Marcelo del Pozo/Reuters
Marcelo del Pozo/Reuters

Da Rússia, sem amor

Torcida do Zenit, de São Petersburgo, pede que a equipe passe a ter apenas jogadores brancos e heterossexuais

Rob Hughes, The New York Times

22 Dezembro 2012 | 17h07

Desde que um fenômeno de 17 anos esteve na Suécia para ajudar o Brasil a vencer a Copa do Mundo de 1958, o futebol percorreu um longo caminho no sentido da integração. Os suecos não podiam deixar de notar que Pelé era negro, mas percebiam que, para a beleza de suas jogadas, isso não tinha a menor importância.

Qual foi o avanço empreendido desde então pelo esporte de Pelé, o mais globalizado de todos? A indagação é suscitada pelo que vemos a nossa volta, sobretudo na Europa. No mês passado, torcedores sérvios guincharam como macacos para provocar os jogadores negros da seleção inglesa sub-21, e a Uefa, o órgão regulador do futebol na Europa, aplicou penalidades meramente simbólicas à federação sérvia por permitir que isso acontecesse.

O fato é que, com os principais clubes europeus tão bem servidos de jogadores de todas as cores, credos e nacionalidades, atingimos um estágio em que a intolerância, além de ser coisa do passado, é prova de estupidez estonteante. Mas vejamos o que nos chega agora da Rússia, e sem amor.

Na segunda-feira, a maior torcida organizada do atual campeão russo, o Zenit, de São Petersburgo, publicou em seu site na internet o pedido de que a equipe passe a ser composta exclusivamente de jogadores brancos e heterossexuais.

A primeira reação de pessoas sensatas talvez seja pensar: vamos ignorar essa gente, quem sabe acabem se engasgando com a própria retórica. Acontece que o Zenit é praticamente um órgão do Estado russo. O clube é administrado e financiado pela Gazprom, a gigante estatal de petróleo e gás, que despeja rios de dinheiro na equipe a fim de torná-la competitiva para a disputa da Liga dos Campeões, em que os recursos estrangeiros são cada vez mais importantes na montagem de plantéis talentosos e estrelados.

Tanto o presidente Vladimir Putin como o primeiro-ministro Dmitri Medvedev nasceram em São Petersburgo e são torcedores do Zenit. Há apenas alguns meses, a seção de São Petersburgo do Partido Comunista russo publicou uma carta aberta ao presidente do país pedindo que ele "salvasse" o clube dos conflitos internos provocados pela revolta dos jogadores locais contra os salários que foram oferecidos ao brasileiro Hulk e ao belga Axel Witsel para convencê-los a ir para São Petersburgo.

Agora que esse incêndio foi apagado, uma segunda "carta aberta" trouxe à tona a questão da cor da pele. Hulk, cujo nome é Givanildo Vieira de Souza, tem a pele escura. Witsel, cujo pai nasceu na Martinica, nas Antilhas francesas, também. Para a maioria de nós, são apenas dois jogadores de futebol - no caso de Hulk, um atacante possante e habilidoso, cujos périplos pelos mercados do futebol já o levaram do Brasil ao Japão e de lá a Portugal e, então, em agosto passado, de Portugal à Rússia.

A torcida organizada Landscrona publicou o que o grupo chamou de manifesto na segunda-feira. "Não somos racistas", diz o texto. "Para nós, a ausência de jogadores negros no Zenit é só uma tradição importante, que realça a identidade do time e nada mais." Mas isso não é racismo nem intolerância, sustentam eles.

(In)Dignidade. Alguma coisa se perdeu na tradução ou no entendimento humano, porque a diatribe afirma com clareza: "Os jogadores de pele escura foram praticamente empurrados goela abaixo do elenco do Zenit e isso só poderia provocar uma reação negativa". E, como se já não tivessem dito o suficiente, eles acrescentam: "Os jogadores gays não são dignos desta nossa grande cidade".

São Petersburgo é uma grande cidade da Revolução Russa. Seu time de futebol, que agora se chama Zenit, era formado por metalúrgicos quando a cidade tinha o nome de Leningrado. E seus adversários novos-ricos na liga russa não pensam duas vezes antes de recrutar jogadores famosos no Brasil, em Camarões ou onde quer que seja. O que eles querem é desafiar o poderio do Zenit, ou mesmo superá-lo.

Mas os integrantes da torcida Landscrona são explícitos: "Na condição de clube mais setentrional de todas as principais cidades europeias, nunca tivemos nenhuma ligação com a África, com a América do Sul ou com a Austrália e a Oceania. Não temos absolutamente nada contra as pessoas desses ou de quaisquer outros continentes. Tudo que queremos são jogadores que venham de países eslavos como o nosso, como a Ucrânia e a Bielorrússia, ou então de países bálticos ou escandinavos".

Por esse critério, o holandês Dick Advocaat não poderia ter sido o técnico que levou o time à conquista do campeonato russo em 2007. O mesmo vale para Luciano Spalletti, o florentino que introduziu certos princípios italianos no modo de jogar do Zenit e conquistou dois títulos desde que passou a dirigir a equipe, no fim de 2009.

Spalletti é um sujeito que não faz pouco da liberdade de expressão. Na segunda-feira, enquanto os dirigentes do clube se limitavam a emitir um comunicado oficial informando que sua política de contratação continuará voltada para a comunidade mundial de jogadores, o treinador foi logo tocando na questão do racismo.

"Para mim, tolerância é a capacidade de entender e aceitar as diferenças", afirmou o treinador no site do clube. E, para não dar margem a mal-entendidos, acrescentou: "Ser tolerante significa que você luta contra todo tipo de estupidez".

Enquanto estiver no comando da equipe - algo que talvez não dependa apenas dos resultados obtidos -, Spalletti obviamente defenderá seus princípios. "Posso garantir a todos", prosseguiu ele, "que farei tudo que estiver a meu alcance para ajudar aqueles que tentam explicar às pessoas o significado da tolerância e a necessidade de respeitar outras culturas e tradições. A equipe reúne jogadores de diferentes países e grupos étnicos e eles se dedicam juntos a atingir um objetivo comum e fazer um bom trabalho."

Na Ucrânia, um bom exemplo. O que Spalletti não diz é que é o dinheiro, contado aos milhões que elimina os últimos vestígios de intolerância racial entre as quatro paredes dos vestiários.

O que todos nós podemos ver, e ouvir, é que jogadores tidos como importantes, como John Terry, do Chelsea, e Luis Suárez, do Liverpool, estão tendo de aprender na marra que palavras e atitudes racistas não são toleradas no ambiente multicultural que hoje prevalece no futebol.

Mas, com o dinheiro atualmente disponível no Leste Europeu, o melhor exemplo de integração vem dos próprios gramados. Seu principal expoente é Shakhtar Donetsk, cuja mescla de defensores ucranianos e meio-campistas e atacantes brasileiros tem dado resultados incríveis na atual temporada da Liga dos Campeões.

Ver Fernandinho, Douglas ou Alex Teixeira criar chances para Luiz Adriano e William converterem em gols para a equipe ucraniana é assistir a uma aula prática sobre a capacidade de adaptação dos brasileiros na mais inóspita das regiões industriais e no mais frio dos climas. Os jogadores passam a bola e se deslocam como só pessoas verdadeiramente integradas são capazes. Os torcedores sabem disso. E pôr em questão a cor da pele de um jogador é tão irrelevante hoje como era na época de Pelé.

TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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