tira os fones do ouvido nem para almoçar e pouco liga para a possibilidade de perder o sabor do acaso na rua (um cumprimento, o som de algo que passa, conhecer alguém no ônibus).   É um comportamento social dúbio, claro. Daros está ultraconectado e, ao mesmo tempo, isolado. "A vida já é tão opressora, que prefiro criar meu próprio mundo nos fones de ouvido", diz. "De manhã, acordo e fico tranquilo em casa, ouvindo música. À noite, gosto de andar pela rua, procurando um bar por Pinheiros e ouvindo algo que ainda não conhecia."   Daros comprou um fone com supressor de ruídos, que o deixa quase surdo ao que o rodeia. "Tenho medo de ser mal-educado, de não perceber algumas coisas. Mas poderia perder oportunidades a qualquer hora, por qualquer outro motivo."   O que está em jogo quando o assunto é a música do presente é a escolha entre plugar ou não a audição - seja à rede ou à rua.   A jornalista Natália Garcia, também de 25 anos, fica entre um e outro. Ciclista, ela coloca o fone só na orelha direita. "A esquerda fica livre para ouvir o trânsito e prevenir acidentes."   "Quando estou na bicicleta, não vou faço social com as pessoas, então escuto." Natália concorda com a máxima introduzida pelo cinema ao mundo contemporâneo: a vida tem trilha sonora. Então escolhe músicas conforme os lugares que vai frequentar e de acordo com o seu estado de espírito.   "Mas, muitas vezes, tiro o fone do ouvido para prestar atenção nas conversas que parecem ser interessantes", diz, rindo. Ela não ouve rádio tradicional e baixa as músicas preferidas pela internet. Depois da bicicleta, passou a ouvir álbuns inteiros, já que é difícil trocar de faixa, pedalar e conduzir.   O cenário tende a mudar ainda mais - piorar ou melhorar, dependendo da perspectiva. O fenômeno das redes sociais não dá indicações de retrocesso, muito menos o da cultura livre, nem o mercado de portáteis. Isso só poderia resultar numa juventude adepta de tecnologias.   Aos 18 anos, o estudante Rafael Pacheco não tira o fone de ouvido nem para conversar com os amigos. "Eu nunca pego as coisas de primeira", ri. Poupa os ouvidos apenas quando está no computador, porque ali há outras coisas para ouvir - vídeos, etc. "O barulho do ônibus me irrita, então ouço música."   Essa geração já forja uma nova metáfora - milhares de pessoas ouvindo suas próprias trilhas sonoras, mas trocando músicas entre si. Isso é um reflexo de outras vertentes do comportamento digital (lembre-se do sujeito enterrado no laptop, aquele cara que não desgruda do celular ou o gamer que não sai do quarto), que nos torna, cada vez mais, isolados e reunidos, ao mesmo tempo.    Música portátil nasceu em SP   A certidão de nascimento oficial do walkman diz que ele surgiu em 21 de junho de 1979 no Japão, data e local no anúncio do primeiro modelo da Sony. Mas a história da música portátil começou, na verdade, seis anos antes, em 1972, no Brasil, mais precisamente em São Paulo.   Nascido na Alemanha, Andreas Pavel morava na cidade quando criou o stereobelt, registrado como "um pequeno componente portátil para a reprodução em alta fidelidade de som gravado". O nome vem do cinto ao qual é preso o aparelho toca-fitas.   O mote que levou Pavel a desenvolver o aparelho soa contemporâneo: levar o som para dentro do tímpano e dar à vida uma trilha sonora.   Seis anos depois, veio o anúncio da Sony. Pavel ficou doido e doído. Processou, ganhou em alguns países, como na Alemanha, e perdeu em outros, como os EUA. Alguns anos atrás, houve um falatório de que ele estudava processar a Apple, para receber royalties sobre vendas de iPod. Ele negou, disse estar cansado do desgaste de brigas na Justiça.

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