Gincana da Poli incentiva machismo e revolta estudantes

Tradicional festa da Escola Politécnica da USP para integração dos calouros estimularia até a prática de abuso sexual

O Estado de S.Paulo

05 Março 2013 | 02h05

Jogar elásticos em uma caloura de biquíni ou gravar "bixetes" lavando carro de camiseta branca são algumas das tarefas de uma gincana realizada na Escola Politécnica da USP para integrar os novos alunos. Um vídeo de "inspiração" ainda sugere que alunos se masturbem em um desconhecido. A lista faz parte do evento IntegraPoli e tem causado revolta entre estudantes e feministas por conta dos itens machistas e desrespeitosos.

Em repúdio, um grupo de alunos da USP criou no Facebook uma página em que pede boicote às festas da Poli. Ontem, a página já tinha o apoio de quase 900 pessoas. "É uma forma de pressionar uma mudança de postura", disse o estudante de pós-graduação em Biologia Rafael Cruz, de 26 anos, um dos criadores.

O IntegraPoli existe há mais de 30 anos e é organizado Grêmio Politécnico. A realização das atividades vale pontos.

Estudantes contam que a gincana "piora a cada ano". "Fica cada vez mais depravado, com exposição maior de mulheres", diz uma estudante. Quem não participa sofreria pressões. "Muitas se sentem coagidas e, se alguma critica, é humilhada", diz uma estudante da pós-graduação.

O blog Uma feminista cansada divulgou o material, afirmando que o evento "incentiva os alunos a cometerem assédio sexual". "Percebo uma maior quantidade de denúncias e protestos contra os trotes considerados humilhantes", disse a responsável pelo blog, que pediu anonimato.

Pelo Twitter, o diretor da Poli, José Roberto Cardoso, disse que "atividades que denigram a imagem feminina não serão admitidas".

Anteontem à noite, alguns itens foram suprimidos, depois que o documento já tinha tido 8 mil visualizações. O Grêmio informou que eles foram reescritos para "uma melhor compreensão", mas ressaltou que pessoas "alheias à comunidade politécnica" deturparam a finalidade do evento. Mesmo insistindo no caráter "jocoso"da iniciativa, com apoio pela maioria, o Grêmio pediu desculpas aos que tenham se sentido ofendidos.

Na semana passada, a USP abriu investigação no câmpus de São Carlos, onde estudantes hostilizaram feministas que protestavam contra o desfile "Miss Bixete". A Secretaria de Políticas para as Mulheres divulgou ontem nota de repúdio ao episódio. / PAULO SALDAÑA E CAIO DO VALLE

Abaixo, uma nota de esclarecimento enviada ao 'Estado' por Rafael Ganzerli Auad, atual presidente do Grêmio.

O Grêmio Politécnico organiza o Integrapoli há 31 anos, um tradicional evento da Escola Politécnica, organizado por seus alunos, que conta com a participação de seus sete centros acadêmicos. O Integrapoli é uma brincadeira que procura envolver todos na Escola Politécnica desde alunos (bixos e veteranos), funcionários e professores. O evento é, e sempre foi, um mecanismo de divertimento, integração e recepção dos acadêmicos da Escola Politécnica, tendo sido sempre prestigiado, aclamado, e apoiado por sua ampla maioria.

 

Além da parte lúdica da competição, o Integrapoli possui também um viés de compensação sócio-comunitária. Este ano especificamente, além da tradicional doação de alimentos e roupas, um dos pré-requisitos para participar na competição é a doação de livros da lista FUVEST 2014 que serão destinados para o nosso cursinho popular gratuito. O Cursinho da Poli-USP (não é o cursinho situado na Lapa) - aprovou 40 alunos dos 130 matriculados em universidades públicas. Segue explanação do evento em pauta:

 

O Grêmio Politécnico preza pela integração dos seus alunos, estimulando seu lado criativo. Os itens da lista referem-se a interpretações que devem ser feitas pelos Centros Acadêmicos de modo a receberem uma quantidade de pontos. Os vídeos que servem de guia não passam de uma ilustração jocosa de comportamentos existentes na sociedade brasileira, não sendo permitido de maneira nenhuma que os Centros Acadêmicos realizem atividades ilícitas e/ou não consensuais. Cito parte do "regulamento", um tratado informal entre o Grêmio Politécnico e os Centros Acadêmicos:

 

"Vale ressaltar que o Grêmio Politécnico acredita ser de fundamental importância consignar que a natureza das atividades empreendidas pelos competidores do “IntegraPoli”, por serem evidentemente ligadas ao desenvolvimento jocoso e descontraído da integração entre os alunos da Escola Politécnica, não devem depreender em nenhum tipo de ato ilícito – ilegalidade penal e civil – por parte dos competidores. Naturalmente, o Grêmio não se responsabiliza pela existência de danos e de contratempos, de qualquer espécie, em nenhum tipo de relação com os alunos e terceiros eventualmente prejudicados, inclusive no que tange à eventual deturpação de algum item da lista cuja interpretação seja eminentemente conotativa."

 

Nesse sentido, é importante mencionar que a referida gincana tem caráter meramente jocoso, e destina-se à comunidade interna à Escola Politécnica, como mecanismo de critica e integração. Naturalmente, a organização não quer, por meio do citado evento, emitir opinião política e/ou institucional sobre qualquer que seja o tema elementarmente subscrito em alguma das brincadeiras, sendo mera ferramenta de diversão interna dos alunos da Escola Politécnica.

 

Quanto aos itens que fazem parte da denominada lista da gincana que motivarão a criação do evento foram reescritos para uma melhor compreensão. No entanto, cabe citar que pessoas alheias à comunidade politécnica, sem conhecimento de se tratar de mera recreação acadêmica, acabaram por deturpar o seu sentido, gerando uma interpretação política e sociológica absolutamente inadequada no presente caso. Cabe citar também que o corpo jurídico do Grêmio Politécnico foi consultado previamente a publicação da lista para averiguar sua legalidade.

 

De qualquer maneira, caso alguém tenha se sentido ofendido ou de alguma maneira incomodado com as brincadeiras ali mencionadas, é fundamental que saiba que tal questão não era desejada ou querida. A esses, seguem nossas sinceras desculpas.

 

Mais um adendo: um comum engano que assombra as pessoas externas à Poli, na verdade o Integrapoli não se trata de um ''trote acadêmico''. A recepção do bixos ocorreu antes do início das aulas, como o próprio Estadão já cobriu em diversos anos inclusive elogiando nossa organização e respeito com os novos ingressantes, que se sentem acolhidos. A participação dos alunos é completamente voluntária.

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