Gal Oppido
Gal Oppido

Depois dos Zetas, nada

Nós ficcionistas costumamos dizer que a realidade nos faz uma concorrência desleal no México de hoje

JUAN PABLO VILLALOBOS,

29 Dezembro 2012 | 16h00

As tribos de assassinos incluem em seus esquadrões da morte cameramen e fotógrafos - uns menos improvisados do que outros - encarregados de gravar as imagens de seus crimes e em seguida enviá-las ao Blog del Narco. O fotógrafo ou o cameraman são tão importantes no comando quanto um sicário. Do contrário, quem registrará para a imortalidade os crimes de autor que dentro em breve serão exibidos no Blog del Narco (ou pelo menos alguns minutos no YouTube)? Close up no instante da decapitação, dolly-in na rajada de balas das metralhadoras. Espera, vou mudar para a grande angular para que os mortos todos apareçam na foto. Acenda a luz para o pessoal ver bem como cortamos a cabeça, senão vou precisar de flash.

Conheci o jornalista Diego Enrique Osorno no início deste ano no Brasil. Nascido em 1980 em Monterrey, no México, Diego estava em São Paulo para uma série de reuniões a portas fechadas da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, chefiada pelos ex-presidentes Ernesto Zedillo, César Gaviria e Fernando Henrique Cardoso. Conseguira entrar como penetra, convidado pelo ator mexicano Gael García Bernal. Na realidade, a missão de Diego era muito mais frívola do que poderia parecer a princípio: entrevistar Gael no Brasil e escrever um perfil para a revista Gatopardo.

Um par de meses antes, durante minhas férias de Natal no México, eu havia lido a reportagem Ninguém Lembra de Julián, com a qual Diego ganhou o Prêmio Internacional de Jornalismo da revista Proceso. Julián era irmão de Carlos Slim, o homem mais rico do mundo. Ocorre que Julián, segundo as investigações de Diego, havia sido agente da polícia do Departamento Federal de Segurança, o órgão que, nos anos 1970, foi responsável pela guerra suja contra a dissidência. Diego, que apesar da pouca idade já tinha percorrido uma longa trajetória como repórter do narcotráfico, decidira provocar o homem mais poderoso do México.

Os jornais falam de maneira limitada do narcotráfico no México. Contam seus mortos, as metralhadoras confiscadas, os quilos de maconha incinerados, os policiais presos ... Quase não analisam os outros aspectos do problema, apenas a mera estatística. Mas outra forma de olhar o narcotráfico poderia ser pelo prisma econômico. O narcotráfico, como seu nome indica, é um problema de comércio ilegal. Que tipo de esquema financeiro é necessário para o México importar cocaína de um país da América do Sul? Quanto dinheiro é necessário para enviar a Ibiza os comprimidos de Ecstasy fabricados em Tierra Caliente, no Estado de Michoacán? Que tipo de logística exige a transferência da maconha semeada na serra de Oaxaca para a Cidade do México? Com que gastam seus salários os Zetas? Quanto custa ter uma sucursal de venda de cristal (metanfetamina) em Monterrey?

Era normal que Diego e eu acabássemos nos conhecendo. Eu havia publicado em 2010 Festa no Covil (Companhia das Letras), um romance narrado por um menino que é filho de um poderoso narcotraficante. Diego passara os últimos anos fazendo reportagens sobre a chamada guerra contra as drogas do presidente Calderón. Foi assim que, como é normal entre duas pessoas que têm muitos amigos em comum e sabem usar o Facebook, um domingo acabamos comendo picanha e tomando cachaça em Barão Geraldo, perto da Unicamp. Havia algo sinistro no fato de dois mexicanos que acabavam de se conhecer, acompanhados por uma brasileira e duas crianças mexicano-brasileiras, contarem durante horas um para o outro histórias macabras do narcotráfico em um boteco da cidade universitária. Alguns anos antes, essa conversa não teria ocorrido. De fato, sem a guerra contra as drogas é muito provável que Diego e eu nem sequer tivéssemos a curiosidade de nos conhecer.

Embora circulem dezenas de milhares de artigos sobre Los Zetas (segundo o Google, são 4 milhões e meio), ainda não está claro para muitos o que significa essa letra que sempre foi esquecida (zeta é "z") e, agora, há dias em que parece que o alfabeto do México começa por ela. Serão os Zetas a sofisticada organização de misólogos na qual, segundo o governo, se transformou aquele grupo de militares de elite treinados nos Estados Unidos, dos quais aqui, às margens do Rio Bravo, se ouve falar desde 2000? Zeta será o nome com o qual é camuflado o objetivo de limpeza social promovido por entidades que, com diferentes interesses, aproveitam-se dessa crise política subjacente desde 2007 para travar uma guerra necropolítica contra a presidência? Acaso trata-se de uma utopia social pós-moderna ou de uma saudade coletiva derivada da Guerra Fria? Serão os Zetas um grupo como qualquer outro do narcotráfico nacional que apenas por acaso tem a jovem idade da democracia mexicana?

Nem sequer é possível estabelecer um consenso em torno do nome do bando: por que usar a última letra do alfabeto? Porque depois do ‘z’ não há mais nada, como me disse um dia o escritor Marco Lagunas, na Cidade do México - ou, como acreditam no nordeste, por causa dos códigos que identificavam os militares em Tamaulipas, tempos atrás?

Diego começou como repórter praticamente ao sair da adolescência. Até 2007 fez o que chama de "um curso intensivo de realidades nacionais", escrevendo sobre greves, repressão, insurreições, desastres e narcotráfico.

