Como fazer um filme antes dos 20

Estudante de cinema filma seu primeiro longa, financiado com o dinheiro de uma rifa de uma garrafa de uísque

Bruno Galo, de O Estado de S. Paulo,

15 Junho 2009 | 18h11

Fazer um longa metragem não é tarefa fácil - ainda mais no Brasil. Lançar o filme no circuito, então, é para poucos. Aos 20 anos, o brasiliense Matheus Souza, conseguiu os dois feitos.   Nerd assumido, ele mora no Rio de Janeiro e cursa o último ano da faculdade de cinema. Decidido, conta que "nunca tinha feito nem vídeo para o YouTube. Queria fazer cinema, queria ver meu filme na sala escura".   Em Apenas o Fim, que estreou na quinta-feira (11) em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília (e, dependendo do sucesso, pode ir para outras praças), Matheus escolheu falar da sua geração, "criada pela TV a cabo e educada pela internet".   Foi na rede que ele encontrou uma aliada para divulgar seu filme e foi na rede que ele fez várias ações para fazer o filme acontecer.   O protagonista de Apenas o Fim, Tom, tem um blog (http://www.apenasoblog.wordpress.com), em que escreve sobre seus problemas e pede conselhos para superar uma crise no relacionamento. A conclusão dessa história é contada depois - o que acontece no blog é uma prévia do filme - pura transmídia.   Quer dizer, qualquer um pode assistir ao filme e entendê-lo, mas para saber mais sobre o personagem, e o que aconteceu antes do longa, só lendo o blog. Os posts são escritos pelo próprio Matheus. Em um deles, escreve: "Ninguém me aguenta mais falando sobre isso (a tal crise no namoro). Até minha terapeuta muda de assunto e pergunta sobre minha mãe. Este blog foi o que me restou".   Recheada de referências pop, como Cavalheiros do Zodíaco e Transformers, e cinematográficas, como Godard e Bergman, a comédia romântica ("feita em esquema de guerrilha, todo mundo ajudou", explica o diretor) foi realizada com equipamento digital dentro da faculdade em que ele estuda. Essa foi uma das limitações impostas pela universidade - e diga-se de passagem, bem contornada pelo diretor estreante - para emprestar seus equipamentos.   RIFA   Feita com o dinheiro de uma rifa de uísque durante as férias escolares, a modesta produção venceu o Festival do Rio e a Mostra de São Paulo (os dois maiores festivais de cinema do País), como melhor filme pelo voto popular. Matheus aposta em diálogos ora leves, ora intensos, e longos planos-sequência para contar a última hora que esse jovem casal passou junto. A referência mais clara está nos ótimos Antes do Amanhecer (1995) e sua continuação Antes do Pôr-do-Sol (2004), de Richard Linklater. Matheus confirma a fonte, mas diz que seu cineasta preferido é Woody Allen.   A paixão pelo cinema, entretanto, veio bem antes dele conhecer o diretor nova-iorquino. "A Bela e a Fera (da Disney) foi o primeiro filme que eu vi no cinema, quando tinha uns três anos, e saquei na hora que era aquilo que eu queria fazer." Ele pode até não ter enveredado pelo caminho da animação, mas é nos desenhos em computação gráfica da Pixar que ele acredita que o melhor e mais apaixonado cinema está sendo feito hoje em Hollywood. "Ratatouille e Wall-E são obras primas da história do cinema. São, pra mim, quase Chaplin."   ONLINE   Longe dos filmes, é conectado que ele encontra seu habitat natural. "Quando estou offline, fico neurótico. Preciso saber o que está acontecendo", garante. Ele usa o computador para quase tudo: se comunicar, se informar, se divertir, menos ver filmes. "Não tô levantando nenhuma bandeira contra pirataria, mas para mim filme é para ser visto no cinema", diz ele, que garante assistir tudo que está em cartaz.   "Quando acabam os filmes bons, vejo os ruins." Atualmente, aguarda ansioso a chance de assistir ao filme filme independente norte-americano chamado Fanboys, que conta a história de um grupo de amigos loucos por Guerra nas Estrelas. O longa foi lançado no início do ano nos EUA e não tem previsão de lançamento no Brasil. Matheus admite que nesse caso acha justificável baixar o arquivo, uma vez que pode ser que não haverá outro jeito de ver o filme. Mas, ele diz que resiste e torce para que o filme seja lançado em DVD.   Fã de games, ele têm andado sem tempo para gastar com seus PSP e PS3. De qualquer forma, já planeja próximos trabalhos. Até já filmou um: Por Enquanto, seu projeto de conclusão de curso. Para quem vê nele um prodígio, ele é o primeiro a desfazer o mau entendido: "Sou só um cara de 20 anos, que fez um filme". É, Apenas o Fim tem tudo para ser apenas o começo de Matheus.    Pouca grana e J.J. Abrams inspiram campanha online   Na hora de lançar o filme no cinema, Matheus pensou "como fazer isso com pouca grana". Lembrou-se de J.J. Abrams (criador de Lost, produtor de Cloverfield e diretor do último Jornada nas Estrelas, produções que tiveram uma maciça divulgação online) de quem é grande admirador e, guardada as devidas proporções, decidiu também apostar na web.   Antenado com o seu público alvo, Matheus bolou uma série de iniciativas online, espalhando o filme, pelas principais redes sociais, como Twitter, Orkut, Facebook, etc.   No canal do filme no YouTube, por exemplo, é possível assistir conselhos de pessoas famosos como Regina Casé e Marcelo Adnet (que faz uma participação especial no filme) para o protagonista Tom lidar com seu namoro em crise.   A partir do site oficial (http://www.apenasofimfilme.com.br/) é possível acessar todas as iniciativas online do projeto.

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