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Em apoio a SP, Policiais civis fazem manifestações em 3 Estados

Ato foi organizado pela Adepol para ocorrer entre às 14 e 16 horas desta quarta-feira em todo o País

29 de outubro de 2008 | 20h 37
Felipe Werneck, Angela Lacerda, Thiago Décimo e Sandro Villar - O Estado de S.Paulo

Policiais civis de alguns Estados fizeram nesta quarta-feira, 29, uma paralisação de duas horas em apoio aos colegas de São Paulo, em greve desde 16 de setembro. Segundo sindicatos locais, a adesão às manifestações foi considerada pequena no Rio, mas expressiva na Bahia e no Recife. A paralisação ocorreu entre as 14 e 16 horas.

 

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No Rio, menos de 100 policiais civis participaram de manifestação em frente ao prédio da Chefia de Polícia, no centro da capital fluminense. A estimativa é do próprio presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Estado, Fernando Bandeira. Ele atribuiu a baixa adesão a três fatores: "A polícia tem muitos companheiros que trabalham em outros empregos. E muitas vezes o policial é corajoso para enfrentar criminosos, mas tem medo de enfrentar autoridades e ser punido. Além disso, também há a divisão política da categoria, com várias entidades de classe."

 

Durante o ato, os policiais cariocas realizaram uma assembléia em que decidiram transferir para o dia 17 a votação que poderá definir se a categoria entrará ou não em greve. Eles programaram para a ocasião um novo protesto, em frente ao apartamento do governador Sérgio Cabral (PMDB), no Leblon, zona sul da capital. "A greve em São Paulo nos animou muito. Por isso a homenagem. A politicagem com a polícia ocorre nos dois Estados. Mas lá o pessoal acordou para ir à luta. Estamos solidários", disse Bandeira.

 

O presidente da Associação dos Delegados de Polícia Civil de Pernambuco (Adeppe), Adalberto Freire do Nascimento, afirmou que 70% da categoria no Estado aderiu ao movimento. Segundo a associação, Pernambuco tem 278 delegacias e 350 delegados na ativa. Nascimento considera "uma vergonha" que São Paulo pague o menor salário de delegados e policiais civis do País e avalia que o governador do Estado, José Serra (PSDB), adota uma postura "arrogante e prepotente" em relação às reivindicações da categoria.

 

Já na Bahia, segundo estimativa da Associação dos Delegados de Polícia da Bahia (Adpeb), cerca de 800 delegados do Estado paralisaram suas atividades em apoio aos policiais paulistas. "A forma como o governo de São Paulo se posiciona sobre o trabalho e a remuneração dos delegados é absurda", disse o vice-presidente da associação, Pietro Baddini Magalhães. "Não dá para concordar que um delegado ganhe menos que um oficial de Justiça, por isso fizemos a manifestação." De acordo com ele, porém, as atividades nas delegacias foram mantidas no período, à exceção dos trabalhos específicos dos delegados.

 Leishmaniose

 

A greve da Polícia Civil prejudica o combate à leishmaniose em Andradina, no noroeste paulista, onde ao menos mil cães contaminados continuam com seus donos. Os cachorros não são capturados porque os grevistas não solicitam à Justiça mandados de busca e apreensão. Sem o documento, o Centro de Controle de Zoonoses da prefeitura não pode apreender cachorro cujo dono se nega a entregar o animal doente.

 

"Encaminhamos quatro ofícios e os quatro voltaram em função da greve. Temos mais quatro e amanhã vamos encaminhar o total de oito. O cão doente dentro de casa é um perigo para a família, que quase sempre se recusa a entregar o animal porque ele é mais que um cão, é um membro da família", afirmou o veterinário Aziz Abdelnour, diretor do centro.

