Em cruzada contra a contra a ‘revolução yuppie’

A atriz Grace Gianoukas vê seu espetáculo ‘Terça Insana’ como uma luta ‘épica’ contra a ‘burrice’ que impera na internet

25 Agosto 2008 | 00h00

Grace Gianoukas entra no palco toda empetecada, com figurino de mulher rica, apenas com o holofote de luz sobre ela, sem cenário, e começa: "Sempre me ferrei na vida. Quando os ricos me viam, riam de mim. Eu não tinha nada, assistia TV e queria ficar iguais àquelas moças, ter meu carro, um vestido lindo e todo mundo babando em mim... Até que eu consegui! Trabalhei muito, muito, comprei uma roupa maravilhosa, promovi uma superfesta e atrasei de propósito, só para todos me verem chegar. Cheguei, entrei na festa, cumprimentei os convidados, ouvi centenas de elogios. E me senti vingada. Pronto, já podia voltar para casa e me masturbar na internet." Apaga a luz e a platéia do espetáculo Terça Insana ri. A atriz e diretora de teatro gaúcha tem uma concepção muito própria (e pessimista) do mundo de hoje. Para ela, por mais que a expressão esteja desgastada, a "geração internet" é burra, vazia, sem conteúdo e escondida atrás de grifes culturais. A opinião é tão radical quanto o modo de combatê-la: dar porrada nos espectadores com piadas cheias de sentido e verdades inconvenientes. Grace Gianoukas é protagonista de hits do YouTube com os personagens do espetáculo humorístico Terça Insana (www.tercainsana.com.br), que criou e dirige desde 2001 (ou você nunca assistiu ao Seu Merda e Esposa, Aline Durel, Cinderela Traficante, Xica da Silva Xavier? – se não viu, acesse os links ao lado). Por causa do site de vídeos, dá para dizer que, além do palco, ela usa a tecnologia para empreender a função "épica" que se atribui como artista. "Quanto mais pessoas se envolverem com a internet e chegarem às cenas, mais chance de criar o espírito crítico. Por isso, quero acessos mesmo, no YouTube, no site do Terça. Tenho uma mensagem para passar." Quem conhece a história de Grace Gianoukas pode estranhar a busca por cliques, geralmente relacionada a uma cobiça online por dinheiro. Quando chegou a São Paulo, do Rio Grande do Sul, Grace logo passou a circular entre a classe teatral underground. Ela ainda se vê como uma "louca dos anos 80" que viu os "yuppies tomarem o poder" na década seguinte. "Foi lá que começou essa coisa de valorizar o ‘clean’, o branco, o limpo. Então, qualquer muro pichado, preocupações históricas, sujeira, tudo isso passou a ser errado", afirma. No meio da "revolução yuppie", Grace foi fazer TV e se tornou conhecida com personagens do programa infantil Rá-Tim-Bum, da Cultura. Passou então à Escolinha do Professor Raimundo, na Globo. Mas isso não significou garantia na carreira, muito menos dinheiro, e a fase desempregada acabou por germinar na atriz o projeto Terça Insana. Ficou sem grana, revoltada com o esvaziamento das pessoas ao redor e não viu outra opção que não o humor ácido. "Com um nariz desse tamanho, não dá para interpretar a mocinha." O Terça Insana passou das terças-feiras vazias na sala N.Ex.T. (Núcleo Experimental de Teatro) para as platéias lotadas de hoje ao preço de R$ 50 por cabeça. No começo, reuniu atores que sofriam do mesmo perrengue financeiro, como Marcelo Mansfield, e desde então abrigou gente como Marcelo Médici, Graziella Moretto e Luis Miranda. Hoje, mais quatro atores dividem as noites de terça no Avenida Club, bem menos "alternativo" que o N.Ex.T: Marco Luque, Roberto Camargo, Agnes Zuliani e Guilherme Uzeda. Ué, mas esses nomes não estão em qualquer lista de humoristas de stand-up comedy, um gênero que a internet ajudou a popularizar no Brasil (o Link falou disso em http://is.gd/1Ouw)? Sim, e Grace se sente um tanto injustiçada. "O pessoal da ‘comédia em pé’ levou o rótulo de algo que eu já fazia há muito tempo." Mas se contradiz logo após, falando que não faz stand-up comedy – e, sim, teatro. Nesse meio tempo, as crianças que a assistiam no Rá-Tim-Bum cresceram e Grace se viu diante da famigerada internet, que, para ela, provocou o "prolongamento da adolescência", no sentido de negar tudo o que existe e promover o entretenimento puro e simples. Criou, então, uma personagem internética, adolescente, claro. Ela acha "ridículo" tudo o que pai diz, "um velho de 39 anos", que só ouve "músicas ridículas, vê filmes ridículos". Aí perguntam: que música você ouve? "Ai, acho linda aquela ‘Pneus de carros cantam tchuru-tchuru’" – e o golpe que mirava nos adolescentes também acerta a velha banda brasiliense Capital Inicial, autora da música citada. A aura politicamente incorreta de Grace Gianoukas tem a ver com a sujeira extirpada pelos yuppies lá nos anos 90. Qualquer semelhança com a cultura da Apple e seu design "clean" não é mera coincidência. Steve Jobs, então, é um inimigo natural da turma de Grace, certo? Errado. Ela acabou de comprar um MacBook, para aprender a editar vídeos. A contradição tem uma história gostosa por trás. O principal patrocinador do Terça Insana é a HP, concorrente importante da Apple no mercado de computadores. O agente de Grace, quando soube que ela havia posado para fotos do Link com o MacBook no colo, se desesperou. O que a HP poderia pensar? Ela prontamente virou e disse o que qualquer artista de verdade falaria: "Eu não sou Ronaldinho". Ela pode até estar ganhando uma grana, mas não se vende fácil.

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