Em Istambul, um peixe inigualável

A vizinhança é a mais simples que se pode imaginar, a ponto de você ter a nítida sensação de estar indo para o lugar errado. Mas o caminho até o Balikçi Sabahattin - basta perguntar para descobrir - passa inevitavelmente por aquele emaranhado de ruas estreitas e um tanto escuras, nas costas da Mesquita Azul. Ali, numa antiga casa otomana de madeira, está um dos melhores restaurantes de peixes de Istambul. Com sorte você será instalado em uma das mesas do andar superior, enfeitada com um balde de rosas vermelhas e uma impressionante vista para o Mar de Mármara, que se estende além das muralhas da antiga Constantinopla. É desse mar azul, a não mais de um quilômetro de distância, que sai boa parte do pescado servido no Balikçi Sabahattin - e um dos segredos de seu sucesso: todos os ingredientes são absolutamente frescos. A espera pelo prato de robalo, tão típico daquelas águas, não será longa, nem curta. E você terá como companhia potinhos com toda sorte de mezes (as entradas turcas) que desejar. Pode ser melão com queijo feta, purê de berinjela, lulas marinadas. Ou apenas uma porção de torradas e pães quentes, servida com uma harmônica mescla de azeite, pimentas e azeitonas pretas. Peça ajuda para escolher um vinho turco e aproveite para olhar em volta. Você verá poucos turistas nas não mais que dez mesas dispostas no andar superior - no verão, nem pense em ir sem reserva. E notará que todos estarão almoçando no ritmo que uma boa refeição pede. Sem tentar usar de falsa modéstia, o garçom apresenta o prato em um inglês precário: ''Está uma delícia'', afirma, enquanto passa a mão nos lábios para que não reste dúvida do que está dizendo. A aparência e o aroma não desmentem. Para acompanhar, não mais que uma salada verde. Uma, duas, três garfadas. A textura está perfeita e o sabor é rico em sua simplicidade. Quatro, cinco, seis. Por mais que você tente descobrir, o tempero usado continua um enigma. Nada sobressai. Pimenta, não há traços. Nem alho, nem limão. Bons minutos depois, o peixe estará aniquilado no prato sem que você tenha conseguido decifrá-lo. Nesse ponto, quando não restava nada além da espinha, surge o problema. Na pressa de conferir o que havia dito o garçom, não fiz uma única foto para ilustrar esta reportagem que você lê agora. Gafe jornalística só justificada pelo belo robalo que havia sido colocado à minha frente. Nada de sobremesa naquele dia, muito menos de café. À saída, o encontro com um dos donos do restaurante, Serkan Korkmaz, de 30 anos. É ele quem explica o que havia sido usado como tempero no peixe. ''Nada, nada além de azeite'', conta Korkmaz, terceira geração à frente do Balikçi. ''Os peixes do Mar de Mármara não precisam de nada, nem de sal.'' Não se trata de um azeite comum, é claro. Ele conta que o restaurante só usa o azeite produzido na propriedade que a família mantém no Estreito de Bósforo, faixa de mar que separa os lados europeu e asiático da maior cidade turca. Ou seja, para comer um igual, só voltando a Istambul. De preferência, de setembro a novembro, a melhor época para pescados na região. Balikçi Sabahattin - Cankurtaran, Sultanahmet;www.balikcisabahattin.com

Carla Miranda, O Estado de S.Paulo

29 Maio 2008 | 03h13

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