Getty Images/The Economist
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Escritores tentam superar abismo ideológico nos Estados Unidos

Polarização política transformou o debate em um diálogo entre surdos

The Economist, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2017 | 16h00

O fato de que os americanos que se inclinam para esquerda e seus compatriotas que tendem para a direita não leem os mesmos livros talvez seja um dos fenômenos menos surpreendentes do mercado editorial. Afinal, uns e outros vivem em lugares diferentes, gostam de comidas diferentes, escutam músicas diferentes e, obviamente, consomem tipos diferentes de notícias. Cada uma dessas coisas reforça as demais: nos EUA, progressistas e conservadores se conhecem cada vez menos. E um estudo sobre as vendas de livros na Amazon, realizado para The Economist por Valdis Krebs, um cientista de dados com especialização em análise e visualização de redes, deixa isso claro. Indivíduos que compram livros conservadores via de regra compram apenas livros conservadores, e assim é também com as pessoas de esquerda. Os dados empregados no estudo foram extraídos da funcionalidade “Clientes que compraram este item também compraram (...)”, disponível no site da Amazon.

Quando a análise encomendada por The Economist foi realizada, dois volumes progressistas dominavam a lista de livros mais vendidos do New York Times na categoria de não-ficção. Em What Happened (“O que aconteceu”), Hillary Clinton admite ter cometido alguns erros na campanha contra Donald Trump, mas dedica número bem maior de páginas aos hackers russos, ao comportamento de manada da imprensa e a James Comey, o diretor do FBI cuja investigação sobre o servidor privado de e-mails utilizado por Hillary no período em que ela chefiou o Departamento de Estado teria, na opinião da democrata, lhe custado a eleição.

Em segundo lugar na lista do Times estava Unbelievable (“Inacreditável”), de Katy Tur, que é um relato sobre os 17 meses em que a jornalista cobriu a campanha de Trump para a emissora de TV NBC. No livro, publicado em 12 de setembro, Tur desfia uma série de histórias sobre o comportamento ultrajante de Trump para com ela, dos comentários difamatórios que o então candidato republicano fazia a respeito de suas reportagens à ocasião em que, sem ter intimidade para tanto, beijou-a no rosto e depois se vangloriou do feito diante das câmeras. Num comício, Trump teve o desplante de incitar a multidão a vaiar a “pequena Katy”, levando seus próprios guarda-costas a oferecer proteção à jornalista para que ela pudesse deixar o local com segurança.

Por outro lado, foram publicados nos últimos 12 meses alguns livros que procuram se libertar da camisa de força ideológica. Trata-se de iniciativa mais comum entre autores de esquerda, geralmente envolvendo a apresentação de um retrato compreensivo, ou pelo menos baseado em pesquisas criteriosas, sobre o outro lado. Arlie Russell Hochschild, professora emérita de sociologia da Universidade da Califórnia, no campus de Berkeley, passou vários meses na Louisiana tentando entender por que, apesar de enfrentarem dificuldades econômicas e viverem em locais atingidos pela destruição ambiental provocada por empresas de petróleo e gás, certos contingentes do eleitorado de direita votam em políticos que prometem cortar os serviços públicos e acabar com a Agência de Proteção Ambiental. O resultado da pesquisa, que Hochschild publicou com o título de Strangers in their Own Land (“Estranhos em sua Própria Terra”), é extremamente interessante, mas acaba sendo lido basicamente por pessoas que leem outros livros de autores progressistas, e não por pessoas de características semelhantes às dos indivíduos que foram objeto do estudo. O mesmo se aplica a White Trash (“Lixo Branco”), em que Nancy Isenberg, professora de história da Universidade Estadual da Louisiana, analisa as forças centenárias que contribuíram para a formação de uma subclasse de indivíduos brancos revoltados. Considerando-se os ânimos tribais dos dias que correm, o livro trata com simpatia surpreendente o conjunto de eleitores que compuseram a base eleitoral de Trump.

Os autores conservadores, por sua vez, não parecem muito interessados em analisar a mentalidade dos eleitores do Brooklyn ou de Berkeley. Nem sempre foi assim. Em Bobos in Paradise (“Hippies Burgueses no Paraíso”), publicado em 2000, o colunista David Brooks abordava com perspicácia as características da elite que se formou na era da informação, combinando um estilo de vida inspirado na contracultura dos anos 1960 com carreiras e valores burgueses. O olhar agudo também estava presente nas observações com que o humorista P. J. Rourke fazia gato-sapato de lugares-comuns esquerdistas, publicadas em livros como Parliament of Whores (“Parlamento das Putas”), de 1991. Hoje, porém, não parece que Dinesh D’Souza tenha passado muito tempo conversando com democratas antes de escrever The Big Lie: Exposing the Nazi Roots of the American Left (“A Grande Mentira: Desmascarando as Origens Nazistas da Esquerda Americana”), um dos livros conservadores mais vendidos no ano passado.

