Eleição de Obama simboliza relação entre política e web

Mais da metade dos eleitores norte-americano usou a rede para se informar durante; no Brasil, falta de acesso à tecnologia limita discussão política online

Filipe Serrano, Bruno Galo e Rodrigo Martins, de O Estado de S. Paulo,

01 Junho 2009 | 16h41

A campanha de Barack Obama se tornou o símbolo de como a política será daqui para frente, em um mundo no qual a internet é indissociável do cotidiano da sociedade e do cidadão. O sucesso da campanha, que utilizou a rede para arrecadar doações de indivíduos, não se deu apenas porque Obama utilizou Twitter, Facebook, YouTube e mensagens de celular para se comunicar e interagir com os eleitores, mas porque estes usaram a web para buscar e trocar informações que pudessem ajudar a avaliar o desempenho dos candidatos.   Três em cada quatro internautas americanos usaram a web para ler notícias e se informar sobre a campanha política de 2008, de acordo com um estudo de abril do instituto Pew Internet & American Life Project. O número representa mais da metade da população adulta dos Estados Unidos. Durante eleição anterior, de 2004, apenas 37% dos adultos buscavam essas informações na web.   Mais interessante ainda é que 38% das pessoas conectadas utilizaram a rede para conversar sobre política e 59% delas usaram ferramentas como e-mail, programas de mensagens instantâneas, SMS e o Twitter para enviar ou receber informações relativas ao tema.   Não está claro o quanto a participação na internet influenciou o resultado das eleições, mas, de acordo com a pesquisa, os eleitores de Obama eram mais ativos na web do que as pessoas que votaram em McCain. Mais de um quarto dos internautas americanos, que afirmaram ter publicado conteúdo político na web, era eleitor de Obama. Já os eleitores de McCain, 15%.   ALÉM DE OBAMA   A participação política na web não para por aí. Na sábado, dia 23, a notícia de que o presidente da Alemanha Hörst Köhler havia sido reeleito vazou no Twitter 15 minutos antes do anúncio oficial, depois de dois parlamentares, Julia Klöckner e Ulrich Kelber, comentarem o resultado em seus perfis do Twitter.   O caso já foi batizado de "twittergate" porque quebrou a tradição de que apenas o presidente do parlamento alemão tem o direito de anunciar o resultado.   As ferramentas na internet servem para que os políticos interajam com a população, mas, por outro lado, as informações deixadas na rede podem um dia se voltar contra ele, como no caso dos parlamentares da Alemanha. Um simples comentário no Twitter, um vídeo no YouTube, etc. podem atingir a imagem do governante. Nas últimas eleições municipais no Brasil, o TSE vetou que a campanha se estendesse pela web além das páginas oficiais dos candidatos.   Ainda não está claro como as regras irão funcionar em 2010, na eleição presidencial, mas políticos como o governador de São Paulo José Serra (PSDB) e o senador Aloizio Mercadante (PT) já criaram perfis no Twitter.   Apesar da proibição, desde as eleições de 2006, os brasileiros já usavam blogs para opinar sobre os candidatos e postavam vídeos, a favor e contra.   MEIO DEMOCRÁTICO?   A web tem um potencial enorme como meio de participação política, mas a falta de acesso à tecnologia no País impede que a maior parte da população tenha contato com informações na rede.   "Há um analfabetismo digital crônico no Brasil que prejudica o potencial da internet. Até quem tem acesso sente dificuldade para lidar com tecnologia. Não acho que aqui a internet tenha aumentado a participação política", afirma Claudio Weber Abramo, diretor executivo da organização Transparência Brasil.   REDE DE APOIO   A internet foi a válvula de escape da terapeuta Maria Júlia Miele, de 42 anos. Ela perdeu a filha com menos de dois anos em 2002. A menina, nascida com problemas no coração, ficou internada na UTI desde o parto. A rede foi a forma que encontrou para ajudar outras mães que enfrentam o mesmo problema.   Assim nasceu em 2004 a ONG Abrace, uma organização política e social organizada pela web. Maria Júlia montou o www.institutoabrace.org.br e convocou mães que passavam pela mesma situação que ela. "Na época, sentia muita necessidade de conversar com outras mulheres", diz. "Os médicos são diretos. E uma mãe que está com um filho na UTI fica muito exposta, vira alvo de comentários no trabalho, na família. Conversar com outras mulheres permite desabafar, compartilhar das angústias."   No site, que tem 70 mil acessos mensais, há um fórum para as mães conversarem entre si. "Elas ficam o dia todo na UTI, não têm tempo de se encontrar presencialmente. E, mesmo se fosse possível, como juntar mães do Brasil todo e até de outros países? Seria complicado e caro."   A reunião também virou política. "Sem passeata", como diz Maria Júlia, elas já conseguiram vagas na UTI para crianças e visitam hospital por hospital para explicar aos médicos a gravidade psicológica da situação e reivindicar tratamento diferenciado. Elas ainda tentam convencer hospitais a instalar PCs com internet acessarem a Abrace e desenvolveram colaborativamente uma cartilha sobre como uma mãe deve ser tratada, a qual será distribuída em todos os hospitais brasileiros.     