Gal Oppido
Gal Oppido

Eurodescentrismo

À Europa insossa de 2012 resta o desafio magnífico: recuperar sua experiência e seus saberes para não só evitar o desastre industrial, mas também dinamizar setores como serviços, finanças e luxo

Gilles Lapouge,

29 Dezembro 2012 | 17h13

Visto do Velho Continente, o ano de 2012 começou e terminou em função da União Europeia e de uma de suas inovações mais espetaculares, o euro, a moeda comum.

O 1º de janeiro de 2012 marcou o décimo aniversário da moeda que circula em 17 dos 27 países da União Europeia - sim, 17, porque há 10 membros da UE, Grã-Bretanha à frente, que não quiseram adotá-la.

Curiosamente, porém, o 1º de janeiro de 2012 passou sem a menor festa. Esse mutismo teve suas razões: o euro, apesar de se manter em boa situação nos mercados cambiais, é um desastre. A zona do euro afunda, perfurada por dívidas delirantes.

Nesse primeiro dia de janeiro de 2012, somente a Alemanha estava em boa forma. Grécia, Espanha, Portugal, Itália (os países do sul, apelidados de "países do Clube Med") desmoronavam. Mesmo a França caminhava aos tropeções. É compreensível, portanto, que a zona do euro não queira ter passado o ridículo de saudar com cantos e fogos de artifício esse objeto duvidoso, tão jovem e já entrando em decomposição.

Um ano transcorreu e, às portas de 2013, a mesma Europa participou de uma grande festa. Em 10 de dezembro, o Nobel da Paz foi entregue a quem? À União Europeia! Por que a Academia de Oslo teria feito tal escolha? Mistério. Um erro? Um souvenir? Uma esperança? De qualquer forma, os senhores da UE em Bruxelas não escondiam seu regozijo. Os altos dignitários da UE e dos diversos Estados correram para Oslo. Por uma vez, a Europa seria aplaudida, ninguém estragaria seu prazer! Estiveram ausentes, contudo, o premiê britânico, David Cameron, e o premiê checo, que detestam Bruxelas.

Teria ocorrido, durante o ano, uma melhora súbita do euro e da União Europeia? Não. Ao longo desses meses, os europeus tiveram direito à mesma ladainha: o euro agoniza, mas uma "cúpula da última chance" se reuniu mais uma vez, como faz a cada dois ou três meses, sob o pulso firme de madame Merkel, que vai a Bruxelas com seus açoites, suas mezinhas, suas poções e seus chapéus de burro. E essa cúpula envia boias salva-vidas à Grécia, à Espanha, sob a condição de esses países estropiados se submeterem aos novos regimes ferozes, realizando eles próprios demissões colossais, rebaixamentos de salários em geral, aumentos de impostos, sob o risco de morrerem de inanição.

Por que, então, apesar desse panorama catastrófico, a UE e o euro terminam o ano com o Nobel? Podemos propor duas razões. A primeira é que o euro ainda existe. O navio naufraga há três anos, mas a tripulação opera valentemente os vertedouros para retirar as trombas de água que invadem o porão.

A segunda razão é um fato discreto, que ocorreu em 5 de julho de 2012. Nesse dia, o novo presidente do Banco Central Europeu (BCE), em Frankfurt, Mario Draghi, disse: "O BCE está pronto a fazer tudo o que for preciso para salvar o euro". E acrescentou, a meia voz: "Creiam-me, isso será suficiente".

Naquele dia, houve uma reviravolta. O BCE e, portanto, a Europa, abandonaram sua estúpida política do euro forte, afastando-se da linha dura de Merkel, e anunciaram que o BCE sairia em socorro dos países ou dos bancos, com seu poder monetário ilimitado e aceitando o risco de uma inflação controlada. Evidentemente, a declaração de Draghi não pôs fim ao desastre europeu, mas teve duas consequências: ele ganhou o apelido de Super Mario e a zona do euro, embora cambaleie e continue com uma palidez mortal, parou de se suicidar como vinha fazendo havia dois anos.

