Contra o preconceito. Até nas minorias

A luta principal continua sendo combater o preconceito no Brasil - e sua face extrema, que se traduz em estatísticas como as 2.432 violações a direitos de homossexuais entre janeiro e setembro e um total de 1,3 milhão de mulheres agredidas em 2010. Mas as organizações sociais identificaram que precisam enfrentar outro problema: evitar a segregação dentro dos próprios grupos vítimas de preconceito. E elas já se mobilizam para coibir o desrespeito.

JOSÉ GABRIEL NAVARRO , THIAGO LASCO, O Estado de S.Paulo

10 Dezembro 2011 | 03h10

A advogada Lia Lopes, de 24 anos, fez parte da comissão que desenvolveu iniciativas contra o racismo no coletivo Jovens Feministas de SP. "Machismo, racismo e homofobia estão na formação de muitos", diz Lia. "Quando se entra na militância sem perspectiva mais abrangente dos direitos humanos, a tendência é uma luta segmentada."

No grupo, Lia incentivou discussões sobre como a questão racial pautou o feminismo, por exemplo. "O feminismo começou com mulheres brancas, que tinham tempo para reivindicar direitos. As negras estavam ocupadas trabalhando", explica. "Por isso, foi preciso trazer a discussão racial para a batalha contra o sexismo." O coletivo também passou a divulgar em seu site eventos sobre questões étnicas e se articulou com entidades que combatem outros tipos de discriminação.

Entre os homossexuais, o preconceito de classe é um dos mais identificados e tem reflexo inclusive na Parada LGBT. "Alguns não vão à Parada porque não querem se misturar e dizem que ali só tem 'gente feia'", conta Beto de Jesus, presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. "Mas estamos atentos para não repetir os preconceitos e estereótipos da sociedade. Se a gente nota que um companheiro apresenta comportamentos de misoginia ou racismo, chama a pessoa para conversar."

A antropóloga Isadora Lins França, da Unicamp, explica que o preconceito é algo social - e não natural. "Por isso, o fato de ser negro, gay ou pertencer a uma minoria não significa que a pessoa está isenta de preconceitos." Segundo ela, as conquistas históricas de mulheres, negros e homossexuais, em termos de avanços contra a discriminação e conquista de direitos, mostram que a situação pode ser mudada pela ação política. E o primeiro passo seria reconhecer os sinais de preconceito. "Assim, podemos questioná-lo e desmontá-lo."

Opinião semelhante tem o coordenador de projetos do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdade (Ceert), Daniel Teixeira, de 28 anos. Ele conta que, mesmo velados, os preconceitos acabam desencadeando gestos de discriminação entre militantes. "Reconhecer o preconceito tem sido um grande problema. Mas como é possível, por exemplo, combater o racismo de maneira ampla sem isso?"

Especialistas dizem que o preconceito pode ser encontrado mesmo em movimentos culturais que se esforçam para combatê-los. Seria o caso do hip hop, que luta contra o racismo, mas em alguns momentos trata de forma discriminatória mulheres e homossexuais. "Esse comportamento é apenas uma variante do que se vê na população", diz o sociólogo Marcio Macedo.

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