Autores conservadores mais corajosos optam por abordagem distinta: submetem seu próprio lado a um exame crítico. Dois senadores republicanos publicaram livros marcados pela consternação com a ascensão de Trump. Ben Sasse, do Nebraska, recusou-se a apoiar o candidato do partido. Em The Vanishing American Adult (“O Desaparecimento do Adulto Americano”), ele fala de um país que teria entrado numa “adolescência eterna”, enfatizando a importância da família, da leitura e dos serviços comunitários numa cultura que, a seu ver, está se rendendo ao egoísmo, ao culto às celebridades e ao domínio das telas e monitores em geral. Trata-se de verdadeira raridade: um livro lido por integrantes de ambas as tribos.

Também escrito por um conservador interessado em discutir o conservadorismo, mas de um ponto de vista mais explicitamente político, Conscience of a Conservative (“Consciência de um Conservador”) não vem tendo a mesma sorte. Seu autor, o senador Jeff Flake, do Arizona, receia que seu partido tenha feito mal negócio ao oferecer apoio irrestrito a Trump, abrindo mão do compromisso firme com o livre comércio, com um governo enxuto e com a posição de liderança dos EUA no mundo democrático em troca de ocupar o poder. Flake pretendia fazer um chamamento a seus colegas republicanos. Mas quem compra seu livro na Amazon tende a se interessar mais por obras como How The Right Lost Its Mind (“Como a Direita Perdeu a Cabeça”), de Charles Sykes, The Conscience of a Liberal (“A Consciência de um Liberal”), de Paul Krugman, e até mesmo Unbelievable, de Tur, do que por livros de outros autores conservadores.

A esquerda tampouco se esquiva de produzir “fogo amigo” contra suas próprias fileiras. Em The Once and Future Liberal (“O Liberal do Passado e do Futuro”), Mark Lilla, da Universidade Columbia critica “certo pânico moral instalado em torno de identidades raciais, sexuais e de gênero, o qual tem distorcido a mensagem progressista, impedindo-a de se tornar uma força unificadora”. Seria de se esperar alguma euforia entre os republicanos com um livro cuja tese central é a ideia de que a esquerda exagera na defesa de grupos minoritários, em detrimento do “americano comum” do interior do país. Mas o livro de Lilla só parece despertar o interesse de leitores que costumam comprar outros livros progressistas.

Um dos livros mais elogiados pelos críticos também surpreendeu ao entrar para as listas de mais vendidos: Hillbilly Elegy (publicado no Brasil com o título de Era uma Vez um Sonho), de J. D. Vance. Os familiares de Vance, que “preferem dar um tiro no interlocutor a ficar batendo boca com o sujeito”, trocaram a vida rural no Kentucky por uma cidade de Ohio cuja economia há muito girava em torno da atividade siderúrgica. São o “lixo branco” de que também falam outros autores interessados em entender por que esse segmento da classe operária abandonou o Partido Democrata. A diferença é que Vance não está fazendo antropologia: seu livro é o relato de alguém que nasceu e se criou nesse meio. As drogas, a bebida e a violência marcaram sua família e sua cidade, e Vance, que se define politicamente como conservador, é um crítico dessa cultura. Publicado em junho de 2016, o livro vem sendo enaltecido por intelectuais democratas e republicanos, mas na Amazon são basicamente os leitores de inclinações democratas que o compram.

Entre os livros que buscam dialogar com ambos os lados do espectro político, os de tom mais desalentado talvez sejam os que abordam a campanha de Hillary Clinton. Um deles, Shattered: Inside Hillary Clinton’s Doomed Campaign (“Arrasados: Por Dentro da Malfadada Campanha de Hillary Clinton”), foi escrito por dois jornalistas veteranos, Jonathan Allen e Amie Parnes, e desperta o interesse tanto de leitores democratas, como de republicanos. O mesmo não ocorre com The Destruction of Hillary Clinton (“A Destruição de Hillary Clinton”), da professora feminista da Universidade do Kentucky Susan Bordo, cujo argumento é o de que os EUA não estavam preparados para serem governados por uma mulher tão forte. A maioria dos que avaliam o livro na Amazon parece estar de acordo com isso, atribuindo-lhe cinco estrelas. Praticamente todos os que acham o livro ruim são taxativos: concedem-lhe apenas uma estrela. Talvez tenham se deixado enganar pelo título, imaginando que a “destruição” de Hillary seria narrada com gosto e satisfação.

Em 2013, o fundador e CEO da Amazon, Jeff Bezos, comprou o Washington Post e, no início deste ano, determinou que a página do jornal na internet passasse a estampar o lema “A Democracia se Extingue nas Trevas”. Ocorre que a Amazon conquistou o mercado de livros em parte graças à força de seu “algoritmo de recomendações”, que agora contribui para a formação de pontos cegos no conhecimento que os americanos têm a respeito de seus compatriotas que lhes são politicamente antagônicos. Resta saber se a Amazon será capaz de fazer alguma coisa para mudar isso.

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