Fermentado sim, mas não de uva

Luiz Horta: "Voltei para o grau zero da arte de beber"

Luiz Horta,

04 Novembro 2010 | 09h42

Provando os saquês para esta coluna, entendi bem o que o novato no mundo dos vinhos deve sentir diante de um catálogo gordo de importadora, ou mesmo de um texto como os que escrevo: perplexidade, desorientação e até um pouco de vontade de desistir. Tive vergonha por tantos taninos e fermentação malolática que já exibi aos leitores. Voltei para o grau zero da arte de beber.

Incapaz de me orientar pela terminologia e pelos estilos tão complicados, que envolvem diferentes espécies e graus de polimento do arroz, variados climas (mas não terroir como entendemos no Ocidente, pois as características das safras são evitadas, num jeito mais parecido com champanhe) e índices de açúcar residual, tive de confiar nos sentidos, nada mais.

Uma verdadeira degustação às cegas sem precisar tapar as garrafas. A última vez que senti tal frio na espinha, pela incapacidade de ser racional através da leitura, foi quando comprei um jornal holandês para escolher um filme em Amsterdã. Naquela noite não fui ao cinema...

Alguns paralelos-boias com o vinho foram possíveis e garantiram algum rumo na prova. Há o saquê mais neutro e seco, o mais doce, o agridoce e com leve traço de borbulhas e os envelhecidos. Um deles, o da garrafa grande ao lado, tinha intrigante e não muito agradável aroma de pasto, mas na boca era um imponente senhor, bem consciente de seu charme e elegância, com altivez, complexidade, peso e permanência. Algo entre o Yukio Mishima e o Toshiro Mifune dos saquês.

 

 

 

 

 

 

Kita No Homare Daiguinjo

O mais fino de todos, da ilha de Hokkaido, é feito artesanalmente com lenta fermentação. É seco e encorpado, com muita complexidade (R$ 234. Todos os saquês são da Adega de Sakê, tel. 3209-3332)

 

 

 

 

Houraisen Tokubetsu Honjouzou

Bem seco e muito neutro, aparece com a comida, grande coadjuvante para o sal (R$ 70)

 

 

 

 

Taiheizan "Guen" Daiguinjo

Com capacidade de envelhecimento na garrafa, é seco e com corpo médio, tem leve acidez bem gastronômica (R$ 220)

 

 

 Ichinokura "Himezen"

Delicioso equílibrio de doçura e acidez,o mais versátil na combinação com comida, parece um Riesling de arroz (R$ 89)

 

 

 

 

Momokawa Nigori Genshu

Não filtrado, leitoso, é bem adocicado, sem ser enjoativo ou pesado, tem grande presença na boca, cremosidade (R$ 120)

 

 

   
   
   
   

 

 

 

 

 

 

 

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