 

O envio dos mandados à Justiça depende do delegado, segundo Márcio Occhiuci Guimarães, chefe dos escrivães do 1º Distrito Policial. "Só atendemos casos graves", observou. Questionado se a leishmaniose também não era grave, ele respondeu que "se for ver bem é grave". Foi o que também reconheceu o delegado-titular do 1.º Distrito Policial, Paulo César Ferreira, que prometeu enviar todos os ofícios à Justiça a partir de agora. "Sem dúvida, a doença é um problema grave. Pediremos à Justiça os mandados", resumiu o policial.

 

Nos últimos dez anos, 54 pessoas pegaram leishmaniose em Andradina. Dez morreram. A doença é transmitida pelo mosquito Flebótomo, mais conhecido como mosquito Palha. Hoje, a cidade tem cerca de dez mil cães e, nos últimos anos, pelo menos oito mil foram sacrificados.

 

Choque das polícias 

 

No dia 16 de outubro, uma manifestação de policiais civis terminou em confronto com policiais militares. Os policiais civis pretendiam seguir até o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do Estado, mas uma barreira de policiais militares impedia que os manifestantes seguissem em direção ao palácio. No confronto, 32 pessoas ficaram feridas - entre policiais e pessoas que passavam pelo local.

 

 

 

Armados e com seus uniformes negros, homens de grupos de elite da Polícia Civil enfrentaram a Tropa de Choque da PM. Eles haviam sido mandados para o Morumbi pela cúpula da Segurança Pública. O objetivo era que eles ajudassem a conter seus colegas, impedindo a marcha para o Palácio dos Bandeirantes. Mas, ao mesmo tempo, a PM foi chamada para proteger a sede do governo.

 

Quando o confronto começou, os policiais civis do Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos (Garra), do Grupo de Operações Especiais (GOE) e do Setor de Operações Especiais (SOE) se uniram aos colegas grevistas no ataque aos PMs. "Foi um erro gravíssimo de planejamento. Ou chamava a PM para cuidar da manifestação ou chamava a Polícia Civil. As duas, jamais", afirmou o coronel da reserva Francisco Profício, que comandou a PM nos anos 90. "Não se manda o amigo do amotinado ajudar a Tropa de Choque a sufocar a rebelião."

 

Profício se disse horrorizado. "Os grevistas, quando viram que estavam acompanhados pelos colegas armados, se sentiram seguros para enfrentar a PM, que só cumpriu o seu dever. O sujeito que organizou essa operação não tem cabeça. Pior do que falta de autoridade, foi a falta de planejamento."

 

O esquema montado pela Segurança Pública para conter os manifestantes e impedir a marcha até o Palácio misturou, de fato, policiais civis e militares. Na semana passada, para vigiar a manifestação dos civis na Avenida Paulista, a Segurança Pública não usou a PM. Essa tarefa ficou com o Garra e o GOE. Não houve tumulto. Nem o trânsito da avenida foi interrompido - os grevistas foram pela calçada até a Secretaria de Gestão Pública, na Rua Bela Cintra.

 

Desta vez, o governo chamou os grupos de elite da Polícia Civil e, para se precaver, chamou também a Tropa de Choque. "Seus coxinhas (termo pejorativo para PM), vocês vão ver quando vocês tiverem de registrar ocorrência", gritava um policial civil. Um PM do 16º Batalhão se desculpava com os policiais civis. "Foi o Choque que atirou em vocês." De fato. Quando os grevistas romperam a primeira barreira formada pelo batalhão, os demais integrantes do 16º BPM recuaram, deixando o caminho livre para os manifestantes. "A gente (Tropa de Choque) só fez o nosso serviço", disse um sargento do Regimento de Cavalaria da PM.

 

Os homens do regimento estavam com seus sabres desembainhados, prontos para carregar em direção aos civis. "Seus animais, têm de morrer de fome! Ficam aí defendendo esse governador!", gritavam os civis. Em meio ao tumulto, um investigador apanhou o telefone: "Doutor, pára tudo aí, que os meganha (sic) tão atirando na gente. Vem pra cá, vem pra cá."

