Dos oásis de Mendoza

Há muito bons vinhos de vários níveis de preço feitos com a Cabernet Sauvignon em Mendoza, de longe a melhor e maior zona vinícola da Argentina, com 70% da produção geral. Na semana passada, abordamos os produtos numa faixa até R$ 80, que deram muito prazer. Agora, vinhos até R$ 150, que, muito felizmente, não ficaram num patamar de qualidade superior aos mais baratos. Nem sempre o mais caro é melhor. Ainda bem. Em Mendoza, a palavra "oásis" é mais do que adequada para definir as grandes zonas vinícolas. A província é um grande deserto e apenas 3% das terras são irrigadas e aproveitadas. Onde se vê algo verde, está a irrigação com águas que correm dos Andes pelos rios e canais, ou pelos depósitos subterrâneos. Antes da chegada dos espanhóis, os indígenas já tinham um sistema de irrigação bastante adiantado. Esse sistema foi crescendo e hoje é complementado por milhares de poços. Nas áreas mais antigas de Mendoza, normalmente a irrigação é pela superfície (regos que correm entre as fileiras de parreiras). Nas áreas mais altas, mais novas e mais perto dos Andes e em plantações recentes, é mais comum a irrigação por gotejamento. Canos de PVC correm suspensos nos troncos da videira e, quando liberada, a água vai pingando. Um sistema mais econômico, que utiliza menos água. Há três grandes regiões produtoras em Mendoza: Oasis Norte, Oasis Sur e Valle de Uco. A maior e mais importante é o Oasis Norte, que fica nas proximidades da capital da província, Mendoza. Nele se destacam as sub-regiões de Luján de Cuyo, principalmente, e Maipú. Do chamado leste mendoncino, mais quente, saem principalmente produtos mais populares. No Oasis Sur está a zona de San Rafael, a 240 quilômetros da capital, onde fica a vinícola Bianchi, que faz muitos espumantes, tintos e brancos. Zona em ascensão. O Valle de Uco é muito especial, mais perto da cordilheira, cujo clima mais frio favorece os ótimos brancos e alguns tintos, entre os quais se destacam os feitos com a Malbec e a Tempranillo. A Cabernet Sauvignon, que não gosta tanto do frio, está melhorando também no Valle de Uco. TRAPICHE MEDALHA 2004 ONDE ENCONTRAR INTERFOOD, TELEVENDAS 6602-7255 PREÇO R$ 99 COTAÇÃO 88/100 A Trapiche é uma imensa empresa, com vinhos de vários níveis. Este Medalla é das linhas superiores. Vinícola enorme em Coquimbito, Maipú e vinhedos em várias regiões. O rótulo não cita nenhuma sub-região de Mendoza. Vinho simples, direto e muito bom. Aroma gostoso, atraente, mas não exuberante. Não dos mais intensos, mas agradável e correto, com muita fruta num pano de fundo de madeira. Bom equilíbrio entre madeira e fruta. Algo de canela e, depois de um certo tempo, chocolate. Na boca, não dos mais concentrados e encorpados, mas elegante e agradável. Vinho simples, gostoso, que pede o próximo gole. Acidez muito adequada. Álcool corretamente integrado. Na boca, frutas como amora. Mais uma vez, cacau e baunilha. Mais do que pronto para o copo. Não tem quase nada a ganhar com mais tempo na garrafa. Final um pouco curto. Deixa sensação gostosa, mas que desaparece logo. 14% de álcool. CATENA ALTA CABERNET SAUVIGNON 2004 ONDE ENCONTRAR MISTRAL, R. ROCHA, 288, 3372 3400 PREÇO R$ 110 COTAÇÃO 91/100 A Catena faz alguns dos melhores tintos e brancos da Argentina, como este Cabernet Sauvignon, que se destaca pelo equilíbrio e elegância. Feito com uvas de dois vinhedos: Pirámide, que fica em torno da magnífica e moderna adega, em Agrelo, e Domingo, na zona mais fria e alta de Tupungato. Bem escurão, violáceo. Aroma não dos mais intensos, mas muito fino. Um ótimo aroma, que foi melhorando com o tempo no copo. Algo mineral e notas de coco. Na boca, sedoso, macio, equilibrado e muito gostoso. Não é dos mais concentrados, do tipo "arrasa-quarteirão", mas fino, elegante e equilibrado. Também se destacaram as evocações de chocolate. Potente, mas nada alcoólico. O tipo de vinho que enche a boca e dá vontade de continuar bebendo. Tudo no lugar certo, sem arestas. Final de boca muito agradável. Mais uma vez, frutas e chocolate. 14% de álcool. SUSANA BALBO CABERNET SAUVIGNON 2004 ONDE ENCONTRAR CANTU TELEVENDAS 0300-210-1010 PREÇO R$ 110 COTAÇÃO 90/100 Um vinho feito por um casal ilustre de Mendoza. Susana Balbo e o marido, Pedro Marchevski, trabalharam na Catena, o que é uma belíssima credencial. Ela é enóloga e ele um dos maiores especialistas em plantações de uva da Argentina. Da vinícola do casal- Dominio del Plata- que fica em Agrelo, Lujan de Cuyo, saem vários produtos de primeira linha, como este Cabernet Sauvignon, potente, concentrado, com belo equilíbrio madeira/ frutas. Um corte de Cabernet Sauvignon (85%), Malbec (10%) e Merlot. Ao mesmo tempo poderoso, macio e elegante. Passou 14 meses em barricas de carvalho novo. Aroma marcado pelo carvalho, cujas notas ficam evidentes no aroma e na boca, mas deixa espaço para frutas. Aroma dos mais intensos, com algo de coco e chocolate. Segue no mesmo diapasão na boca, concentrado, marcado pelas especiarias e algo floral. Boa acidez. Nada enjoativo. Álcool comportado. 14% de álcool. COBOS BRAMARE CABERNET SAUVIGNON 2003 ONDE ENCONTRAR GRAND CRU, R. BELA CINTRA, 1.799, 3062-6388 PREÇO R$ 150 COTAÇÃO 89/100 Um vinho de autor, ou melhor, de autores, os enólogos Paul Hobbs, americano, e Andrea Marchiori e Luiz Barraud, argentinos. Eles trabalharam juntos na Califórnia e fundaram a Cobos. Hobbs é muito badalado, faz ótimos e caros tintos e brancos na Califórnia. Tem também experiência em Mendoza, onde trabalhou, entre outras, na Catena, Toso, Dolium e Bianchi. Este vinho lembra outros do enólogo: potente, concentrado, com bastante madeira. Um típico vinho "Novo Mundo", mais marcante pela potência e concentração do que pela elegância. Pesadão. Aroma muito gostoso, com bastante madeira, mas espaço para frutas. A primeira impressão na boca é intensa. Um vinho redondo e muito gostoso. Boa acidez. Não enjoativo.o. Depois de um certo tempo, o álcool aparece, até que pouco diante da alta graduação. Taninos macios, nada agressivos ou amargos. Final algo alcoólico. 14,7% de álcool.

Saul Galvão, saul.galvao@grupoestado.com.br, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2008 | 01h57

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