Desafios do novo papa: financeiro

Indenizações, novos impostos e crise no Banco do Vaticano ameaçam finanças da Igreja

Jamil Chade e José Maria Mayrink - O Estado de S.Paulo,

13 Março 2013 | 15h12

A situação financeira da Igreja inspira cuidados: além de escândalos envolvendo o Instituto para Obras Religiosas (IOR), mais conhecido como Banco do Vaticano, alguns países europeus passaram, este ano, a cobrar impostos de imóveis não religiosos da Igreja. Gastos com indenizações por abusos sexuais também ameaçam as finanças católicas. A avaliação foi apresentada na semana passada, durante as congregações-gerais do Colégio Cardinalício.

Na ocasião, os cardeais se reuniram com os três diretores dos departamentos econômicos da Santa Sé e foram informados que o pontífice que assumir o Vaticano neste mês será confrontado com uma crise financeira urgente que promete custar bilhões de euros à Santa Sé e prejuízos reais. A reflexão sobre o tema foi considerada fundamental na fase pré-conclave para os cardeais definirem o perfil do sucessor de Bento XVI.

Durante a reunião, realizada na quinta-feira passada, falaram o cardeal Giuseppe Versaldi, presidente das Prefeitura dos Negócios Econômicos, o cardeal Domenico Calcagno, presidente da Administração do Patrimônio, e Giuseppe Bertello, presidente do Governo da Cidade do Vaticano. Cada um deles fez breve relato sobre sua área, mas o conteúdo das exposições foi mantido sob sigilo.

Fim da isenção

Por conta da recessão econômica, governos da Itália, Espanha e Portugal têm reavaliado as isenções fiscais que deram durante décadas à Santa Sé. A partir deste ano, esses governos passarão a cobrar impostos referentes a imóveis não religiosos mantidos pela Igreja nesses países. O caso mais expressivo é o da Itália, onde a Santa Sé terá de despender entre 700 milhões e 1 bilhão em impostos.

A polêmica começou em 2010, quando a União Europeia abriu investigações para determinar se a isenção dada pela Itália ao Vaticano não seria uma espécie de subsídio ilegal. As autoridades questionaram o fato de que várias propriedades do Vaticano em Roma não eram diretamente vinculadas às atividades da Igreja - como restaurantes, hotéis e lojas - e, mesmo assim, não recolhiam impostos por serem qualificadas como residência de freiras ou seminários.

Só na Itália, a Igreja possui cerca de 100 mil imóveis, entre eles 9 mil escolas, 2,3 mil museus e bibliotecas, 4,7 mil clínicas e hospitais, além de hotéis, albergues, lojas e agências de viagem.

Banco do Vaticano

A União Europeia pressiona o Banco do Vaticano a ser mais transparente e seguir as regras do sistema financeiro europeu. Um dos escândalos que mais abalaram a Igreja nos últimos meses foi justamente o suposto uso do banco para lavagem de dinheiro.

Em setembro de 2010, a justiça italiana confiscou R$60 milhões do banco. A polícia afirmou que o presidente e diretor-geral do banco, Ettore Gotti Tedeschi estava sendo investigado por supostas violações das leis italianas. Na época, o Vaticano disse estar "perplexo" com a investigação e manifestou "confiança total" em Tedeschi. Em maio de 2012, porém, o presidente foi demitido por vazar documentos sigilosos e "não fazer o seu trabalho" na Santa Sé. A decisão foi tomada por unanimidade pelos diretores da instituição.

Antes de deixar o pontificado, Bento XVI nomeou um novo CEO para o banco, um cargo que ficou vago sete meses. Mas a pessoa escolhida não reduziu a polêmica por seu envolvimento com uma empresa militar.

Indenizações

Em outras partes do mundo, são os escândalos que estão custando caro. Nos Estados Unidos, a Igreja já pagou US$ 2 bilhões nos últimos cinco anos para encerrar disputas legais por conta dos abusos sexuais cometidos por sacerdotes. Apesar de ter levantado um volume fantástico em doações - US$ 326 milhões -, o Vaticano fechou 2011 com um buraco de US$ 18,4 milhões nas contas.

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