E daí que o copo é de vidro?

Esta coluna, para quem não percebeu, chama-se Glupt!, com exclamação. E glupt! eu tenho exclamado e engolido enquanto provo vinhos. Nos últimos tempos podia se chamar vupt!, tantos voos tenho enfrentado. Vinhedos e vinícolas não ficam em São Paulo. Mas visitá-los é preciso, portanto, vou. Hoje, escrevo do aeroporto da cidade do Porto, no norte de Portugal, em meio a uma viagem à região do Douro.

Luiz Horta, O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2012 | 03h11

Aeroportos são tempos vazios, cheios de ritos aborrecidos, tira o cinto, tira o sapato, algum metal no bolso? Que líquido é esse?... O charme das viagens passou. Provavelmente nunca existiu. Hoje são apertadas, desconfortáveis, embora rápidas; antes eram relaxadas, confortáveis, mas lentas e perigosas, o que as fazia desconfortáveis também. E os voos sempre atrasados, as pessoas parecendo fatigadas.

Temíamos tanto a uniformização dos vinhos, temos a uniformidade das experiências. Os lugares ficaram parecidos e os aeroportos, idênticos. Enquanto aguardo a incompreensível voz anunciar o embarque, fico pensando em dois acontecimentos recentes, ligados ao vinho, sobre os quais não cheguei a escrever.

Quando estava em Londres fui visitar a jornalista, escritora, viajante e viajandona Anissa Helou. Anissa depois esteve no Paladar - Cozinha do Brasil, sempre interessada nas coisas da gastronomia. Atualmente, ela é uma das animadoras do Oxford Symposium on Food and Cooking, encontro anual de excêntricos na universidade inglesa, onde discutem coisas como comida e restrições religiosas; a origem das panelas; peixes do Oriente. Neste ano eram as embalagens, as comidas em invólucros, como esfihas, enroladinhos, charutinhos e os pastéis brasileiros.

Tudo isso são meros prolegômenos para contar que na casa de Anissa, filha de pai sírio e mãe libanesa, bebe-se muito Château Musar. Naquele raro dia quente londrino, ela abriu o Château Musar Rosé (fui informado pela Mistral, importadora dos famosos vinhos do Vale do Bekaa, que o Château Musar Rosé finalmente estará no Brasil, ainda este ano). E chegamos ao ponto: Anissa serviu num copinho de vidro. Fino, delicado, mas copo. Volto à carga em uma das minhas manias, a de implicar com a tirania das taças Riedel, que viraram, por puro marketing, sinônimo de adequação inescapável. Pois aí está mais uma prova elegante: é possível beber em qualquer recipiente, havendo prazer e gosto. A temperatura é mais importante que a taça. Relacionando o tema copo ao dos invólucros do Symposium de Oxford, a Riedel seria uma fina massa folhada, o copinho, um pesado empadão, mas nos dois casos, se o recheio não for bom, adianta pouco ter exterior delicado.

Mudando de assunto, fui jantar duas semanas atrás, no D.O.M., com os fabulosos Pallantis, Marco e Lorenza, do Castello di Ama. Entre os pratos do menu degustação, Alex Atala apresentou a já famosa formiga. Não sei o nome científico da que ele oferece, mas tem um forte aroma de capim-limão e gosto parecido ao cheiro; é picante, cítrica e muito "tailandesa". A sommelière Gabriela Monteleone vinha harmonizando cada prato de criação do chef com justeza e agradava bastante aos toscanos. No momento da formiga tínhamos a nossa frente seis taças cada um, incluindo um Castello di Ama Vigneto Bellavista, complexo e delicioso. Mas, e a formiga? Surgiu uma situação que me entusiasma, a da dúvida. A potente formiguinha puxou a toalha. Os tintos se chocavam um pouco, o espumante Cave Geisse era certeiro, só não é divertido jogar assim: espumantes vão bem com quase tudo. Era preciso encontrar uma combinação única, perfeita, pois comer formiga no D.O.M é antes de tudo uma boutade, um momento saci-pererê de Atala, para espantar e fazer rir, estimular o jogo de salão. O vinho solitário a enfrentar o inseto foi o Savagnin Domaine Tissot do Jura. Ambos exóticos, estranhos, inesperados. Marco brincou: "Garçom, tem uma formiga no meu prato. E quero outra!" Fica a dica: em caso de formiga, peça um branco levemente oxidativo da região do Jura.

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