Geórgia inaugura era da ciberguerra

Antes de bombardear o país vizinho, a Rússia já trocava farpas pela internet, com ataques hackers e invasão de sites do governo

John Markoff,

18 Agosto 2008 | 00h00

Semanas antes de as bombas russas começarem a cair na Geórgia na recente ofensiva russa contra a independência da Ossétia do Sul, outra guerra já mobilizava os dois países e os Estados Unidos, uma ciberguerra. Há mais acusações do que provas, mas o fato é que as nações duelam desde o dia 20 de julho pela internet – golpeiam servidores, infra-estrutura de rede e até sites governamentais. É a primeira vez na história que ataques hackers coincidem com uma guerra real. Um pesquisador de segurança do Arbor Networks, em Massachusetts, José Nazario, presenciou uma avalanche de dados direcionados aos computadores do governo da Geórgia com a mensagem: "win+love +in+Russia". Outros especialistas em internet nos Estados Unidos disseram que o ataque contra a infra-estrutura georgiana começou com o bloqueio de milhões de pedidos de conexão (conhecidos como DDOS, em inglês) que sobrecarregaram e de fato derrubaram os servidores. Pesquisadores em Shadowserver, um grupo voluntário que escaneia atividades maliciosas na rede, também disseram que o site do presidente da Geórgia, Mikheil Saakashvili, ficou sem operação por 24 horas após múltiplos ataques DDOS. Para eles, o servidor central que comandou os golpes estavam baseados nos Estados Unidos e começaram muitas semanas antes do início da guerra. Além do óbvio roubo de informações estratégicas, ataques à infra-estrutura de internet podem causar danos econômicos e sociais irreparáveis. Para se ter idéia, a falha técnica no serviço de banda larga Speedy, da Telefônica, em São Paulo, no início de julho, causou prejuízo de milhões de reais em apenas 36 horas. Imagine um país em guerra. De acordo com especialistas em internet, a troca de farpas virtuais entre Rússia e Geórgia não será a última. Bill Woodcock, diretor de pesquisas da Packet Clearing House, afirma que ciberataques são muito baratos, fáceis de planejar e deixa poucos rastros. Por isso, é uma tática que certamente estará entre as usadas nas guerras "modernas". "Custa cerca de US$ 0,04 por computador", afirma Woodcock. "Você poderia financiar uma campanha cibernética completa pelo preço de apenas um tanque de guerra. Se não fizerem isso, os países serão muito tolos." Exatamente quem está por trás do ciberataque é a questão ainda não respondida. O governo da Geórgia acusa a Rússia, mas o governo russo nega o envolvimento. No final, a Geórgia, com uma população de apenas 4,6 milhões de habitantes e com relativa presença na web, foi pouco afetada pela inacessibilidade aos sites do governo. Mesmo assim, para transmitir mensagens à população e manter controle sobre suas atividades, o comando georgiano se cadastrou no serviço de blogs do Google, o Blogger (veja ao lado). Como os servidores estão nos Estados Unidos, em tese há menos riscos de as informações serem confiscadas ou o acesso interrompido. A primeira ciberguerra com desdobramentos geopolíticos ocorreu em abril de 2007, quando a Estônia sofreu avalanches de botnets (softwares-robôs de origem maliciosa) que derrubaram a internet no país. Suspeita-se que a origem do ataque também tenha sido russa – a Rússia nega. Nesse caso, as conseqüências foram mais drásticas, já que até sites de bancos foram contaminados. Veja aqui alguns blogs da Geórgia

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