Gilberto Freyre e a geraçao YouTube

É de Andrew Keen um dos livros mais badalados dos últimos anos a respeito da cultura nascida da internet. Chama-se O Culto do Amador. Badalado e também polêmico. Keen argumenta que estamos seguindo um caminho perigoso que é o da supervalorização daquilo que amadores produzem e, ao mesmo passo, a estigmatização daquilo que é profissional. Aquilo que jornalistas produzem é "velho". Vídeo profissional não tem graça – todos querem, no YouTube, aquilo que gente como a gente fez. A Enciclopédia Britânica tem tantos erros quanto a Wikipedia, afinal, alguns sugerem. Keen teme que estejamos entrando num processo de auto-destruição. Na Web 1.0, todos se moveram em direção à utopia da internet revolucionária que toda pessoa no mundo usaria. Empresas foram supervalorizadas, tudo o que fosse ponto-com arrebentava na Bolsa de Valores e da exuberância entusiástica veio o estouro da Bolha. Perdeu-se um bocado de dinheiro naquela virada de século. O ocaso da Web 2.0, segundo Keen, será muito pior. Ao incentivar que todo mundo crie, ao sugerir que não existe real diferença entre o profissional e o amador, a nova exuberância entusiástica periga trucidar as gravadoras, aleijar Hollywood e exterminar grandes editoras e jornais ao mesmo tempo. No fim do processo, não será apenas dinheiro que foi perdido. Teremos destruído as instituições que produzem nossa cultura. Em seu lugar, poremos a produção amadorística que não tem nem de perto o mesmo valor. Será que Hollywood acaba e só nos sobrará o YouTube? É isso que Andrew Keen está dizendo. E um bocado de gente séria concorda. Mas é bem possível que ele esteja errado. A começar pela maneira como separa amadores de profissionais. O amador faz o que faz por diletantismo. O profissional, porque é pago para isso. Essa definição é falha por princípio. Segundo esta definição, vários dos maiores escritores e poetas brasileiros não passariam de diletantes entusiastas e, no entanto, incompetentes. Vinícius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Graciliano Ramos e o grande João Guimarães Rosa eram, por profissão, diplomatas. Carlos Drummond de Andrade, funcionário público. Nenhum deles fez fortuna escrevendo romances ou poemas. (Vinícius poderia ter feito, mas as muitas mulheres e muitos filhos eram um dreno; viveu feliz e na classe média.) Nenhum era incompetente, bem pelo contrário. Arte nada tem a ver com profissão. Tampouco as ciências. Na Renascença, quando de certa forma nossa cultura científica e cartesiana movida a curiosidade foi criada, ser cientista ou artista ou filósofo eram coisas que se confundiam – o exemplo mais óbvio é Leonardo da Vinci, particularmente competente na engenharia e na pintura. Se o jornal, Hollywood ou as gravadoras vão acabar ou não, ainda não dá para dizer. Mas é claro que há uma diferença entre profissionais e amadores. Gilberto Freyre escreveu Casa Grande e Senzala ouvindo a gente do povo falar de sua vida, contar de suas famílias e costumes. Entendeu e nos explicou o Brasil assim. Muito no YouTube e nos blogs é isso: a gente de todo o mundo se manifestando. Um ouvido mais antenado, um leitor mais inteligente, aprende muito ouvindo os amadores. Estamos todos engajados neste exercício de registro continuado de tudo que está acontecendo. Na Bagdá pré-invasão americana, o blogueiro Salam Pax contou ao mundo como era o dia-a-dia de um jovem árabe num país às vésperas de ser bombardeado. Escrevia bem, o sujeito. Não era jornalista. Não havia em seus posts informação privilegiada ou detalhes sobre o que o governo de Saddam Hussein pretendia fazer. Mas havia muito sobre o cotidiano bagdali. Era, também, informação preciosa. É claro que amadores e profissionais são diferentes. Mas um não derruba o outro. Ambos se complementam.

Pedro Doria,

18 Agosto 2008 | 00h00

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