Casamento à mesa

Se as cervejas com aromas e sabores diferentes - e mais complexos - do que a "loura gelada" já ganharam espaço considerável no copo do consumidor brasileiro, seu caminho até a mesa de almoços e jantares mais elaborados, em harmonia com os pratos servidos, ocorre aos poucos. Por isso, é uma boa notícia constatar que a ainda tímida bibliografia cervejeira em português ganha um reforço de peso.

Bob Fonseca, O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2012 | 03h11

Considerada a "Bíblia" da harmonização de cervejas, A Mesa do Mestre-Cervejeiro, de Garrett Oliver - responsável pelas fermentadas da nova-iorquina Brooklyn e referência em combinações de pratos com a bebida - é completa e fácil de entender.

O mestre-cervejeiro, porém, alerta que não há receita fácil: "Você vai ter de cozinhar, comprar ou encomendar boas refeições - a cerveja tradicional não vai fazer de um Big Mac um banquete. Mas é capaz de transformar um simples frango assado em uma refeição espetacular".

As combinações sugeridas vão da pilsen autêntica - e não lagers industriais - com pratos picantes e frutos do mar até a gueuze, cerveja ácida belga, com ceviche.

Criatividade e feijoada

À versão nacional, porém, cabem algumas ressalvas. Uma delas é que a localização das sugestões de harmonização está em texto corrido, e poderia ser simplificada em uma tabela. Oliver afirmou, em entrevista por e-mail, que o plano original era encartar na obra um livreto que as pessoas pudessem levar consigo na hora de fazer compras. "Mas então achamos que as pessoas poderiam simplesmente pegar o livreto e deixar o livro de lado. E a ideia é o leitor gastar um pouco de tempo pensando nas harmonizações, sem 'atalhos'."

Da mesma forma, o livro, de 2003, não contempla algumas "tendências" cervejeiras mais novas, como as india black ales. O mestre-cervejeiro afirma que "os princípios da harmonização não mudam". "Se você entender o caráter de lúpulo e frutado da IPA e as notas de caramelo e tostadas de uma schwarzbier, você pode mentalmente combiná-los para saber como harmonizar a chamada 'Black IPA'", afirmou.

"Acho que esse tipo de cerveja vai bem com feijoada, já que as notas tostadas combinam com as carnes grelhadas e os feijões, e o amargor tem o nível exato de 'corte' da gordura do prato."

A rolha indica que esta cerveja de 5% já tem bom tempo de guarda - há a inscrição do ano de 2004. Tem as notas ácidas mais potentes do quarteto - vale deixá-la "descansar" um pouco no copo para que elas se dissipem. Então surgem notas de cereja e madeira.

Vai para o copo? Sim, pela tradição da marca e idade da cerveja. Mas espere por muita acidez

Menos alcoólica do grupo (tem 4%), é também a que possui o maior residual adocicado. Púrpura, tem espuma rósea e cereja perceptível no aroma e sabor. As notas ácidas e acéticas ficam em segundo plano, sutis demais.

Vai para o copo? Pode ser opção para iniciantes ou quem não gosta de muita acidez. Devia ser menos adocicada e com o ácido mais equilibrado

Cerveja com bom

equilíbrio entre notas ácidas e acéticas e adocicadas e de cereja. Também tem final seco, um quê cítrico e é um pouco menos carbonatada do que as demais. É, ainda, a mais alcoólica do quarteto (7%) e mais clara.

Vai para o copo? Sim, é uma boa cerveja, com acidez agradável. Poderia só ter notas de madeira mais destacadas

Boon Kriek

Origem: Bélgica (375 ml)

R$ 29,90 no Mambo

Cantillon Kriek 100% Lambic

Origem: Bélgica (750 ml)

R$ 62,80 no The Ale House

Equilibrada e complexa, apresenta, além das notas de cereja, adocicadas, ácidas e acéticas, um quê de madeira perceptível no aroma e sabor. Final seco na boca e um amargo muito sutil facilitam a degustação. Tem 6% de teor alcoólico e coloração púrpura.

Vai para o copo? Sim, é uma boa cerveja, que vai além da acidez, do adocicado e das cerejas

De Ranke Kriek

Origem: Bélgica (750ml)

R$ 78 no Frangó

Lindemans Cuvée René

Origem: Bélgica (750ml)

R$ 52 no Empório Alto

dos Pinheiros

De origem belga, o estilo kriek tem como base a cerveja lambic (com fermentação espontânea e acidez potente), que recebe adição de cerejas do tipo schaarbeek. Há, à venda no Brasil, dez variantes do estilo. Algumas das mais interessantes estão ao lado.

A MESA DO MESTRE-CERVEJEIRO

Autor: Garrett Oliver

Editora: Senac São Paulo

(546 págs., R$ 99,90)

Depois de ter uma versão comemorativa da holandesa La Trappe Tripel ao celebrar 20 anos, em 2007, o bar cervejeiro Frangó lança uma cerveja própria nas bodas de prata. É uma american pale ale feita pela Colorado, com 4,5% de teor alcoólico, boas notas de lúpulo no aroma e amargor moderado. Ela será lançada dia 7 e custará R$ 25 (600 ml).

A Cervejaria Colorado abriga no sábado, em Ribeirão Preto (SP), o IPA Day, em homenagem ao estilo. Serão servidos em chope 18 variantes de IPAs brasileiras - incluindo quatro india black ales. Os convites custam R$ 90. Informações: 16 3441-5090.

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