Entenda a crise nuclear com o Irã
Governo iraniano realiza novo teste com míssil de longo alcance e desafia pressão da comunidade internacional

O Irã continua desafiando uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que prevê a interrupção de seu programa nuclear. Em março, a ONU aprovou um terceiro pacote de sanções contra o Irã devido à recusa do país em suspender suas atividades de enriquecimento de urânio.
Em junho, a comunidade internacional ofereceu um pacote que inclui incentivos econômicos ao Irã em troca de garantias de que o país não irá fabricar armas nucleares, mas o país islâmico rejeitou a oferta e disse que não mudaria sua posição em relação a seu programa nuclear.
Em meio à tensão, Israel realizou exercícios militares no que foi considerado pelo Irã como um ensaio para um possível ataque contra suas instalações nucleares. O governo da república islâmica reagiu, testando mísseis de longo alcance com capacidade de atingir Israel. Veja as principais questões sobre o programa nuclear iraniano:
Por que o Irã está desafiando o Conselho de Segurança?
O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, diz que o uso da tecnologia nuclear para fins pacíficos é um direito do povo iraniano. Segundo o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), um país tem o direito de enriquecer seu próprio combustível para geração de energia nuclear com fins civis, sob a inspeção da AIEA.
O Irã afirma que está fazendo o que é permitido. O país afirma que precisa de energia nuclear e quer controlar todo o processo sozinho. O Irã alega que não vai usar a tecnologia para fabricar uma bomba nuclear.
Por que o Ocidente está tão preocupado?
As potências do Ocidente temem que o Irã, sigilosamente, tente desenvolver uma bomba nuclear ou a capacidade de fazer uma bomba, mesmo se não tiver decidido fazer a bomba agora. Por isso, elas querem que o Irã acabe com qualquer enriquecimento.
Esses países dizem que não é possível confiar no Irã. O Irã admitiu ter recebido um documento no mercado negro sobre a construção de um dispositivo nuclear preparado pelo cientista paquistanês A. Q. Khan. Isso aumentou as preocupações. O Irã diz que recebeu o documento sem ter pedido. Além disso, as potências ocidentais avaliam que permitir que o Irã continue a enriquecer urânio seria abrir um precedente.
Quais foram as últimas sanções impostas ao Irã?
Em março de 2008, a ONU impôs uma última rodada de sanções, que incluem a proibição de viagens internacionais para cinco autoridades iranianas e o congelamento de ativos financeiros no exterior de 13 companhias e de 13 autoridades iranianas. A resolução também impede a venda para o Irã dos chamados itens de "uso duplo" - que podem ter tanto objetivos pacíficos como militares.
Em 10 de junho deste ano, os Estados Unidos e União Européia anunciaram que estariam dispostos a reforçar as sanções com medidas adicionais. Treze dias depois, a UE concordou em congelar bens do maior banco iraniano, Bank Melli e estender a proibição de vistos para iranianos envolvidos no desenvolvimento do programa nuclear.
Ainda em junho, o representante da União Européia para política externa, Javier Solana apresentou, em nome de China, UE, Rússia e Estados Unidos um pacote de incentivos econômicos ao Irã em troca de garantias de que o país não irá fabricar armas nucleares. Um porta-voz do governo respondeu que a posição do país sobre seus direitos de desenvolver seu programa nuclear permaneceria a mesma.
Por que a tensão aumentou nos últimos dias?
Em meio à tensão, Israel realizou exercícios militares o que foi considerado pelo Irã como um ensaio para um possível ataque contra as instalações nucleares iranianas. O governo da República islâmica reagiu, testando mísseis de longo alcance com capacidade de atingir Israel.
O Irã diz que tem permissão para enriquecer combustíveis. Então, por que a crise?
O Irã tem permissão para desenvolver um ciclo de combustível para energia nuclear, sob inspeção da AIEA. No entanto, como escondeu o seu programa de enriquecimento antes, há agora uma dúvida sobre o risco de que isso volte a ocorrer. Em tese, o Irã poderia aprender como fazer combustível para energia nuclear, enriquecê-lo ainda mais para uma bomba e deixar o TNP.
O Irã pode abandonar o TNP?
Sim. O artigo 10.º dá aos Estados-membros o direito de declarar que "eventos extraordinários colocaram em risco os interesses supremos do Estado". Um país pode, a partir disso, dar um aviso de que em três meses abandonará o tratado.
Por que o Irã quer enriquecer urânio?
O urânio enriquecido fornece combustível para uma usina de energia nuclear. O Irã diz que precisa ser capaz de desenvolver esse processo de enriquecimento, sob inspeção, porque não pode confiar em fornecedores estrangeiros. O país diz que esses fornecedores poderiam estar sujeitos à influência americana.
Apesar de suas grandes reservas de gás e petróleo, o Irã diz que quer diversificar suas fontes de energia. O país argumenta que seu programa nuclear original começou há décadas.
O Irã pretende fazer armas nucleares?
O Irã diz que sua política é de dizer "sim" ao enriquecimento e "não" às armas nucleares. Os céticos argumentam que o Irã não tem necessidade de fazer seu próprio combustível nuclear, que pode ser fornecido por outros e, portanto, deve estar pretendendo fazer uma bomba. Outra possibilidade é que o Irã queira desenvolver a capacidade, mas deixar para o futuro a decisão de realmente fazer uma arma nuclear.
Quanto tempo seria necessário para o Irã construir uma bomba?
Uma estimativa do Instituto Internacional para Estudos Estratégicos de Londres (IISS, na sigla em inglês), feita em 2007, diz: "se e quando o Irã tiver três mil centrífugas operando normalmente, o IISS estima que seriam necessários mais nove a 11 meses para produzir 25 quilogramas de urânio altamente enriquecido, o suficiente para uma arma do tipo de implosão. Este dia ainda está dois ou três anos longe, no mínimo".
O Irã instalou, inicialmente, 164 centrífugas, mas - segundo o especialista Mark Fitzpatrick, do IISS - o país tem tido problemas para conseguir fazê-las funcionar.
Israel não tem uma bomba atômica?
Sim. Israel, no entanto, não é membro do TNP e, portanto, não teria obrigação de obedecê-lo. Assim como Índia e Paquistão, que também desenvolveram armas nucleares. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.
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