CENÁRIOS 2009-Indústria enfrenta 'prova de fogo' no 1o trimestre

Os primeiros meses de 2009 serão a prova de fogo para a indústria, diante de um cenário que ainda é de incerteza sobre os reflexos da crise financeira global na atividade econômica brasileira. Neste momento, analistas e pesquisadores tentam decifrar que setores estão mais preparados e quais são os mais vulneráveis para enfrentar a desaceleração mundial. O economista Antônio Corrêa de Lacerda prevê mais impacto em setores ligados a commodities, como petróleo e gás, celulose e papel, mineração e siderurgia, já que o desaquecimento leva os preços das matérias-primas para baixo. Por outro lado, pondera, "o desafio para o mercado de bens duráveis será o nível de confiança do consumidor, além do crédito, que é fundamental". Com isso, "muito do que vai acontecer no nível da atividade em 2009 depende do sucesso das ações do governo". A opinião é compartilhada por Luis Motta, sócio da KPMG. "A primeira questão para 2009 é a liquidez. É um momento de reflexão, de estabelecer prioridades para o caixa. O caixa é o rei", afirmou em encontro recente com a imprensa. O segmento de bens de capital, na avaliação de Lacerda, deve continuar aquecido. "O câmbio favorece a indústria local, que estava sendo fortemente prejudicada pela concorrência dos chineses", afirmou. INFORMÁTICA E TELEFONIA AQUECIDOS Até o mês de outubro, o segmento de telefonia móvel já vivia em 2008 o melhor ano da história, segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), com 61 por cento de aumento no número de linhas ativadas sobre 2007. A expectativa da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) é de que o segmento continue aquecido em 2009. "A implantação das redes de terceira geração está acontecendo, o que demanda investimentos em infra-estrutura e, com a portabilidade numérica, as operadoras não vão poder parar de investir", comentou o presidente da Abinee, Humberto Barbato, a jornalistas. O presidente da Claro, João Cox, por exemplo, estimou que a telefonia móvel continue com crescimento de dois dígitos em 2009, afirmando não ter percebido nenhum sinal de desaquecimento na telefonia ou na banda larga móvel. A área de informática também não deu sinais de arrefecimento no consumo até agora. As vendas de computadores devem crescer 20 por cento em unidades sobre 2007, segundo a Abinee. "HORA DA VERDADE" Mas o setor de embalagem, tradicional termômetro da economia, já sente alguns adiamentos e cancelamentos ao longo da cadeia. Segundo Paulo Nigro, presidente da Tetra Pak do Brasil, ainda não há efeito direto no consumo. Mas "se você pegar a indústria para qual a gente está servindo, a gente já tem sentido uma desaceleração dos investimentos. Adiamentos e cancelamentos", acrescentou. Ele avalia que o primeiro trimestre de 2009 será a "hora da verdade". Isso porque em dezembro, como as pessoas têm o décimo terceiro salário e o período é de festas de final de ano, o consumo segue aquecido. "A hora da verdade vai ser o primeiro trimestre do ano que vem. Ali vai ser o teste ácido", disse. Segundo Nigro, a Tetra Pak vinha crescendo a um ritmo de 7 por cento de janeiro a outubro, comparado a igual período de 2007. "Em novembro, a gente percebeu uma pequena inflexão na curva. No ano todo devemos crescer uns 6 por cento", afirmou. "O Brasil agora tem que abrir um pouquinho a torneira. O consumidor precisa adquirir confiança. Para adquirir confiança, tem que ter a certeza de que não vai perder o posto de trabalho. Para isso, as empresas têm que produzir. Para produzir, precisa ter crédito." Para Motta, da KPMG, é importante lembrar que este é um contexto de risco, mas também de oportunidade. "A hora do empreendedor é esta", avaliou. (Reportagem adicional de Fernando Exman, em Brasília; Edição de Alexandre Caverni e Daniela Machado)

TAÍS FUOCO, REUTERS

15 Dezembro 2008 | 16h25

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