Luiz Horta/AE
Luiz Horta/AE

Dias de cinderela num castelo

O colunista de Glupt! só não virou abóbora no Castello di Ama, na Toscana

Luiz Horta,

09 Maio 2012 | 18h23

Confesso, a taça é fraca, bebi a garrafa inteira. Não bebi sozinho, fomos conversando durante o jantar, Marco Pallanti e eu; quando me assustei o Castello di Ama 2008 estava vazio. Acontece raramente, muito pouco frequente, em geral sou comedido, equilibrado e só provo. Mas o vinho era tão espetacular, tudo que eu queria de um tinto, elegância, fineza, acidez no ponto exato para acompanhar a comida, tudo no lugar. 

Lá fora chuva fina, frio, e sentados ao lado do fogo da cozinha, ele contando como formou com a mulher, Lorenza, a extraordinária coleção de arte da propriedade, e resumindo a carreira de 30 anos ligados àquela terra. Quando dei por mim, não tinha mais gota na garrafa. 

Confesso também, já que abri o falador, que ele bebeu bem menos que eu, numa proporção de uma taça para o resto. Ou seja, os 750 ml foram praticamente meus. Quando você chega à Toscana no meio de névoa, buscado no aeroporto pelo próprio Pallanti, se hospeda num lugar que mistura um castelo com arte contemporânea e janta com um produtor que admira, coisas assim ocorrem. Estou perdoado? Espero que sim, porque foi muito bom.

Para terminar minha trilogia de luxo, que começou com o concierge do vinho em Bordeaux, passou por um almoço no Cos d’Estournel e outro no Les Ambassadeurs do Crillon, só mesmo mais uma visita a um castelo, o Castello di Ama, perto de Florença. É preciso explicar que castelo, como os châteaux bordeleses, não tem nada a ver com aquelas muralhas com fosso, ponte levadiça e armaduras. A tradução melhor seria mansão, muitas vezes mais modestas que as de ministros brasileiros ou banqueiros falidos. A diferença é o bom gosto e a qualidade dos vinhos.

Ama é um vilarejo, meia dúzia de casas que orbitam em volta do casarão antigo, uma igreja, de verdade, com missa e uma capela transformada em sala de exibição, onde fica uma instalação do artista britânico Anish Kapoor. 

Estou me transformando em uma espécie de Cinderela, especializado em castelos. E chega de conversa sobre finuras e vamos aos vinhos. 

Pallanti foi um dos grandes artesãos da volta de qualidade aos Chiantis, linha de frente da fundação e gestão da denominação de origem Chianti Classico, e presidente do Conzorcio até este ano. Sua grande preocupação, cujo resultado bem-sucedido é amplamente demonstrado por seus vinhos, foi devolver grandeza ao nome Chianti. De tal modo se engajou na tarefa que, ao receber grande reconhecimento por seu Merlot, o L’Apparitta – o que faria de qualquer um produtor só de tais vinhos – decidiu colocar mais fichas na Sangiovese e soube elevá-la. 

Sua decência aparece também no primeiro vinho que lança em décadas, o Haiku, um supertoscano muito delicado. Sua justificativa: “Os supertoscanos estão ficando cada vez mais super e menos toscanos”. Pallanti é um risonho combatente – não está brincando nem quer facilidades. 

Na visita, três noites que passei hospedado vendo da janela a imagem ao lado, a parede de espelho do artista francês Daniel Van Buren, o das colunas do Palais Royal em Paris, provei verticais fabulosas, um grande privilégio. Abaixo descrevo uma delas, na qual estava o primeiro vinho que fez quando assumiu a enologia da vinícola e começou a revolução. Um 1982, ainda fabuloso. 

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