 

Os PMs da Tropa de Choque lamentavam. "Como isso foi ocorrer?", perguntou um deles. A maior preocupação era com os feridos. "Atiraram com munição real. Os galhos das árvores estão quebrados. O Antão (coronel Danilo Antão) levou um tiro de 9 milímetros no quadril", disse o coronel Ailton Brandão. O Einstein informou, à noite, que a bala era de borracha. "Quem tá rindo são os bandidos", disse um delegado. Após o conflito, a cúpula da Polícia Civil tentou retirar os homens do GOE, do Garra e do SOE. Na noite de quinta, a cúpula da Segurança se reuniu para conter a crise.

 

Cronologia

 

20/7/2008: A decisão - A categoria resolve, em assembléia, iniciar greve no dia 13 de agosto. Pede reestruturação total da carreira, reajuste salarial de 200%, aposentadoria especial e o direito de eleger diretamente o delegado-geral;

 

13/8: Recuo Estratégico - Com adesão de 40% da categoria, começa greve inédita na história da Polícia Civil paulista. A paralisação só dura uma manhã. Governo e sindicalistas aceitam proposta do TRT;

 

21/8: Impasse - Em audiência de reconciliação, policiais rejeitam a proposta do governo: extinção da 5.ª classe e elevação do piso salarial da categoria em 27%;

 

5/9: Rejeição - Governo e policiais civis rejeitam proposta do TRT, de 12% de aumento em 2009 e 10% em 2010;

 

7/9: Vaias ao governador - O governador José Serra é vaiado em desfile;

 

9/9: Operação-padrão - Polícia inicia operação-padrão;

 

16/9: Segunda paralisação - Polícia Civil pára pela segunda vez e agora pede aumento de 29% até 2010. Governo oferece 27,9% para o piso salarial dos delegados;

 

17/9: Sob pressão - Governo endurece e afirma que só negocia quando acabar a greve. Aumenta adesão ao movimento;

 

6/10: Trégua - Greve é suspensa, para ser retomada no dia 10, caso não avancem as negociações;

 

16/10: Conflito - Ato na frente do Palácio dos Bandeirantes acaba em pancadaria e deixa 32 feridos;

 

20/10: Nova proposta - O governo de São Paulo decide ampliar a proposta de reajuste salarial e as vantagens para as polícias Civil e Militar na esperança de acabar com a greve. Os projetos serão enviados imediatamente à Assembléia Legislativa, apesar de a paralisação continuar. A proposta prevê reajuste de 6,5% em janeiro de 2009 e 6,5% em janeiro de 2010 para ativos e inativos. Ela estabelece 16.032 promoções para os cerca de 35 mil policiais civis por meio da extinção da 5ª classe e da passagem dos policiais da 4ª classe para a 3ª classe, com promoções ainda para as 2ª e 1ª classes. Também será instituída a aposentadoria especial para a Polícia Civil. Outra novidade anunciada foi o fato de que quem se aposentar nos próximos anos levará 10% do adicional de localidade (ALE) a partir de 2009 até 2014, quando se chegará ao teto de 50% do ALE;

 

23/10: Novo recuo - Após sinalizar para um possível fim da greve, policiais civis de São Paulo recuaram e decidiram manter a paralisação. Grevistas fizeram um ato na Assembléia Legislativa de São Paulo. Com o ato marcado, o Exército resolveu colocar seus homens em alerta para que possam intervir caso haja algum enfrentamento entre as Polícias Civil e Militar;

 

27/10: Manifestação - Vários policiais se concentraram na Praça da Sé e depois saíram em passeata pela região central de São Paulo, passando pela sede da Secretaria de Segurança Pública, e foram até a Delegacia Geral da Polícia Civil. Os sindicatos que organizaram o protesto disseram que o ato reuniu cerca de 7 mil policiais, mas, na contagem da CET, a manifestação teve participação de pouco mais de 3 mil pessoas.