Fast, até que é. Good, nem tanto assim

A lanchonete de Ferran Adrià (em Madri e Barcelona, por enquanto) deveria ser a perfeição. União da criatividade do maior chef atual com a eficiente velocidade do estilo americano de comer. O ambiente é gostosinho, não tem o clima infantilizado e colorido que parece celebrar a ingestão desenfreada de calorias dos congêneres americanos. Tudo é europeu, contido, as cores ligeiramente psicodélicas revisitam o cenário de Barbarella, mas numa versão chique e blasé. Luminárias de acrílico laranja esmaecido e paredes em tons sérios de verde-abacate. Adrià entendeu que à salada césar não basta parecer saudável, tem que ser saudável. Suas verduras brilham de frescor, os sucos feitos na hora são um atrativo para a geração ávida por coisas limpas, orgânicas e que façam bem. As batatas fritas foram celebradas como um triunfo pela crítica, seu tipo perfeito para o cozimento prévio seguido da fritura exata em azeite de oliva, o equilíbrio rigoroso de glúten para que não fiquem encharcadas nem borrachudas. E o invento que seria definitivo, uma embalagem toda estudada para que se mantivessem quentes e estalantes. Murcho resultado: as batatas são insossas, molengas, decepcionantes. Numa sociedade como a espanhola, que come muito bem e elegeu isto como hobby e emblema cultural, o Fast Good parece uma idéia fora do lugar, uma esquisitice. Talvez ainda não tenha de fato chegado onde gostaria, na América profunda, onde faria o choque de qualidade que se propôs. Não é possível vislumbrar se terá tamanho fôlego civilizatório. Mas com tais batatas será bem complicado.

O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2008 | 03h01

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