Ferran Adrià vai se desconstruir

No Madrid Fusión a cozinha quase ficou em segundo plano. O que balançou as caçarolas foi a decisão de Ferran Adrià de tirar dois anos sábaticos: o triestrelado El Bulli vai ficar fechado em 2012 e 2013

Patrícia Ferraz - MADRI,

28 Janeiro 2010 | 10h46

Até 2014? - O chef Ferran Adrià fechará o revolucionário El Bulli, considerado o melhor restaurante do mundo, para repensar a própria arte. Foto: Fernando Alvarado/EFE   A última terça-feira tinha tudo para ter sido apenas mais um dia de abertura de evento, como qualquer outro dos anos anteriores do Madrid Fusión, o congresso de gastronomia que todos os anos leva alguns dos melhores chefs do mundo à capital espanhola.   Mas não foi. Ferran Adrià, com sentido dramático, escolheu aquele cenário para dizer que parou. Não totalmente, nem imediatamente. E nem para sempre. Vai dedicar dois anos a desconstruir e reconstruir mais que seus pratos: desta vez o ingrediente do chef famoso é ele mesmo. Virou-se para dentro, vai se esferificar simbolicamente em 2012 e 2013. Promete reabrir o restaurante em 2014, mas não deu certeza. Certeza, Adrià tem apenas uma: quer que o El Bulli continue sendo criativo.   O restaurante, sempre mencionado pelas filas de espera de no mínimo um ano, continuará funcionando no formato atual por mais duas temporadas, para dar conta de atender todas as reservas feitas, para 2010 e 2011. E depois disso, pausa. Será o fim da espera e também das três estrelas Michelin, que pelas regras do guia, devolverá. Não será também, por um tempo, o restaurante número um do mundo no ranking da inglesa Restaurant Magazine.   Em conversa com o Paladar, o chef catalão disse estar "feliz e tranquilo". Fez questão de frisar que a decisão não tinha sido intempestiva nem reflexo de "uma crise de criatividade". Excesso de pressão? Jamais. "Eu preciso da pressão para criar", respondeu.   Confira mais informações no Blog do Paladar   Na palestra que fez no evento, antes do anúncio, ele ainda não era formalmente um ex-três estrelas. Mas Ferran Adrià já parecia um chef diferente daquele que por anos fez questão de não responder às críticas.   Foi o primeiro sinal de que, dessa vez, não estava ali só para apresentar alguns pratos surpreendentes ou falar de sua técnica. Queria fazer um balanço, não declarado como tal.   Começou afirmando que não existe crise na alta gastronomia, pelo menos não na espanhola. "Os restaurantes gastronômicos estão lotados, nunca houve tanto interesse pela cozinha, tantos restaurantes premiados e reconhecidos e nunca foi tão difícil para um chef ser criativo", disse, incisivo. Soou como uma resposta ao debate entre jornalistas que havia terminado poucos minutos antes.   Sua palestra tinha como tema a temporada do El Bulli em 2009. Só que naquele momento, Adrià falou pouco sobre criatividade e muito sobre a qualidade dos produtos. Parece que será esse o foco do tempo de reflexão a que vai se entregar. "As técnicas são mais simples do que parecem", insistiu.   *A jornalista viajou a convite do evento Madrid Fusión        

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