De hippie a doutora em mulheres

A psiquiatra Neusa Steiner conta em romance a trajetória de brasileiras que batalharam pelas conquistas feministas

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

03 Janeiro 2010 | 00h00

O feminismo está em baixa? O que aconteceu com a mulher que rasgou o sutiã em praça pública na década de 60? Num consultório da Avenida Pompeia, zona oeste de São Paulo, a psiquiatra Neusa Steiner lida com a angústia da mulher paulistana que batalhou muito no passado pela liberdade de escolher o próprio destino. "Hoje elas chegam ao consultório deprimidas, pois não sabem o que querem. Buscam símbolos inalcançáveis de sucesso, como não envelhecer e ter o corpo perfeito", diz a psiquiatra. "As escolhas viraram imposições difíceis."

Além da especialização em Psicologia Analítica, Neusa tem na bagagem uma juventude riponga, engajada na conquista dos direitos da mulher. Tudo começou na década de 70, efervescência do movimento feminista, quando a então estudante da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mergulhou no clima paz e amor do câmpus. De mochila nas costas e sem dinheiro no bolso, ela resolveu cair na estrada com o namorado. Foram para a Via Dutra pedir carona. O destino: Bahia.

Quase quatro décadas depois, dois casamentos, dois filhos e muita pesquisa clínica e acadêmica, Neusa achou, aos 60 anos, um jeito de contar um pouco de sua trajetória e de tantas outras mulheres. E esse jeito foi escrever um romance baseado na biografia de uma personagem improvável, Claudia Dias Batista de Souza, a Monja Cohen, de 62 anos.

"A figura única, de vestes monásticas e cabeça raspada, que aparentemente seria a negação do feminino, tem uma história de erros e acertos que representam a capacidade de luta e de superação das mulheres", explica a psiquiatra. Antes de optar pela vida monástica, Claudia teve uma trajetória agitada, com bebedeiras, tentativa de suicídio, viagens alucinógenas com LSD e até prisão na Suécia. O link entre autora e personagem estava feito.

"Enquanto escrevia o romance, encontrava a minha própria história. Passei pelos dias belos e trágicos de uma geração. Também acreditei que o LSD salvaria o mundo", escreve Neusa. Monja Coen - A Mulher nos Jardins de Buda (Editora Mescla, 263 páginas, R$ 53,90), lançado em dezembro, é uma história que fala sobre as mulheres e suas dores. A dor de amar, nascer, se perder e se encontrar. A dor da própria terapeuta para chegar até os dias de hoje.

OUTRAS VIAGENS

O livro também é fruto do trabalho diário de psicologia analítica que Neusa começou no fim da década de 1970, já instalada em um consultório na Vila Madalena, zona oeste, dividido com cinco terapeutas. "Percebemos que tínhamos muitas clientes com questões semelhantes", conta. "Eram mulheres que procuravam um novo posicionamento: casadas que queriam mais independência; solteiras à procura de outras formas de casamento; e mães dispostas a voltar para o mercado de trabalho, mas preocupadas em como ficaria a relação com os maridos."

Neusa e as amigas terapeutas resolveram montar um grupo com essas pacientes, que aceitaram participar de uma vivência fora do consultório. Numa caminhonete adaptada com cabine dupla e frigobar, foram para São Tomé das Letras (MG). "Os maridos ficaram preocupados, deram instruções de caminho. Houve marido que arrumou a bagagem no porta-malas", conta Neusa, que ainda se diverte com a história. "Estávamos empolgadíssimas. Eu dizia "deixa comigo, sei o caminho," mas logo na saída da cidade dei instruções erradas."

Na estrada, o grupo formado só por mulheres chamava a atenção por onde passava. "Um dia fomos à cachoeira e, quando voltamos, estava escrito no carro "As ninfas do véu da noiva". Estávamos rompendo costumes."

Era o primeiro momento do feminismo, e as mulheres usufruíam o gosto da liberdade. "Depois veio a segunda fase. O movimento se resumiu às queixas sobre os homens. Eles ficaram desamparados e elas tiveram de lidar com isso. Hoje, existe a falsa ideia de que tudo já foi conquistado."

Neusa conta que recebeu no consultório uma paciente que estava em crise porque queria apenas cuidar do filho e da casa, mas ninguém de sua família aceitava que ela, depois de ter cursado uma faculdade, não sairia à luta para o mercado de trabalho. "As mulheres cobram das mulheres uma determinada postura, como se não existisse uma liberdade de escolha."

É uma postura diferente da dos homens. "Eles continuam sabendo se divertir. Independentemente do estado civil e da condição financeira, conseguem se organizar, por exemplo, para jogar futebol uma vez por semana. Já as mulheres não conseguem fazer isso naturalmente", observa.

Ter ou não filhos, o medo de envelhecer, a carreira e a necessidade de recuperar os sonhos perdidos na batalha diária de uma vida prática e produtiva similar ao do homem são alguns dos temas que consomem a mulher moderna. E onde ficou aquele sentimento de liberdade capaz de levar a ex-estudante à aventura de ir para estrada, a fim de uma carona, para uma viagem sem qualquer tipo de planejamento? "Esta é uma sensação inesquecível que vai dar um outro livro, De Carona com Leila Diniz", responde Neusa. Quando estava na Dutra, com o polegar apontado para cima, um Fusquinha parou para o casal de namorados. Dentro, estava Leila Diniz. A carona ao lado de um símbolo do feminismo no Brasil não termina na chegada ao Rio do início dos anos 70.

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