Campeão treina sem trocar socos na cabeça

Pugilista peso-pesado, George Arias adota método do pai, menos lesivo

O Estado de S.Paulo

09 Dezembro 2012 | 02h05

A ordem veio do pai, o ex-pugilista e treinador Santo Arias, prestes a completar 71 anos e a se graduar em Direito. Os treinos que formaram a técnica de boxear e o porte físico de 102 quilos do campeão brasileiro peso-pesado (acima de 90,7kg), George Arias, de 38 anos, não têm troca de socos na cabeça. Para evitar traumas cerebrais decorrentes dos golpes, George excluiu do treinamento diário o sparring - no boxe, quando um lutador profissional enfrenta outro em simulação de luta, mas com troca real de socos. A técnica, também conhecida como "fazer luvas", é usada para um atleta se acostumar ao estilo de combate de um oponente que vai enfrentar.

George Arias faz treinos em dupla e com disparo de golpes, desde que combinados antes. Sequências de jabs, diretos, ganchos e cruzados. Só varia o momento de soltar o soco. O treino tem foco em defesa e esquiva. Mesmo assim, se algum atleta for atingido, o pai chega a interromper a sessão. "Tem de saber perder sem ser massacrado", diz Santo Arias. "Boxe é 90% condição física, explosão e defesa."

O campeão só aceita praticar sparring quando convidado para participar do treino de outro boxeador. Este ano, foram quatro.

Ele calcula que outros pugilistas façam luvas em treino até três vezes por semana e levem cerca de 20 golpes ou mais na cabeça por sessão. Algo em torno de 2.400 socos por ano - apenas em preparação. "Muita gente vai ser campeão do mundo. Mas e depois, como vai seguir a vida? Nossa preocupação é essa", diz.

O método dos Arias sofreu críticas no início dos 21 anos de carreira do pugilista da Vila Medeiros, zona leste de São Paulo, onde mora e mantém um centro de treinamento particular. George precisou melhorar aspectos de concentração.

Hoje, o pugilista e educador físico defende o título desde 1998 e vai para a 25.ª luta. Faz duas vezes ao ano ecocardiograma, tomografia, ressonância magnética, teste de esforço máximo e exames de sangue e oftalmológicos.

Companheiro de treino, o campeão brasileiro super médio (até 76,2 kg), Everaldo Praxedes, de 36 anos, acredita que terá uma carreira mais longa: "A gente consegue chegar a mais idade dessa maneira".

Apesar das precauções contra lesões cerebrais, treinador e boxeadores profissionais disseram só ter "ouvido falar" sobre a doença chamada "demência do pugilista". / F.F.

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