SEM INTERNET, O BRASIL TRAVA   Secretaria da Fazenda/SP "A internet facilita o acesso aos serviços e às informações." Newton Oller de Mello, coordenador de Planejamento Estratégico da Fazenda de SP   Justiça/SP "Migramos todos os trabalhos de consulta e o usuário tem acesso a essas informações sem a necessidade de sair de casa." Rosely Castilho, secretária de Tecnologia da Informação do TJSP   BMF&Bovespa "Disponibilizamos a investidores uma série de produtos e serviços que têm a web como único canal de comunicação." Carlos Faria, diretor de Tecnologia da Informação   Azul "Quando começamos aqui fomos logo atrás da internet. Hoje, uma empresa não existe sem a rede." Kleber Linhares, gerente de Tecnologia da Informação   Mercado Livre "Nosso negócio só existe por causa da internet. A rede permite que todos, independentemente do tamanho, tenham o mesmo espaço." Helisson Lemos, diretor de Marketing   Correios "A postagem de telegramas via internet é um sucesso. Em 2008, foram postados eletronicamente 15 milhões de telegramas. Hoje, 59% do volume é enviado pela web." Carlos Henrique Custódio, presidente   Unesp "Vivemos hoje uma situação de dependência da rede e a sua ausência nos compromete." José Celso Freire Junior, professor e assessor-chefe de relações externas da Unesp   CET "Via internet, oferecemos um conjunto de dados que indica os melhores trajetos e horários para deslocamentos." Adele Claudia Nabhan, assessora de imprensa   INTERNET BANKING   29,8 milhões de clientes usaram o internet banking no Brasil em 2007, segundo a Febraban   6,9 bilhões de reais foram movimentados pelo sistema, o que representa 16,9% das transações bancárias no País lugares de acesso   LAN HOUSE   100 mil lan houses em funcionamento no Brasil são responsáveis por 48% do acesso à internet, segundo o Comitê Gestor da Internet dos acessos à internet no Brasil   1,50 reais é o preço médio de uma hora de acesso à internet em lan house Rede aproxima político e cidadão   Subprefeita da Lapa, Soninha Francine descobriu na internet uma forma de relacionar-se com seus eleitores e prestar contas do mandato. É uma das políticas mais conectadas. Em sua primeira eleição, em 2003, a vereadora em São Paulo, apostou fortemente na comunicação por meio de seu site. No mandato de vereadora, informava a população de seus projetos em seu site e blog. Hoje, é uma das mais seguidas no Twitter.   Para ela, a internet é a forma mais barata e acessível para informar e receber informações. "Sem falar da agilidade, velocidade, redução de distâncias, economia de recursos materiais e energéticos e combate à corrupção. Quanto mais simples e transparentes forem os processos, menores as chances de interferências indevidas."   Para ela, sem a internet, não seria possível um alcance grande, seja na campanha ou no mandato. "Eu não poderia falar com tanta gente, em qualquer lugar e horário, muito menos ouvir. E também teria de ser muito mais sintética e superficial. A internet permite expandir e aprofundar e atualizar um assunto ao infinito.   Conectada sempre - ela twitta o dia todo -, mesmo quando falta internet, Soninha dá um jeitinho. "Uso o celular para navegar em 3G, mandar e receber SMS ou para ditar um texto por telefone para alguém digitar por mim."      Sérgio Amadeu  Sociólogo e ativista da cultura livre, Sérgio Amadeu só se desconecta quando está dormindo ou namorando. Para ele, sem a web, por exemplo, não haveria o software livre. Mas acha impossível calar a rede. "Se a destruírem, outra melhor surgirá."   Qual a importância da web no ativismo e no software livre? É uma rede que não possui dono, é uma construção coletiva e colaborativa, como o software livre. Sem ela não teríamos como desenvolver software de modo compartilhado. Temos hoje mais de 150 mil softwares livres sendo desenvolvidos e mantidos por pessoas que nunca se encontraram presencialmente. Sem a rede seria também difícil organizar as manifestações contra a globalização de Seattle, em 1999, ou até mesmo o Fórum Social Mundial.   Está sempre conectado? Quase sempre. Os aparelhos móveis permitem cada vez mais usar a rede para nossas práticas cotidianas, seja trabalhar, aprender ou nos divertir. Para uma parte da sociedade, as fronteiras do trabalho e do lazer estão se tornando cada vez mais imprecisas e borradas. Quando vou a eventos uso a conexão wireless ou o celular para realizar postagens no Twitter relatando o que ocorre. Quando fico sem internet tenho a impressão de que algo muito importante pode estar ocorrendo sem que eu tenha a informação e a possibilidade de reação.   E se não houvesse nunca mais a internet, o que acredita que aconteceria? Se o sonho da indústria do copyright se consolidasse e conseguissem tornar a internet uma via de mão única, de baixa interatividade, a criatividade seria muito afetada. Equivaleria ao que os iluministas denominaram de mundo das trevas da Idade Média. Mas, é impossível acabar com a comunicação em redes. Se destruírem esta, outra mais interessante surgirá.    Teatro Mágico O Teatro Mágico, trupe liderada por Fernando Anitelli, é um fenômeno que tem raízes diretamente ligadas à web. 100% independente. O grupo, que mistura música, teatro e circo, faz seus próprios CDs, mas libera tudo na rede para ser baixado de graça, no site www.oteatromagico.mus.br.   A internet é uma realidade sem volta? Sim! Não há como negar. A evolução da tecnologia nos levou a um patamar inigualável na história da humanidade. Nunca, em nenhum outro momento, o se rhumano teve tanta informação e conteúdo acessível ao toque de apenas uma tecla. Você pode até tentar fugir, mas ali na esquina - numa lan house - ela te pega. É essencial para a nossa sociedade. O que vai acontecer é que as empresas que detêm o poder da comunicação nas mãos tentarão restringir o acesso e a liberdade por medo de perder mercados e públicos. A maior biblioteca do mundo está em cima da nossa escrivaninha e querem nos coibir de usá-la. Internet livre já!

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