Este mesmo ano de 2012 permitiu fazer uma comparação entre as diferentes estratégias adotadas pelos Estados europeus em face da crise. Nesse quesito, um país se destaca como caso exemplar: a Islândia. Ela não pertence à zona do euro nem à União Europeia. É uma pequena ilha situada no Círculo Polar Ártico. Terra fria, coberta de neve, povoada por vikings (descendentes dos noruegueses que ali chegaram no século 10), a Islândia (319 mil habitantes) conheceu longos séculos negros, para, a partir de 1945, sair da pobreza extrema e depois enriquecer.

Em 2008, a Islândia recebeu a crise financeira mundial como uma porretada. A ruína do dia para a noite, o desastre. Os bancos superdimensionados beijaram a lona. A moeda local (a coroa) desabou. O primeiro-ministro pediu ajuda a Deus. Manifestantes ganharam as ruas. Os bancos foram tomados de assalto, um cenário que se reproduziria três anos depois em todos os países do euro se madame Merkel, o FMI e Bruxelas tivessem deixado as coisas correrem soltas.

Mas a Islândia, largada à própria sorte, sem socorro nem conselhos, seguiu um caminho radicalmente diferente do seguido por países do euro. Reykjavik, capital do país, deixou seus três grandes bancos (Kauphting, Landsbanki e Glitnir) quebrarem (esses bancos eram prósperos, enormes, desmesurados em relação ao país porque tinham nos cofres um valor dez vezes maior que o PIB da Islândia). E, sobretudo, Reykjavik deixou sua moeda flutuar e perder valor.

Estratégia rigorosamente contrária, portanto, à da Europa. Os países europeus, acorrentados ao euro, não podem em hipótese alguma desvalorizar sua moeda ou deixá-la cair. A Grécia, por exemplo, usa uma moeda (o euro) talhada para um país rico, mesmo estando à beira da miséria. E Atenas não tem o direito de desvalorizar sua moeda porque ela não é uma moeda grega, mas europeia, forte demais para ela e intocável. Já a coroa perdeu metade do seu valor ante o euro. A inflação atingiu 20% ao ano. Empresas despediram assalariados. Multidões vociferaram diante do Parlamento. O governo islandês foi varrido... E a Islândia foi salva.

Hoje, os cafés da Laugavegur, principal artéria comercial da capital, estão abarrotados; os restaurantes vivem cheios, oferecendo baleia minke. Formam-se filas nas discotecas. No sábado à noite, jovens se entopem de cerveja até altas horas, e depois desabam e dormem até passar a bebedeira. Tudo como antes.

De fato, a Islândia renasceu. O desemprego é baixo. O turismo se recuperou rapidamente (graças à fraqueza da coroa). No último verão, o governo conseguiu pegar empréstimos nos mercados financeiros. O crescimento foi retomado. Algumas feridas ainda estão abertas, é verdade. A Islândia não eliminou todos os estigmas, mas recuperou a energia. Sua economia está saudável. Nenhuma relação com as economias do euro, que só se mantêm de pé com a ajuda de muletas, de Prozac, de transfusões, de próteses.

Alguns citam a Islândia como modelo para a Europa ou para os Estados Unidos. A comparação não se justifica. A Islândia é um país minúsculo. Seus três bancos sacrificados, apesar de opulentos, eram pigmeus em relação aos grandes estabelecimentos ocidentais. Foi possível deixá-los cair. Mas imaginemos que os Estados Unidos deixassem cair um banco monstro como o Citibank em vez de salvá-lo. O tsunami teria varrido a América e o mundo.

Resta que, apesar de não transmissíveis, os métodos islandeses merecem análise. Mostram que o sacrifício decidido pelo próprio país vale mais que uma camisa de força imposta por outro, por uma dama alemã ou pela Comissão de Bruxelas. E, no que se refere ao euro, permitem compreender que a fixação obrigatória do curso de todas as moedas europeias, sem possibilidade de deixá-las subir ou descer, é uma regra deletéria.

Este mesmo ano de 2012 tornou legível um movimento de grande amplitude, em ação há alguns anos, mas tão discreto que quase não foi notado - um pouco como as placas tectônicas que deslizam no fundo dos oceanos sem que os observadores reparem nelas - até que um dia vem o desastre.

