Candiato a 'homem do ano'

Liu, Assange e Sakineh (gênero aqui é de menos), cada um a seu modo, trombaram com sistemas autoritários

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

11 Dezembro 2010 | 15h18

 

Liu Xiaobo não pôde ir a Oslo, Julian Assange pode estar indo para Estocolmo. Liu ganhou o Nobel da Paz, periga de Assange levar o próximo (indicado pelos russos já foi). Ambos estão atrás das grades: Liu na China, cumprindo pena de 11 anos, Assange na Inglaterra, desde terça-feira. Liu é um preso político, Assange também, a despeito dos esforços das autoridades britânicas e suecas para enquadrá-lo como um reles delinquente sexual. Mesmo com o vulcão Eyjafjallajökull adormecido, o norte da Europa está pegando fogo.

Liu e Assange foram os "homens do ano", junto com a iraniana Sakineh (o sexo é de somenos nessa categoria): três vítimas de diferentes formas de autoritarismo, três exemplos de coragem e resistência.

A China não sabe o que ganhou. Safou-se de boa há dois anos porque o Comitê do Nobel da Paz não queria constrangê-la às vésperas dos Jogos Olímpicos de Pequim. Se o comitê tivesse então escolhido Lien Chan, o ex-vice-presidente de Taiwan mimoseado essa semana com o novel Prêmio Confúcio da Paz, instituído às pressas pela China, em represália ao Nobel, desperdiçaria a chance de laurear um dissidente chinês puro-sangue, como era desejo da maioria de seus integrantes.

A ideia original previa a premiação dupla de Liu e Deng Pufang (filho mais velho de Deng Xiaoping, o pai da modernização da China), paraplégico desde que Guardas Vermelhos da Revolução Cultural maoista o jogaram de uma janela da Universidade de Pequim, em 1968. Pensou-se ainda em outro coautor do manifesto Carta 08, Hu Jia. O galardão ficou em boas mãos. Liu representa todas as vítimas da repressão na China: as que já estão presas e as que não perdem por esperar.

"Mesmo em países autoritários, as redes de informação estão ajudando a descobrir novos fatos e tornar os governos mais responsáveis." Assim falou Hillary Clinton, um ano atrás, cutucando a China por seus ciberataques ao Google. "Um ataque à comunidade internacional", reclamou Hillary, no começo da semana, referindo-se não mais à Grande Muralha virtual erguida pelo governo chinês para que nenhum dos 400 milhões de usuários da internet no país possa acessar livremente o Google e mais uns 18 mil sites estrangeiros, mas ao WikiLeaks e seus vazamentos diários. Até o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, cobrou coerência democrática da secretária de Estado americana.

Talvez porque considere certa a extradição de Assange para os Estados Unidos, a partir da Suécia, Obama ainda não moveu uma palha contra ele e o WikiLeaks. Mas, antes que os britânicos entreguem o australiano às autoridades suecas (há um recurso da defesa, a ser julgado terça-feira próxima) e estas facilitem o seu enquadramento como espião pelo governo americano (com base num vago estatuto sobre crimes de espionagem de 1917), a gritaria pró e contra o australiano e os vazamentos do WikiLeaks promete atingir novos decibéis.

Os conservadores, com raras exceções, e a direita em peso entregaram-se à mais insana histeria, que até o secretário da Defesa, Robert Gates, qualificou de "significativamente exagerada". Se tivessem reagido da mesma maneira quando o governo Bush mentiu deslavadamente para ligar Saddam Hussein aos atentados do 11 de Setembro, pelo menos uma guerra teria sido evitada. Se não fossem tão desonestos, teriam antes se perguntado quem, afinal de contas, é "mais culpado" nesse imbróglio: quem vazou para o WikiLeaks ou quem vazou pelo WikiLeaks?

O que se tem dito e publicado de xingamentos e ameaças a Assange (delinquente! traidor! assassino! cadeia! pena de morte!) só não é mais espantoso que as aleivosias e os erros factuais que lhes têm servido de sustentação. Que Sarah Palin veja "sangue" nas mãos de Assange, ainda que ninguém tenha morrido por causa de algum vazamento do WikiLeaks, que políticos republicanos se proponham a caçar e executar com as próprias mãos o hacker australiano, a gente entende, acha até normal, mas é no mínimo repulsivo que jornalistas entrem nessa campanha também portando cordas, garrotes e açoites.

Todd Gitlin, da revista The New Republic, montou uma coluna inteira a partir de um pressuposto mentiroso. O WikiLeaks não divulgou de roldão 250 mil sigilosas mensagens diplomáticas. De tão explorada, essa balela corre o risco de virar "verdade", no sentido que o dr. Goebbels dava à palavra. Dos 251.297 documentos que tem guardados, o WikiLeaks divulgou, até o momento, cerca de mil. E só o fez depois de se aconselhar com as cinco organizações jornalísticas (The Guardian, The New York Times, El País, Le Monde, Der Spiegel) que aos vazamentos se associaram e por eles são corresponsáveis.

Em sua coluna na revista eletrônica Salon, Glenn Greenwald vem acompanhando como um bloody hound a campanha anti-WikiLeaks. É uma aula diária de jornalismo analítico. Na melhor tradição investigativa de I. F. Stone, Greenwald foi um dos primeiros a questionar a muito mal contada história dos "crimes sexuais" de Assange e levantar suspeitas sobre sua real motivação. Além de pôr em perspectiva a excêntrica legislação sueca no que diz respeito ao relacionamento sexual entre adultos, porta aberta para uma próspera indústria do (falso) estupro, mão na roda para mulheres levianas e advogados inescrupulosos, fez um pequeno inventário do uso político das intimidades de figuras incômodas usualmente praticado pela CIA e quejandos.

Lembrou-nos do processo de difamação a que submeteram o inspetor da ONU Scott Ritter quando este começou a falar a verdade sobre as armas de destruição em massa e da inopinada investigação sobre o relacionamento do ex-governador Eliot Spitzer com prostitutas justo quando ele se revelou uma ameaça aos vilões de Wall Street. É bastante provável que Assange faça parte desse time.(CHATTO & WINDUS)

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