Faculdades vão expulsar quem fraudou vestibular

Pelo menos 10 alunos que trapacearam nos exames conseguiram vaga em alguma das 38 faculdades privadas de Medicina investigadas

DAVI LIRA, O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2012 | 02h07

Faculdades privadas de Medicina que tiveram vestibulares fraudados nos últimos 18 meses afirmaram ontem que, após notificação da Polícia Federal, analisarão os casos e poderão seguir a recomendação da PF de expulsar os candidatos que burlaram o processo. Anteontem, a PF prendeu ao menos 52 pessoas envolvidas em fraudes em 38 instituições como parte da Operação Calouro.

Cerca de mil candidatos tentaram se beneficiar da fraude no período e ao menos dez conseguiram a vaga em uma das instituições vítimas do golpe. "Assim que recebermos a comunicação oficial da PF, com a comprovação dos envolvidos, levaremos o caso ao nosso conselho universitário. E o caminho natural será a expulsão dos alunos", afirma José Roberto Castro, pró-reitor de graduação da Universidade de Marília (Unimar), localizada no interior de São Paulo.

Em nota, a Pontifícia Universidade Católica de Campinas, que também teria sido alvo dos fraudadores, informou que não recebeu comunicados sobre a ocorrência do problema "nem antes, nem durante, nem após" a realização da operação da PF.

Em comunicado, a vice-reitora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Patrícia Bernardes, afirmou que a instituição tem um "dos mais rigorosos protocolos e procedimentos de segurança, lisura e correção" no vestibular e "acompanhará" os desdobramentos da ação policial. A listagem de estudantes envolvidos no esquema não foi enviada às universidades ainda.

Enquanto a Universidade Anhembi Morumbi informa que contrata empresas organizadoras de concurso para que sejam responsáveis pelo esquema de segurança das provas, o Grupo Anhanguera Educacional e a Universidade Estácio, do Rio de Janeiro, dizem que as fraudes que são de conhecimento das instituições já foram detectadas e resolvidas anteriormente.

O vestibular da Estácio teve um caso de fraude detectado em janeiro de 2012. Além desse caso, não haveria nenhum outro registro de alunos que ingressaram no curso de Medicina da instituição de forma fraudulenta.

No caso da Anhanguera - instituição que controla a Uniderp, faculdade localizada em Mato Grosso do Sul envolvida nas investigações -, o grupo não foi comunicado oficialmente pela PF sobre a Operação Calouro.

Segundo a PF, em cada edição dos vestibulares as quadrilhas chegavam a arrecadar até R$ 400 mil. Mas o pagamento do valor combinado dependia da aprovação do aluno. No entanto, segundo o Estado apurou, algumas delas chegavam a cobrar cerca de R$ 5 mil como adiantamento. A quadrilha arrecadava, em média, R$ 15 mil por aluno, pela transmissão eletrônica dos gabaritos.

Explicação. A compra de vagas pode ser motivada pelo nível de dificuldade da seleção e pela oferta limitada de cursos de Medicina no País. "Hoje, a seleção para as 197 escolas de Medicina do Brasil é bastante concorrida e tem um nível de exigência alto, independentemente de a faculdade ser pública ou privada", diz Marcela Vieira, coordenadora-geral da Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina.

Segundo levantamento feito pela reportagem nas principais faculdades privadas envolvidas, a razão entre a concorrência e o número de vagas pode chegar a 84 - é o caso da PUC-MG.

"Sempre preenchemos as cem vagas que ofertamos", diz José Roberto Castro, pró-reitor de graduação da Unimar. A mensalidade da instituição custa mais de R$ 6 mil e não há evasão de alunos no decorrer do curso.

Consultado, o Ministério da Educação (MEC) informou que somente após ter acesso aos autos do inquérito policial instaurado pela PF vai propor as "devidas ações de supervisão em todas as instituições apontadas".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.