Entre a película e o digital: a história de um filme ‘artesanal’

"Eu sou um homem do artesanato", afirma Matheus, que se diz seduzido pelas práticas manuais. Essa fascinação do ator pelo que é artesanal somado à sua surpresa frente aos avanços tecnológicos está claramente exposta nas escolhas feitas por Matheus em sua estréia na direção de um longa. Além de "escrever a mão" toda a primeira versão do roteiro, Nachtergaele desenhou de próprio punho todos os storyboards das principais cenas de A Festa da Menina Morta. Chegada a hora de filmar, a opção pela película parecia óbvia ao diretor estreante. Assim sendo, as filmagens ocorreram em Super 16, que, mais tarde, foi ampliado para 35 mm para só depois ser finalizado e editado. "Tomamos essa decisão porque queríamos diminuir o tamanho do equipamento para filmar na Amazônia. Além disso, há uma certa granulação que o filme ganha nessa ampliação, que me interessava", conta o detalhista Matheus que teve como diretor de fotografia Lula Pereira, de Tropa de Elite e Lavoura Arcaica. Para Matheus, o uso do digital não cabia em seu filme de estréia, que assim como ele deveria ser o mais artesanal possível. Apesar disso o diretor admite: "Tenho consciência de que cada vez mais o digital vai imperar, até porque ele barateia o processo de filmagem." A idéia do filme de temática barroca surgiu durante as filmagens de O Auto da Compadecida, em 1999, quando Matheus teve contato com uma cerimônia que misturava forró com celebração de fé, no interior da Paraíba. A comunidade local atribuía poderes milagrosos aos restos de um vestido de uma menina desaparecida na região. Esse fiapo de história que ele testemunhou serviu de base para seu roteiro original. O longa pequeno custou apenas R$ 1,2 milhões e poderia passar despercebido na opinião de Matheus se não fosse por Cannes. "O festival é lindo. Apesar do tamanho ele ainda privilegia o cinema de arte." Arte essa que aqui foi feita por Matheus de forma artesanal.

Bruno Galo,

04 Agosto 2008 | 00h00

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