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Dilma pedirá ao Mercosul e à Unasul que avaliem ‘golpe em curso’ no Brasil

A jornalistas estrangeiros, presidente voltou a se dizer injustiçada e classificou processo de impeachment como infundado

Altamiro Silva Junior, correspondente, e Cláudia Trevisan, enviada especial, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2016 | 21h19

Depois de fazer um discurso moderado no plenário da Organização das Nações Unidas (ONU), a presidente Dilma Rousseff voltou a atacar nesta sexta-feira a tentativa da oposição de afastá-la do cargo e disse que avalia pedir a aplicação da cláusula democrática do Mercosul e da Unasul ao Brasil. Os dispositivos podem levar à suspensão de integrantes dos blocos, como ocorreu com o Paraguai em 2012.

“Está em curso no Brasil um golpe. Então eu gostaria que o Mercosul e a Unasul olhassem esse processo”, afirmou a presidente a jornalistas brasileiros em Nova York na tarde desta sexta-feira. Questionada se pedirá a suspensão do País por descumprimento de princípios democráticos, Dilma foi evasiva. “A cláusula democrática implica uma avaliação da questão.” 

Pela manhã, a presidente fez no plenário da ONU uma alusão breve e indireta à situação política brasileira, em um discurso no qual não usou as palavras “golpe” e “impeachment”. A crise doméstica ocupou menos de 1 minuto dos 8 minutos e 42 segundos do pronunciamento.

Supremo. Na entrevista, a presidente criticou declarações de ministros do Supremo Tribunal Federal que avaliaram que o processo de impeachment não é golpe. “Não é a opinião do Supremo Tribunal Federal. É a opinião de três ministros. São apenas três ministros. São ministros que não deveriam dar opinião porque vão me julgar”, ressaltou ela aos jornalistas. 

Antes da viagem de Dilma a Nova York, o decano do Supremo, ministro Celso de Mello, disse que a presidente cometia um “gravíssimo equívoco” ao tratar o impeachment como um golpe. Os ministros da Corte Dias Toffoli e Gilmar Mendes também se manifestaram sobre o assunto na mesma linha de Celso de Mello.

Antes de falar a jornalistas brasileiros, a presidente deu entrevista a dez veículos de comunicação dos Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e Espanha. Nas duas ocasiões, o tom adotado pela petista foi bem mais enfático do que a fala na ONU.

O discurso da petista na ONU foi elogiado por líderes da oposição e pelo vice-presidente Michel Temer, que o considerou “adequado”. O vice não comentou as entrevistas de Dilma concedidas aos jornalistas durante a tarde desta sexta-feira.

Democracia. “Não posso terminar minhas palavras sem mencionar o grave momento que vive o Brasil”, declarou Dilma no fim de seu pronunciamento na ONU. “O Brasil é um grande país, com uma sociedade que soube vencer o autoritarismo e construir uma pujante democracia. O povo brasileiro é um povo trabalhador, que tem grande apreço pela liberdade. Saberá, não tenho dúvidas, impedir quaisquer retrocessos.”

A presidente foi aplaudida de forma protocolar antes e depois do discurso pelos dirigentes presentes no plenário da ONU. “Sou grata a todos os líderes que expressaram a mim sua solidariedade”, disse.

Direitos. Aos jornalistas, Dilma afirmou que o suposto desrespeito a seus direitos é uma ameaça aos próprios cidadãos brasileiros. Disse, ainda, ser vítima de uma injustiça. “Se há injustiça contra o presidente da República, se eu me sinto vítima de um processo ilegal, golpista e conspirador, o que dizer da população do Brasil quando seus direitos forem afetados?”, questionou.

“A garantia do meu direito não é garantia minha pessoal. É a garantia de que no Brasil a lei vai se sobrepor a qualquer interesse pessoal ou político”, declarou.

No fim da entrevista aos jornalistas brasileiros, a presidente se emocionou quando foi questionada sobre o impacto do processo de impeachment em curso no País sobre sua família. “Imagine o que estaria a sua família sentindo. Não posso falar porque dói. Dói muito”, afirmou Dilma. O retorno da presidente ao Brasil estava programado para este sábado.

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