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Ex-médico planejava vida de luxo sem alarde

Pablo Pereira - ENVIADO ESPECIAL / ASSUNÇÃO

23 Agosto 2014 | 16h 33

Local onde Abdelmassih viveu por 3 anos tem piscina, sala de música e 7 banheiros

Os brinquedos do casal de gêmeos de 3 anos de Roger Abdelmassih e Larissa Sacco ficaram à beira da piscina da casa, ao lado de boias infantis e da casa de bonecas do jardim.

Na pressa de deixar o casarão da Rua Guido Spano, 1.976, no bairro Villa Morra, em Assunção, depois que uma operação policial prendeu e expulsou o ex-médico do país, na terça-feira, Larissa, ou Lara, como se identificava na imobiliária Saturno, administradora do imóvel, tratou de desaparecer rapidamente, abandonando tudo na casa na qual viveu, clandestinamente, com a família, por três anos e quatro meses. 

Ricardo Galeano, nome falso que o ex-médico usou para alugar a casa por US$ 3.800 mensais, segundo relato do administrador Miguel Portillo, não teve tempo de preparar as malas de viagem. Capturado na rua, diante da escolinha das crianças, que serviram de pista determinante da investigação, a três quadras de onde morava, ele foi expulso do Paraguai em uma operação de inteligência que se aproveitou do momento no qual o procurado andava a pé, tranquilo e sem a carteira de identidade. 

Flagrado na rua, identificado por um delegado da Polícia Federal brasileira, que participava do cerco, foi expulso como ilegal. No mesmo dia, Larissa e as crianças sumiram do casarão.

O imóvel, cujo aluguel atualmente está avaliado em US$ 5 mil, segundo Portillo, tem 700 metros quadrados, piscina, escritório, quatro dormitórios, sete banheiros, salas de estar, sala de jantar e uma “sala de música”. Construída em 2005 pela empresa Saturno, a casa é descrita na imobiliária como residência em estilo americano, com piso de granito e parquet. Tem jacuzzi, solarium e garagem para dois veículos.

Para o Brasil. Até o fim da tarde de sexta-feira, somente o Mercedes-Benz preto, placa BKA 942, que era usado por Abdelmassih, continuava na garagem. “O veículo da senhora é um Kia Carnival, ano 2012, que está em nome de uma empresa chamada Gala Import e Export, mas não se sabe do paradeiro dele”, afirmava, na quinta-feira, o secretário executivo da Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai, Luis Alberto Rojas, peça-chave na prisão, após uma reunião com a PF no dia 12 de agosto.

Dois dias depois da prisão, integrantes da força-tarefa já informavam que Larissa havia saído de casa a bordo do Carnival na mesma noite em que Abdelmassih caiu. “Ela foi para Ciudad del Este e, de lá, entrou no Brasil em outro carro”, revelou um policial, acrescentando que “a senhora estava levando suas ‘criaturas’”, que é como os paraguaios costumam se referir a crianças pequenas.

Vizinhos. No bairro, o clima é de curiosidade. Depois da revelação da identidade secreta do até então gentil vizinho, que na rua e na escolinha cumprimentava serviçais em português, ninguém mais quer tocar no assunto. Na quarta-feira, sob o impacto do noticiário “por las teles” (pela TV), a conversa no quarteirão ainda era possível. Mas, quando os policiais da Interpol chegaram à casa, na manhã de sexta-feira, com um documento no qual se via a foto de Larissa, encontraram somente o guarda da rua. Uma vizinha, da frente, chamada ao portão pelo subchefe da Interpol no Paraguai, Francisco Javier Cristaldo, alegou que não tinha nenhuma relação com o casal. Na casa ao lado, a ordem é se calar. “Eles não tinham muito contato com o pessoal daqui.”

Segundo escutas obtidas pela polícia brasileira, o ex-médico, rico e vaidoso quando vivia em São Paulo, planejava manter um estilo de vida confortável, porém sem fazer alarde na cidade. “Ele queria aproveitar a tranquilidade de Assunção”, disse Rojas.

Com 70 anos, Roger Abdelmassih costumava andar a pé para frequentar os restaurantes existentes na vizinhança, como o Uva Terra e a Churrasquería Paulista Grill, onde sentava com a família em local reservado do salão para saborear deliciosas picanhas.