Fifa bate o pé e garante venda de cerveja nos estádios da Copa de 2014
Tema tem provocado discórdia no Congresso e ameaça adiar ainda mais a aprovação da Lei Geral
RIO - A Copa do Mundo de 2014 vai ter venda de cerveja liberada nos estádios, garantiu nesta quarta-feira o secretário-geral da Fifa, Jêróme Valcke, firmando posição num tema que tem provocado discórdia no Congresso e que ameaça adiar ainda mais a aprovação da Lei Geral da Copa no Brasil.

A lei, um conjunto de regras e garantias exigidas pela Fifa para a realização do Mundial, estava prevista para ser votada no ano passado na Câmara dos Deputados, mas divergências em temas como a venda de cerveja, o preços dos ingressos e as responsabilidades do governo brasileiro travaram as negociações.
Valcke, que está no Brasil para acompanhar os preparativos do país e, principalmente, tentar fechar um acordo com o governo e os parlamentares para aprovar a lei, disse que a Fifa aceitou vários pedidos do governo brasileiro, como na questão dos ingressos populares, mas que não admite negociar sobre a venda de cerveja.
"A bebida alcoólica é parte da Copa do Mundo da Fifa, então vai ter. Me desculpe, eu posso parecer um pouco arrogante, mas isso é algo que a gente não negocia. Tem que ser parte da lei o fato de que nós temos o direito de vender cerveja", disse Valcke em entrevista à imprensa estrangeira no Rio de Janeiro, onde participará na quinta-feira de uma reunião com o comitê organizador local do Mundial.
Desde 2003, a venda de bebidas alcoólicas é proibida em estádios do Brasil como parte do Estatuto do Torcedor. A medida foi tomada para evitar a violência nas arquibancadas nos jogos de futebol.
O ministro da Saúde do governo Dilma Rousseff, Alexandre Padilha, e deputados ligados à área da saúde fizeram pressão no Congresso para que a proibição fosse mantida na lei específica do Mundial.
Para a Fifa, a venda da cerveja nos estádios é uma questão comercial. A federação internacional tem acordo de patrocínio há mais de 25 anos (desde a Copa do Mundo de 1986, no México) com a marca norte-americana Budweiser, que atualmente faz parte do maior grupo de cerveja do mundo, o Anheuser-Busch InBev.
"A nossa parceira, inclusive, é uma empresa brasileira", disse Valcke, lembrando que a cervejaria brasileira AmBev integra a AB InBev.
Valcke já havia levantado o tom das cobranças às autoridades brasileiras sobre as negociações da Lei da Copa na segunda-feira, quando afirmou, em Brasília, que o Brasil estava pedindo demais à Fifa "só porque vocês ganharam cinco Copas do Mundo".
O projeto da lei ainda não foi aprovado numa comissão especial da Câmara dos Deputados que o avalia de forma preliminar. Depois, precisará passar no plenário da Câmara e receber o aval dos senadores. Com o recesso dos parlamentares, a matéria só deverá voltar a ser discutida em fevereiro.
Sobre os preços dos ingressos, outro tema que causa discórdia devido ao direito à meia entrada que estudantes e idosos têm nos eventos esportivos pela legislação brasileira, Valcke disse que o tema será resolvido com a criação de uma categoria especial de ingressos populares de 25 dólares.
Serão 300 mil ingressos nos jogos da primeira fase da Copa para diferentes grupos sociais, incluindo indígenas, pessoas que entregarem armas de fogo e pessoas de baixa renda, além dos próprios idosos e estudantes.
Valcke cobrou, no entanto, que haja mecanismos de fiscalizar esse benefício.
"É injusto se uma pessoa que pode comprar um ingresso de categoria um compra o ingresso de categoria quatro. Temos que garantir que isso não vai acontecer, porque aparentemente é muito fácil se conseguir uma carteira de estudante aqui", disse.
Na terça-feira, Valcke visitou pela primeira vez as obras nos estádios de Fortaleza (CE) e Salvador (BA) para o Mundial e fez elogios ao que viu nos dois locais. Segundo ele, nenhum dos 12 estádios está fora do prazo para a Copa do Mundo, mas o trabalho precisa ser agilizado na área de infraestrutura, principalmente nos aeroportos.
"As pessoas acham que realizar um jogo de Copa do Mundo é apenas uma partida normal. Elas estão enganadas. São mais de 20 mil pessoas que mudam de uma cidade para a outra às vezes em 24 horas, e o país precisa garantir que estará pronto para isso."
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