Doçuras do Mosteiro de Odivelas

O melhor de tudo, por Dias Lopes

jadiaslopes@terra.com.br, O Estado de S.Paulo

26 Junho 2008 | 03h07

Quem lê ou ouve contar a história do romance entre o rei d. João V (1689-1750), de Portugal, e madre Paula Teresa da Silva, do Mosteiro de Odivelas, a 15 quilômetros de Lisboa, poderia imaginar que aquela casa religiosa, construída a partir de 1295 por ordem de d. Dinis (1261-1325), sempre foi um canteiro de amores de perdição. É verdade que outros relacionamentos parecidos aconteceram ali, em tempos diferentes, envolvendo nobres ou plebeus e freiras da Ordem das Bernardas de Cister. Mas, até sua extinção, no século 19, o mosteiro se notabilizou pela vida espiritual, atividade intelectual e, sobretudo, generosa doçaria. Os tropeços morais decorreram da intromissão do poder laico na vida eclesiástica e da falta de vocação de algumas religiosas. Como outras casas religiosas, Odivelas acolhia moças que deixavam de casar porque os pais não queriam ou não podiam atribuir-lhes dotes. Então, a filha solteira, destituída dos bens familiares, habitualmente transferidos ao primogênito, recolhia-se à sombra protetora de um mosteiro ou convento. Apesar de jurar obediência às regras monásticas, como por exemplo a do celibato, não se sentia motivada a respeitá-las. Odivelas acolheu inúmeras almas beneméritas - foi ali que, já no leito de morte, Filipa de Lencastre (1359-1415), modelo de virtudes e admirável educadora, abençoou os filhos d. Duarte, d. Pedro e d. Henrique, que partiriam para vencer os mouros em Ceuta - e teve relevante importância intelectual. Em seu pátio ocorreram antológicos outeiros, festejos em que poetas glosavam motes propostos pelas freiras. Foi por sugestão da abadessa Violante Álvares Cabral, irmã de Pedro, o descobridor do Brasil, que Gil Vicente (1465-1537), fundador do teatro português, escreveu o Auto da Cananéia. Baseou-se no episódio bíblico relatado por São Mateus (15.21-28) em que uma cananéia (da Palestina, porém não judia) convence Jesus a libertar sua filha do demônio. No púlpito de Odivelas, o padre Antônio Vieira (1608-1697) pronunciou um de seus geniais sermões. O poeta, dramaturgo e escritor Almeida Garrett (1799-1854), no preâmbulo de Lírica de João Mínimo, descreve um passeio ao local. O mosteiro também ganhou fama pela contribuição à doçaria conventual - o rico acervo confeiteiro português desenvolvido a partir do século 15, quando as ordens religiosas passaram a ter açúcar à vontade em suas cozinhas. O farto suprimento era garantido pelas plantações e engenhos de cana no Arquipélago da Madeira, que depois se transferiram para o Brasil. Surgiram ou foram aprimoradas em Odivelas, por exemplo, a receita da marmelada da madre Paula e outras de criação coletiva, como as raivas e tibornas, os esquecidos, os suspiros de amêndoa e os tabefes, o pudim marfim ou de leite e o toucinho do céu. As freiras jamais economizavam açúcar e muito menos ovos. O mosteiro recebia em doação as gemas que sobravam do processo de elaboração do vinho; as claras eram usadas na clarificação, ou seja, na retirada das impurezas da bebida. A fartura se estendia a todas as casas religiosas do gênero. Mosteiros ou conventos tiveram grande importância na Reconquista - a guerra deflagrada por d. Afonso Henriques (1108-1185), o soberano que combateu os mouros e formou o reino de Portugal. Alfredo Saramago e Manuel Fialho mostram isso no livro Doçaria dos Conventos de Portugal (Assírio & Alvim, Lisboa, 1997). Uma das formas de ocupação do território foi a criação de estabelecimentos religiosos, cuja existência ainda servia para reis e senhores da nobreza pagarem ou redimirem seus pecados, por meio de contrato de rezas. ''Doavam ao convento bens suficientes para que estas casas cuidassem das suas almas em vida e depois da morte'', explicam Saramago e Fialho. Consolidadas as fronteiras, proporcionaram hospedagem e comida aos reis e senhores em viagem pelo interior, numa época destituída de hotéis e restaurantes. Além disso, transformaram-se em ''clubes'' para a comemoração do aniversário do soberano, de sua mulher e dos príncipes, de celebração do onomástico da abadessa, do dia do santo protetor, etc. Nessa condição, viraram centros gastronômicos. ''Quanto mais se comia, mais se rezava e, dando de comer bem ao rei e aos senhores, monjas e monges adquiriram o hábito da boa mesa'', assinalam Saramago e Fialho, com uma pitada de anticlericalismo. ''Como a Igreja nunca penalizou o pecado da gula, a população monástica deixou-se arrastar pela glutonice, convicta de que não se adquiria uma boa consciência só pelo fato de se beber leite e comer pão seco.'' Odivelas foi um dos mosteiros nos quais a doçaria alcançou esplendor. Teria sido erguido em pagamento a uma promessa. Atacado por um urso, que investiu contra o cavalo no qual estava montado, d. Dinis prometeu ao protetor São Dinis homenageá-lo com a construção de um mosteiro caso saísse ileso do perigo. Então, tirou o punhal da cintura e conseguiu acertar o coração da fera. Outros dizem que erigiu Odivelas - não por acaso, também denominado Mosteiro de São Dinis -, para que acolhesse d. Maria Afonso, uma filha havida fora do casamento, falecida ainda na adolescência, porém a tempo de demonstrar uma habilidade: como as demais colegas, era doceira. Pudim de leite* 12 porções 1h20 minutos Ingredientes 6 xícaras (chá) de leite 1 pequeno pau de canela 11/2 xícara (chá) de açúcar 12 gemas 6 ovos inteiros Caramelo de açúcar (Dissolva em fogo baixo 3 xícaras de chá de açúcar em uma fôrma de pudim, furada no meio, mexendo sempre, até o açúcar desmanchar. Envolva as bordas da fôrma com o caramelo, que deve ficar dourado e pastoso.) Preparo Leve o leite ao fogo, com o pau de canela, até ferver. Retire o leite do fogo e reserve quente. Em uma tigela, misture o açúcar com as gemas e os ovos inteiros. Bata com um batedor manual e coloque aos poucos o leite (sem a canela), sempre batendo, até os ingredientes ficarem completamente misturados. Passe tudo para a fôrma caramelada e asse em banho-maria, em forno baixo (165ºC), preaquecido, por cerca de 1 hora. Desenforme frio. *Receita do Mosteiro de Odivelas minutos

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