Ozier Muhammad/The New York Times
Ozier Muhammad/The New York Times

Escravos de Jobs

Com um ‘espero voltar’, Steve Jobs se afasta do comando da Apple. O substituto, Tim Cook, é um viciado em esportes, mas terá ele fôlego para alforriar os fãs consumidores do mítico patrão?

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2011 | 13h37

Selo - ALiás a Semana em RevistaReligiões não enfrentam problemas de continuidade. Deus, é claro, não tem sucessor. Mas, no monoteísmo corporativo da indústria americana, a mortalidade continua a desafiar a narrativa do rarefeito olimpo high tech.

Tim Cook, um sulista de fala macia e olhar de aço, já tocou a Apple em duas ausências de Steve Jobs, em 2004 e 2009. Desde que, no domingo passado, um e-mail de Jobs anunciou nova licença médica com as palavras "espero voltar", Cook foi catapultado para uma berlinda que não afligiu a escalada de seu patrão para o olimpo.

Jobs não dá satisfações sobre sua saúde, um hábito questionado na imprensa econômica como falta de respeito com os acionistas da empresa de tecnologia mais valiosa do mundo. Sabemos que ele sobreviveu a um câncer no pâncreas e, mais recentemente, passou por um transplante de fígado. Sua figura esquálida, numa conferência no ano passado, provocou nova onda de rumores nos inúmeros sites dedicados a cobrir cada espirro ouvido na sede da Apple em Cupertino, Califórnia.

Jobs tomou Tim Cook da empresa Compaq, em 1998, quando a Apple vivia sob a nuvem da falência. Diz a lenda do Vale do Silício que Cook ganhou a confiança de Jobs ao sobreviver a uma entrevista com o estoicismo de um bem treinado membro do Al-Qaeda.

Tim Cook é filho de um empregado dos estaleiros do porto de Robertsdale, no Alabama. Ele estudou engenharia na Auburn University, a mesma escola frequentada por Jimmy Wales, o fundador da Wikipédia. Depois de concluir o necessário MBA, Cook abandonou o sul para uma década na IBM, onde construiu sua reputação estelar de gerente de operações. A Apple deve a ele uma revolução no processo de fabricação e distribuição de seus cobiçados Mac’s, iPod’s e iPhones. Mas o adjetivo "visionário" continua colado a Steve Jobs, notório por se envolver nos menores detalhes do design.

Por ser avesso à visibilidade pública e a ocasiões sociais, é difícil imaginar Cook esbravejando e jogando charme, na mistura diabólica que faz Jobs arrancar concessões como o direito de vender o catálogo musical dos Beatles pelo Itunes.

Na semana passada, Cook disse que a concorrência ao iPad, em tabletes com o sistema Android, do Google, por enquanto é "vapor", seguindo a linha triunfalista do temperamental Steve Jobs. Quem conviveu com Cook não acredita que ele vá se submeter à rotina de rock star do patrão. Coube ao diretor de marketing da Apple, Phil Schiller, substituir Jobs no papel de mestre de cerimônias no evento anual MacWorld de 2009. O gênio do design atrás de produtos como o MacBook, iPod e oiPad é o inglês Jonathan Ive.

Já se tornou clichê dizer que a Apple é uma religião e não há substituto à altura de Steve Jobs, uma frase repetida pelo próprio Tim Cook. A cobertura incessante da era digital é de uma tal voracidade que, numa empresa cuja mística e o preço da ação estão intimamente associados ao fundador e CEO, Cook tem pouca chance de ser observado apenas por seu talento gerencial ou sua criatividade.

Na sexta-feira, quando o executivo solteiro de 50 anos acordou mais cedo que a maioria de seus funcionários para fazer exercício - ele é descrito como um fanático do condicionamento físico, que cita o ciclista Lance Armstrong em reuniões -, o mundo online estava aceso com especulações sobre sua sexualidade, seguidas de comentários sobre a percepção da hipermanufaturada imagem da Apple. A companhia se apresenta como um estilo de vida. O consumidor ideal da Apple se imagina libertário, mas cede ao totalitarismo de sua linha de produtos que briga com outras tecnologias.

Como um dos cérebros das previsões de demanda de consumo da Apple, Tim Cook está pilotando uma companhia fadada a novos sucessos. Vêm aí o iPad 2 e o iPhone 5.

Pouco antes de Steve Jobs tirar sua nova licença médica, o jornalista financeiro James B. Stewart perguntou se os melhores dias da empresa já estão no passado. Um confesso Applecêntrico, Stewart desconfia que a Apple não tenha novos territórios a conquistar.

Um dos desafios que Tim Cook enfrenta é convencer adeptos como Stewart de que o sucesso da Apple vai ter alforria do mítico Steve Jobs.

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