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Falta de padrão coloca em xeque pão integral

Fabiane Leite - O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2010 | 00h 00

Ministério Público abre inquérito para averiguar porcentual de grãos nos produtos

Os pães integrais roubaram a maior parte do espaço do tradicional pão branco nas prateleiras dos supermercados, recheadas de embalagens com carimbos como "100% integral" ou "com farinha integral". No entanto, no Brasil não há legislação que garanta que pães, bolos, biscoitos e outros desses produtos contenham porcentuais expressivos de grãos integrais que realmente possam fazer diferença para a saúde.

Diante da ausência de parâmetros para o setor, o Ministério Público abriu inquérito para investigar os porcentuais de ingredientes integrais nos pães industrializados. Quer um acordo com as empresas para que divulguem, no mínimo, a quantidade de grãos integrais adicionada ao produto.

"Até 2005, o governo permitia que pães levassem a marca de integrais, mesmo que tivessem só uma pequena quantidade de farelo. A resolução foi revogada e hoje não há norma, mas as empresas mantiveram os produtos com as mesmas mensagens", afirma o promotor Pedro Rubim Borges Fortes, da Promotoria de Defesa do Consumidor do Ministério Público do Rio de Janeiro. Nos EUA, por exemplo, o produto precisa ter pelo menos 51% de grãos integrais para poder se autodenominar integral.

Além disso, consumidores ficam confusos com selos como "multigrãos" ou "sete grãos" - um pão pode ser feito com um mix de grãos composto de cereais processados. Outra informação que confunde é a de que o produto é "rico em fibras" - mas fibras podem ser adicionadas artificialmente a uma massa de farinha branca.

A promotoria iniciou a investigação após receber denúncias de consumidores. Caso não haja acordo, empresas serão processadas por propaganda enganosa - infração prevista no Código de Defesa do Consumidor - e estarão sujeitas a multa, caso a Justiça acolha a ação da promotoria.

No País, dados da consultoria Nielsen apontam que, em 2009, a categoria pães integrais abocanhava 5,3% do mercado e havia crescido 10,2% em número de unidades vendidas - acima dos 8,4% registrados por toda a categoria de pães e bolos. Tendência que segue a do mercado norte-americano, onde o pão de trigo integral cresce mais que uma popular marca de pão branco.

As avaliações das fórmulas dos integrais são raras. Mas pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina e da Faculdade de Ciências da Alimentação da Universidade de Manitoba (Canadá) apontaram, em estudo publicado em 2006, que pães de centeio integrais vendidos no Brasil continham em média apenas 15,5% de ingredientes integrais.

"O teor relativamente baixo de componentes integrais mostra a necessidade de regulamentação quanto ao teor mínimo desses ingredientes em alimentos rotulados como integrais", afirma o estudo. O trabalho conclui que no Brasil, em razão de lacunas legais, "os benefícios oriundos do consumo desses alimentos integrais são questionáveis". "Essa situação é muito triste. Outros países adotaram uma regulamentação", afirma a cientista de alimentos Alicia de Francisco, professora da UFSC e uma das autoras do trabalho.

Recomendação. A Organização Mundial da Saúde recomendou o aumento do consumo de cereais integrais como parte da estratégia de redução de mortes por problemas cardiovasculares, câncer e diabetes. O Guia Alimentar da População Brasileira, do Ministério da Saúde, recomenda o consumo diário de cereais integrais, além de frutas, legumes e verduras. Eles devem fornecer mais da metade do total de energia diária da alimentação. Segundo o ministério, a preferência pelo integral é justificada "pelo fato de vitaminas, minerais, ácidos graxos essenciais e fibras serem preservados". Nos produtos refinados, a maior parte das substâncias é perdida.

"Escolho pelo paladar. O pão integral é mais leve e saudável que o branco", diz a pedagoga Carolina Gomes, de 27 anos. "Não sabia que não há parâmetros. Seria bom se a informação fosse clara." "São muito melhores que o branco, têm fibras, não engordam", acredita a professora Regina (não quis dar o sobrenome), de 66 anos. O ideal é checar os ingredientes no verso e verificar se há integrais. E desconfiar de pães integrais fofinhos, pois os integrais reais em geral são duros, finos - e caros.

A escolha é difícil, mostram exemplos colhidos aleatoriamente pela reportagem. A Panco diz, na lista de ingredientes do seu Pão Light de Soja - que leva o selo "com farinha integral" -, que o produto tem 13% dessa farinha. A Wickbold não traz os porcentuais no pão Quadradinho, também autodenominado integral; mesmo caso do pão Pullman integral, da Bimbo. Por outro lado, o pão integral da Wickbold importado da Alemanha, mais caro, informa ter mais de 60% de centeio integral. A Nestlé estampa a expressão "feito com cereal integral" no biscoito Leite e Mel, mas sem os porcentuais. Também não informam o porcentual os biscoitos Trakinas, da Kraft, que se autointitulam "o primeiro biscoito recheado com farinha integral" e cuja propaganda chamava atenção para o suposto benefício.

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