ENTREVISTA-Veto a navio da Vale pode ser represália da China-AEB
A Vale pode estar no meio de um fogo cruzado entre o governo brasileiro e a China, que proibiu nesta terça-feira os supernavios da mineradora em seus portos, avaliou a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).
O veto aos cargueiros com mais de 300 mil toneladas, medida que afeta diretamente a Vale, pode ser uma represália do governo chinês ao aumento do imposto cobrado das montadoras de veículos importados, segundo a associação.
Dezoito montadoras de automóveis foram habilitadas pelo governo federal a vender automóveis com as alíquotas de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sem a majoração de até 30 pontos percentuais. Nenhuma delas é chinesa.
"Há poucas semanas o governo havia autorizado a entrada de um desses supercargueiros da Vale. Por que mudou de ideia, logo quando o governo brasileiro deixa as chinesas de fora da lista de isentos do IPI maior?", questionou o vice-presidente da entidade que representa os exportadores, José Augusto de Castro, durante entrevista à Reuters.
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior publicou a relação com os nomes das fabricantes na edição desta terça-feira do Diário Oficial da União.
Segundo Castro, a montadora chinesa Chery era uma das que reivindicava a isenção da sobretaxa.
O governo anunciou em setembro passado um grande aumento na taxação sobre veículos importados, numa ofensiva para estimular as montadoras a elevar a produção nacional. A medida, que entrou em vigor em dezembro, elevou para até 55 por cento o IPI sobre automóveis importados.
"Isso parece um clara represália da China ao governo brasileiro e quem está pagando o pato é a Vale", afirmou.
Uma fonte do governo afirmou que por enquanto a Vale não se manisfestou sobre a questão. Mas disse que o governo está acompanhando e, se for requisitado, poderá acionar o Ministério das Relações Exteriores para tentar uma solução diplomática.
PROTECIONISMO
Paralelamente, o Ministério do Transporte chinês admitiu que sua decisão de proibir navios gigantes decorre em parte da crise que assola a indústria de navegação chinesa, assim como assuntos de segurança marítima.
Com a desaceleração econômica em importantes regiões no mundo, como a Europa, a demanda por embarcações, muitas delas construídas e operadas por companhias chinesas, caiu, levando também os valores do frete marítimo para baixo.
Para Castro, a Vale não terá interesse em discutir o assunto no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), já que a China é seu principal cliente, por mais que a decisão chinesa eleve os custos de frete da mineradora.
"A China é seu maior cliente, a Vale tem que pensar muito antes de tomar uma decisão dessas", disse.
Procurada para falar sobre o assunto, a Vale não comentou.
(Com reportagem de Fábio Couto; edição de Roberto Samora)
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