Crédito caro pode encurtar vida de novas empresas

Recursos de quem resolveu empreender por necessidade estão comprometidos na nova realidade econômica

Estevão Taiar, Mariana Lima e Patrícia de Oliveira, Especial para O Estado

08 Agosto 2015 | 03h00

A pequena fábrica de camisetas ImaginaPix, em Guarulhos (SP), só existe porque a vida de Leandro Santoro mudou muito desde outubro, quando perdeu o emprego. Ele e um amigo de trabalho usaram o dinheiro da rescisão para abrir a empresa, engrossando a lista dos que empreendem não por opção, mas por necessidade. É um fenômeno comum em momentos de crise, mas que desta vez conta com um agravante: a escassez de crédito a juros acessíveis.

“Os bancos têm aumentado as taxas desde o fim do ano passado e o crédito está restrito. Não é um bom cenário para ser empreendedor”, alerta o economista Sérgio Vale, da MB Associados. O custo do financiamento bancário acompanha o aperto do Banco Central, que elevou a taxa Selic de 11% para 14,25% ao longo de nove meses.

A falta de dinheiro já no início pode encurtar a vida das novas empresas. Para driblar os juros altos, os empreendedores precisarão usar a criatividade. “Eles devem buscar sócios, parcerias ou criar negócios que exijam mais capital intelectual do que recursos financeiros”, diz o coordenador de Inovação e Empreendedorismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Alexandre Ghobril.

Os bancos populares podem ser uma alternativa para quem quer fugir das altas taxas. No Banco do Nordeste, instituição que já atendeu 2,3 milhões de empreendedores, a procura pela principal linha de financiamento cresceu 8,75% em 2014. O motivo é simples: as taxas estão entre 0,99% e 1,8% mensais. O Banco do Povo Paulista também promete manter os juros baixos, em 0,35% ao mês.

Esses bancos contrastam com o sistema financeiro tradicional, que costuma ser inacessível para as pequenas empresas, diz o ministro da Secretaria da Micro e Pequena Empresa (SMPE), Guilherme Afif Domingos. “Elas se financiam com os próprios fornecedores, com cheque especial e até com dinheiro de seus parentes.” 

Na crise, a rescisão e o FGTS se tornam fonte de recursos para empreendedores. Isso tende a se tornar mais comum com o aumento do desemprego, que chegou a 6,9% em junho contra 4,8% no mesmo período de 2014. “Com menos vagas disponíveis, abrir um negócio é a única saída para muita gente”, diz o coordenador do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV, Tales Andreassi.

Demitido, Leandro Santoro decidiu que era hora de tirar da gaveta a ideia de abrir uma fábrica de camisetas. “Mesmo em épocas de crise, é algo de uso diário, um produto que as pessoas não deixam de comprar”, afirma. Estudou o mercado, pediu apoio da família e concluiu que virar o próprio chefe era o que podia fazer naquele momento.

No universo de empreendedores pesquisados pelo Monitor Global do Empreendedorismo (GEM, na sigla em inglês), a taxa de pessoas que vão abrir uma empresa por necessidade no Brasil deve subir de 29% para 35% até dezembro.

Investimento. Enquanto os novos tentam se estabelecer, quem já estava no mercado está com dificuldade de sobreviver. Principal fornecedor de crédito para investimentos, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vem subindo gradualmente a taxa de juros para micro e pequenas empresas. Nos últimos 12 meses, passou de 0,9% para 1,11%. A mudança pegou de surpresa quem contava com esse financiamento para alavancar a produtividade e as vendas.

O empresário Santoro, por exemplo, deve adiar o aumento da produção de camisetas que planejou. Ele visitou bancos tradicionais, que fazem a intermediação entre clientes e o BNDES. Mas se espantou com a taxa cobrada. “O BNDES não tem agência, então você fica na mão dos bancos.”

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