Uma pasta no seu computador indica que escreveu 7 mil artigos em dez anos. Entretanto, em 2007 teve a sensação de que alguma coisa não funcionava: não queria conformar-se em registrar os fatos de acordo com um formato preestabelecido. Diego queria narrar, queria envolver-se, queria abandonar um enfoque jornalístico que abordava a violência do narcotráfico como um tópico de estatística. Instigado pela leitura de 2666, o romance de Roberto Bolaño, intuiu que havia outra maneira de contar o que estava acontecendo no México e decidiu abandonar a reportagem diária porque descobriu que detestava ser um rambojornalista. Em resumo, o que Diego entendeu foi que a nova realidade mexicana exigia uma nova narrativa. Era impossível captar o horror da violência do narcotráfico redigindo necrológios.

Aos poucos, Diego foi abandonando as páginas dos jornais - embora não totalmente - e começou a habitar as das revistas de jornalismo narrativo, principalmente Gatopardo e Etiqueta Negra. Suas crônicas acabaram tomando a forma de livro: Oaxaca Sitiada: La Primera Insurrección del Siglo XXI (2007), El Cartel de Sinaloa. Una Historia del Uso Político del Narco (2009), Nosotros Somos los Culpables. La tragedia de la Guardería ABC (2010) - sobre um dos casos mais terríveis da história recente mexicana: o incêndio de uma creche em Hermosillo, Sonora, no qual morreram 49 crianças -, Un Vaquero Cruza la Frontera en Silencio (2011) e La Guerra de Los Zetas. Viaje por la Frontera de la Necropolítica (2012). Além disso, há anos pesquisa num monte de caixas de documentos, revistas, livros e fotos para escrever a biografia de Carlos Slim, um projeto titânico do qual até agora não conseguiu livrar-se.

De alguns anos para cá, falar dos Zetas no México tornou-se ao mesmo tempo tabu e mania. No novo cenário de violência generalizada, os Zetas irromperam com um código próprio: não respeitar absolutamente nada. Eles extrapolaram todas as fronteiras do horror que eram respeitadas pelos antigos grupos de criminosos.

As histórias escabrosas foram se acumulando até que chegou um momento de paranoia coletiva no qual os Zetas passaram a ser culpados por tudo: assassinatos ligados ao narcotráfico, sequestros, atentados, roubos, chantagens, extorsões, cobrança de "impostos". Mas ninguém sabia ao certo quem eram os Zetas. Os Zetas eram a soma de todas as hipóteses sobre o crime organizado. Saindo do campo restrito do mundo do crime, e tentando entender o fenômeno de uma perspectiva social, Diego o sintetizou da seguinte maneira:

Os Zetas destacam para todos: "Para conseguir dinheiro, fazemos qualquer coisa". Eles são a chaga, o sintoma de uma doença que se espalhou por todo o corpo social.

Os Zetas, coincidências do destino, surgiram na região onde Diego nasceu.

Escrevi meu primeiro artigo sobre os Zetas em abril de 2010, aos 20 anos de idade. Falava de uma organização que serviu de divisor de águas no comando do narcotráfico da Frontera Chica, como nós chamamos a pequena zona de Tamaulipas que faz fronteira com o Texas. Soldados das forças especiais desceram de madrugada do céu, em paraquedas camuflados, em Guardados de Abajo, um vilarejo da Ciudad Miguel Alemán, onde operava Gilberto García Mena. Veterano traficante não muito conhecido, até o dia de sua captura sua função foi coordenar os interesses econômicos dos narcoempresários do nordeste e dos comerciantes de Sinaloa, os pioneiros que exportavam a mercadoria solicitada pelos consumidores americanos.

Aquele foi meu primeiro trabalho como correspondente de um noticiário da televisão de Monterrey, numa casa de dois andares, por fora de aparência normal, mas por dentro com os quartos, a sala de jantar, a cozinha e os banheiros atulhados de maconha acondicionada em caixas de papelão plastificadas. Naquele vilarejo sitiado pelo Exército entrevistei, entre o cheiro da grama verde, o promotor encarregado da operação, então um desconhecido: José Luis Santiago Vasconcelos, que, anos mais tarde, seria o czar do combate à droga e morreria em novembro de 2008 quando o avião em que viajava caiu - por incrível que possa parecer, num acidente - na principal avenida da Cidade do México na hora de pico do trânsito.

Sei que o fragmento anterior parece extraído de um romance, mas infelizmente não é. No México, nós ficcionistas costumamos dizer que a realidade faz conosco uma concorrência desleal. Aparentemente, por mais que exageremos, jamais conseguiremos imaginar as notícias com que nos deparamos no dia seguinte.

O que aconteceu com o México? É o que muitos de nós se perguntam, angustiados, mergulhados na tristeza. Não quero conhecer pessoas admiráveis que são admiráveis porque se negam a dar as costas ao horror. Não quero ter amigos que nasçam da admiração pela maneira como conseguem retratar a violência. Não quero amigos que me contem que houve ocasiões em que se sentiram em perigo, que me confessem que tiveram de abandonar o país, em certa época, depois de investigar as roupas sujas do milésimo corrupto. Não quero, não gostaria: mas essa é a realidade do México. Até quando? Até quando? / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

JUAN PABLO VILLALOBOS É ESCRITOR MEXICANO. OS TRECHOS EM ITÁLICO NESTE TEXTO FORAM EXTRAÍDOS DO LIVRO DE DIEGO ENRIQUE OSORNO LA GUERRA DE LOS ZETAS. VIAJE POR LA FRONTERA DE LA NECROPOLÍTICA (EDITORIAL GRIJALBO)

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