Conforte-me com jambu, pastel, tucupi

Estrela do jornalismo gastronômico dos EUA nunca viu nada parecido

Cíntia Bertolino,

06 Agosto 2009 | 10h01

Não foi difícil reconhecer Ruth Reichl no aeroporto apinhado de gente. Apesar de a cabeleira negra encaracolada, sua marca registrada, ter sido domada e esticada, seria improvável não notar o enorme peixe amarelo pintado numa folha de coqueiro que ela carregava com cuidado. A editora da revista americana Gourmet, ex-crítica de restaurantes do jornal The New York Times e autora de best sellers, entre eles Alhos e Safiras (em que conta como se disfarçava com perucas e figurinos estranhos para não ser reconhecida em Nova York), veio ao Brasil para filmar um episódio do programa Gourmet TV em Paraty. Foi uma viagem a jato, de quatro dias. O tempo chuvoso atrapalhou um pouco os planos, mas não afetou seu entusiasmo: "No segundo dia em Paraty, fomos conhecer uma senhora que faz farinha de mandioca artesanal. O dia estava horrível, mas foi fascinante." Uma das pessoas mais influentes da gastronomia americana, Ruth Reichl embarcou de volta para Nova York na noite de domingo. Na quarta-feira partiria para a China e o Laos, onde vai filmar novos episódios do programa. A crítica, que ainda muito jovem aprendeu que "cozinhar era a forma mais fácil de fazer as pessoas felizes", falou ao Paladar, pouco antes do check-in em Cumbica. É sua primeira vez no Brasil? Sim, já viajei bastante pela América central, mas nunca pela América do Sul. Estou familiarizada com comida de muitas partes do mundo, mas, como a maior parte dos norte-americanos, não conheço quase nada da cozinha brasileira. E essa cozinha tem um ar misterioso para mim. Do pouco que você viu nesses quatro dias, o que achou? Achei incrível. Tentamos explorar um pouco da tradição culinária indígena, das influências africanas e portuguesas na cozinha de vocês. Essas três culturas se juntaram de uma forma tão interessante! Experimentou muita coisa? Nos Estados Unidos não é difícil encontrar cachaça, mas as pessoas desconhecem as inúmeras formas de utilizá-la. Conheci coisas extraordinárias como jambu, tucupi e frutas incríveis, que para mim são completamente exóticas. O que mais a surpreendeu? Uma das grandes descobertas dessa viagem foi experimentar palmito fresco e cru, não aquele saído de uma lata, e fresco grelhado. É um ingrediente inacreditável. Fui ver como a cachaça é feita, conversei com os pescadores. Estávamos viajando de barco, tivemos algumas noites estreladas incrivelmente lindas e românticas, comendo camarões deliciosos. Vai sentir saudade de algum prato ou ingrediente? Adorei jambu. Nunca tinha visto nada parecido. É mágica o que ele provoca na boca. Você cozinhou aqui? Sim, fizemos bobó, pato no tucupi e muitas receitas de origem portuguesa. Ah, também fizemos algo extraordinário: couve, cortada muito fina, e depois frita. Disseram-me que em Minas Gerais uma moça não pode se casar antes de aprender a cortar couve. Quem vai substituir o crítico de restaurantes do ‘NYT’ Frank Bruni? Acredito que eles estejam querendo alguém de dentro do próprio Times. Acho que sei quem será o sucessor de Bruni. Mas não posso contar... Conheço bem uma das pessoas convidadas, mas não sei se essa pessoa vai aceitar. Como crítica do ‘NYT’ você jantava fora dez vezes por semana. Agora sai com que frequência? Há dois anos meu filho foi para a faculdade. Antes disso eu não saía muito. Preferia ficar em casa cozinhando. Foi para isso, afinal, que deixei o emprego no Times, mas agora eu e meu marido saímos bastante. Você é uma celebridade sempre que entra em restaurantes? Nem tanto. Os chefs me conhecem, claro, mas sou mais reconhecida no mercado. As pessoas me perguntam onde jantar, pedem receitas... Viajei com as atrizes Frances McDormand (Queime Depois de Ler) pelo Tennessee e Lorraine Bracco (Os Sopranos) pelo Marrocos, para filmar dois episódios do programa e elas sim são celebridades, são reconhecidas o tempo todo. Como estão os restaurantes nova-iorquinos? Este não é um grande momento para os restaurantes de Nova York. A recessão deixou todo mundo assustado. Falta ousadia. Acho que a última grande novidade aconteceu há uns cinco anos, com o chef David Chang, que faz uma cozinha muito interessante e não cobra preços exorbitantes. Você ainda acredita que a comida possa mudar a vida das pessoas? Com certeza. Todos deveríamos dar mais atenção, tentar entender nossas fomes, nossos apetites. No momento em que você se alimenta de junk food, está dizendo "eu não me importo", para mim é uma falta de respeito consigo mesmo. Comer qualquer coisa, desprezar o prazer, é um jeito bastante ruim de passar pela vida. Você teve um restaurante na década de 70. Pensa em abrir outro? Não, de jeito nenhum. Sendo uma ex-crítica de restaurantes eu teria que ser idiota para abrir um (risos). Muita gente teria um tremendo prazer em dizer coisas horríveis sobre minha cozinha, especialmente alguns chefs. Quando Bryan Miller, meu predecessor, saiu do The New York Times, ele costumava organizar jantares em que cozinhava e chamava chefs para criticá-lo. Isso não é uma boa ideia. As pessoas ficam esperando para vê-lo fazer papel de tolo (risos).

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