Delegado diz que é evidente ligação de militares com tráfico
Para Ricardo Dominguez, soldado cuja família mora no Complexo de São Carlos é ligação com tráfico
O delegado-titular da 4ª Delegacia de Polícia (Central do Brasil), Ricardo Dominguez, afirmou que "está evidente a ligação deles (os militares envolvidos na morte de jovens no Morro da Providência) com o tráfico". Ele acredita que o elo seria o soldado José Ricardo Rodrigues, cuja família mora em uma favela do Complexo de São Carlos. Rodrigues, que é de outra companhia, foi chamado pelo tenente Vinícius Ghidetti para servir de guia até o Morro da Mineira. Veja também: Justiça ordena retirada das tropas Recurso divide governo; caberá a presidente decidir Lula defende indenização para famílias de mortos Moradores relatam agressões de militares Força fez alerta sobre rivalidade entre morros Crivella usa imagens da obra em panfleto pré-eleitoral Mãe sugere rezar missa pelo filho no Morro da Mineira
De acordo com o delegado, não houve confirmação sobre como aconteceu o contato prévio com o traficante do Morro da Mineira, na zona norte da capital fluminense, mas ele está certo de que houve uma comunicação entre os criminosos e os militares. Ele afirmou que não pediu a quebra do sigilo telefônico dos envolvidos, mas lembrou que isso pode acontecer durante o processo judicial. "É importante, mas não fundamental." O delegado pediu a prisão preventiva dos 11 militares presos pela morte de três moradores do Morro da Providência entregues a traficantes de uma quadrilha rival. Eles foram indiciados por triplo homicídio, triplamente qualificado (motivo torpe, meio cruel e por ter dificultado a defesa das vítimas). "Todos tinham conhecimento do resultado que aconteceria com a entrega dos jovens aos traficantes. Houve tempo para que tomassem uma atitude, nem que fosse avisar o comando superior", afirmou.
Um tenente, três sargentos e sete soldados - envolvidos na entrega de três jovens do Morro da Providência a traficantes da Mineira, que acabaram sendo mortos, serão indiciados por homicídio, mesmo que vários deles aleguem que seguiam ordens do segundo-tenente Vinícius Ghidetti. O inquérito policial já foi concluído e pelo menos quatro militares serão indiciados por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, de forma cruel e sem chance de defesa às vítimas). Os militares teriam levado David Wilson Florêncio da Silva, de 24 anos, Marcos Paulo da Silva, de 17, e Wellington Gonzaga Costa, de 19, presos por desacato, aos traficantes do Morro da Mineira como "um presentinho". O inquérito deve ser remetido ao 3º Tribunal do Júri até segunda-feira. O delegado afirmou no entanto que nem todos os indiciados serão denunciados ao Ministério Público, porque alguns militares estavam cumprindo ordens expressas do sargento Ghidetti, acusado de entregar os três jovens à facção. O Exército recolheu todos os celulares dos militares, para verificar se foi feito algum contato telefônico entre os militares. A polícia abriu um segundo inquérito para averiguar a autoria dos assassinatos. Já foram levantados nomes de possíveis traficantes do Morro da Mineira, mas até agora não se sabe quem, de fato, assassinou os jovens. Segundo informações do Instituto Médico Legal, os jovens foram mortos com 46 tiros, de pistolas e fuzil. Além disso, peritos do IML afirmam que os jovens foram espancados, torturados e acertados por arma cortante – que acreditam que seja facões – antes de morrer. O Exército permanece patrulhando o Morro da Providência, no centro do Rio. O Assessoria de Comunicação do Comando Militar do Leste (CML) informou na manhã que não havia sido notificada oficialmente sobre a decisão judicial que determinou, na quarta-feira, a retirada de tropas da favela. O comandante da 9.ª Brigada de Infantaria Motorizada, general Mauro César Lorena Cid, convocou reunião com lideranças comunitárias para tentar evitar a paralisação das obras do projeto Cimento Social. No início da semana, 75 trabalhadores que moram no morro fizeram protesto em frente ao CML e prometeram paras os obras caso o Exército não se retirasse. A Advocacia Geral da União (AGU) informou que tão logo seja acionada pelo Ministério da Defesa, irá recorrer da decisão da juíza da 18ª Vara Federal, Regina Coeli de Medeiros de Carvalho Peixoto, de determinar a retirada imediata das tropas do Exército do Morro da Providência, no Rio de Janeiro. Até o momento, porém, o Ministério da Defesa não foi notificado da decisão da Justiça.
O encarregado do Inquérito Policial Militar aberto no Comando Militar do Leste, capitão Peçanha, pediu a prisão preventiva por dez dias de quatro deles: além de Ghidetti, o terceiro-sargento Leandro Maia Bueno e os soldados José Ricardo Rodrigues de Araújo e Fabiano Eloi dos Santos . Segundo relatos dos próprios militares envolvidos no caso, os três rapazes foram detidos na manhã do dia 14 de junho, no alto do Morro da Providência. Uma amiga das vítimas confirmou o relato, contando que eles saíam de um táxi que os havia trazido de um baile funk do Morro da Mangueira, na zona norte. A patrulha militar parou os jovens, que foram revistados. Houve desacato e eles foram levados ao quartel. Após o incidente em que foi registrado o desacato aos militares, o oficial do quartel não concordou com a decisão do tenente e mandou liberar os jovens. Ele, no entanto, não obedeceu a ordem. Em depoimento, ele admitiu que decidiu entregar os rapazes aos traficantes da Mineira, que são da facção Amigos dos Amigos (ADA), inimigo direto do Comando Vermelho (CV), que atua na Providência.
Segundo os depoimentos, Ghidetti entregou David Wilson Florêncio da Silva, de 24 anos, Marcos Paulo da Silva, de 17, e Wellington Gonzaga Costa, de 19, presos por desacato, aos traficantes como "um presentinho". "Os traficantes não estavam entendendo nada. O tenente disse: 'Está aqui um presentinho para vocês'. Os traficantes perguntaram se eram ‘alemães’ (de quadrilha inimiga). O oficial respondeu que eram de 'lá da Provi' (Providência)", contou o advogado Walmar Flávio de Jesus. (Colaborou Tânia Monteiro, de O Estado de S. Paulo)
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