CFM é contra novas faculdades e importação de médicos

Com 4,5% da população médica mundial e 197 escolas de medicina pondo milhares de profissionais todos os anos no mercado, o Brasil ocupa o segundo lugar no ranking global de formação superior na área de saúde, atrás apenas da Índia (272), que tem população seis vezes maior. Está à frente de 188 nações, entre as quais a China (150) e todos os países europeus, e tem 61 escolas a mais que os Estados Unidos (137), cuja população é 63% maior. Os profissionais, entretanto, estão mal distribuídos e a saúde pública vive situação caótica na maior parte do território nacional.

VANNILDO MENDES, Agência Estado

11 Dezembro 2012 | 16h49

Os dados fazem parte de uma campanha iniciada nesta terça-feira pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) contra a proposta do governo federal de novas faculdades e a abertura do mercado para importação de médicos de Cuba e da Bolívia. "É uma falácia dizer que faltam médicos no País. Eles são suficientes, mas estão mal distribuídos porque não há política pública de valorização da saúde e dos profissionais do setor", afirmou em entrevista à imprensa o presidente do conselho, Roberto Luiz D''Ávila.

Desde a década de 1990, conforme dados do CFM, o Brasil vive o boom de abertura de escolas de medicina, que aumentaram em 137% no período. Dessas, 62% estão nas Regiões Sul e Sudeste. Do total de novas, 114 são privadas e 83 públicas, das quais apenas 15 federais. Outras 15 escolas de medicina estão em construção no País, sendo as mais adiantadas as de Olinda, em Pernambuco, Estado que já tem seis cursos; Erechim (RS), que conta com 11 unidades; e Francisco Beltrão, no Paraná, Estado onde 11 escolas oferecem 1.007 vagas.

Segundo avaliação do CFM, a maioria desses projetos novos não atende à necessidade social, e as diretrizes curriculares não atendem a pressupostos mínimos para formação de futuros médicos, sendo que o foco é voltado para atendimento na rede privada, em detrimento do Sistema Único de Saúde, cada vez mais sucateado. "O ensino está fragmentado, com desvalorização da integralidade do cuidado com o paciente", observou o dirigente. Na opinião dele, faltam professores qualificados, a estrutura das unidades é deficiente e há distanciamento entre sala de aula e os campos de estágio (hospitais e postos de saúde).

Com mais de 370 mil profissionais, o Brasil é o quinto país do mundo em número absoluto de médicos, que representam 19% dos que atuam nas Américas. A taxa brasileira é de 1,95 médico por mil habitantes, enquanto a média mundial é de 1,4 e o índice recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é de 2,5 profissionais por mil habitantes. O maior problema é que eles estão mal distribuídos e poucos vão para o interior. A pior situação é a da Região Norte (taxa de 0,9), seguida por Nordeste (1,19) e Centro-Oeste (1,99). A melhor situação fica no Sudeste (2,61) e Sul (2,03).

Para ele, há falta de qualidade no ensino e uma política capaz de fixar os médicos no interior. "Estamos vendo um grave problema com essa proliferação de escolas, sem corpo docente qualificado, sem infraestrutura, sem nada. Vamos formar médicos mal preparados para atender a população", criticou. No interior do Brasil, os vazios assistenciais não podem, a seu ver, ser ocupados com médicos mal preparados. "É uma imensa irresponsabilidade das equipes que estão propondo abertura de escolas sem a qualidade minimamente desejada."

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