Esse movimento quase imperceptível, mas potente e irrevogável, é uma oscilação em escala planetária. Já faz algum tempo que os Estados Unidos, que com frequência têm uma visão aguda, se deram conta: a Europa, apesar da União Europeia, apesar de países poderosos como Alemanha, Inglaterra, França, Itália, apesar do euro, apesar, enfim, de um nível cultural excepcional, está sendo ultrapassada pelos países da Ásia.

A geometria do planeta está mudando. Outrora, a Europa estava no centro. Mais tarde, os Estados Unidos a substituíram, e a Europa permaneceu como parceira privilegiada da América. Hoje, e o comportamento do presidente Barack Obama o confirma, é para a Ásia que os olhares se voltam. Passou-se do Oceano Atlântico para o Pacífico.

Mas isso não é tudo. Um outro movimento confirma esse balanço do planeta para novas figuras. Trata-se da desindustrialização dos grandes países industriais antigos em favor de países outrora rurais, mineiros, subdesenvolvidos e pobres. A queda da indústria europeia está se tornando dramática. A França vive intensamente essas mudanças: sua indústria está se despedaçando ou saindo para o exterior. Fábricas fecham às dezenas e empregos desaparecem às dezenas de milhares. A siderurgia agoniza. O tecido das pequenas empresas, antes tão denso, tão dinâmico e alegre, está dilacerado.

Gregos, portugueses, espanhóis, italianos tomam o navio, plantam sua tenda na Austrália, na Argentina, em Angola, no Brasil. Uma charge ilustra esse balanço. No cais de um país emergente, uma família espera a chegada de um navio da Europa. A mãe diz aos filhos: "E, acima de tudo, sejam gentis com seus primos pobres da Europa".

A Europa faria bem em planejar seu futuro, porque a hemorragia continua. Os países industriais se tornaram países sem indústria. É nos países durante muito tempo confinados ao setor primário que a indústria se expande. Brasil, África do Sul, Coreia do Sul, Índia e, claro, China superaram a Europa em alguns setores e, talvez, em todos eles.

A França tenta se reindustrializar, mas como fazê-lo quando as indústrias, mesmo as mais sofisticadas ou mais pesadas, são atraídas de forma quase magnética para os países emergentes, onde o mercado interno está em pleno crescimento e a mão de obra é da mesma qualidade, mas muito mais barata?

Há exceções. A Alemanha continua sendo a manufatura da Europa em razão de seu talento. Além disso, soube perceber o perigo da realocação antes de seus concorrentes. E a Grã-Bretanha tem belos restos, mas o que sustenta esse país é a City, o incomparável centro financeiro mundial que é Londres.

De sua parte, os Estados Unidos, após anos de ansiedade, parecem prestes a recuperar o controle da situação, graças ao gênio criativo americano, mas também à opção pelo gás e pelo petróleo de xisto. Tanto pior para a natureza, mas os Estados Unidos veem se desdobrar diante de si anos gloriosos, pois com esse gás e esse petróleo vão se tornar os maiores produtores de hidrocarboneto do planeta.

É isso, ou assim me parece, o que dominará este começo de 2013: a desindustrialização radical da Europa (exceção feita à Alemanha, mas por quanto tempo?) é hoje um processo regular, violento e dramático.

Esse desastre industrial indica aos europeus e, sobretudo, à União Europeia e à zona do euro as direções nas quais devem, sob pena de desgraças e, quem sabe, a morte, se engajar heroicamente: reindustrializar-se, desenvolver os setores nos quais sua natureza criativa, sua cultura, sua experiência, seus saberes ainda a mantêm no páreo, os produtos de enorme valor agregado, os artigos de altíssimo luxo, os serviços, a inovação, as finanças - em suma, o "pós-moderno".

Eis um desafio à União Europeia e a todos os seus países. É um desafio pesado. É também magnífico. Ele pode fazer uma Europa esplêndida suceder à Europa triste, insossa, desanimada de 2012. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE DO 'ESTADO' EM PARIS E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE DICTIONNAIRE AMOUREUX DU BRÉSIL, QUE SERÁ TRADUZIDO PELA EDITORA MANOLE

Mais conteúdo sobre:
Europa crise

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.