Histórias comestíveis

Na saborosa revista Alimentum, o conto, o suspense e até a poesia giram deliciosamente em torno da mesa

Cíntia Bertolino,

12 Fevereiro 2009 | 00h00

Sazonal como uma iguaria, a revista Alimentum - The Literature of Food sai apenas duas vezes por ano: no verão e no inverno. É hora então de saborear uma bela seleção de contos, poemas, uma entrevista e textos não-ficcionais. Pode soar um pouco estranho uma revista inteiramente dedicada à comida, em que até os poemas giram em torno de corações recheados, odes à lichia, caquis no cesto e o enigmático caso de um homem com pavor de ovos... Mas não há o menor perigo de essa bem nutrida literatura causar fastio. Muito pelo contrário. A Alimentum é editada por Paulette Licitra e cada número apresenta novos colaboradores. Sobre o tema permanente e invariável, a editora se sai com uma excelente explicação: “É difícil lembrar de passagens de nossas vidas que não tenham comida no meio. Tente. Nossas histórias pessoais gostam de comer”, assegura ela. O objetivo da revista é servir histórias comestíveis, saborosas, como a naïf The Flying Omelet (O Omelete Voador), escrita e ilustrada por Marguerite Dorian, ou a deliciosamente sarcástica The Neurotic’s Recipe for Perfect Teriyaki Chicken, de David Frauenfelder. Na edição do verão de 2008 há ainda uma delicada homenagem à grande escritora M. F. K. Fisher. O divertido poema M. F. K. Fisher: “I Was Really Very Hungry” (M. F. K. Fisher: “Eu Estava Mesmo com muita Fome”), de Susan Kelly-DeWitt diz: “...Que linguiça/que peito/que carne/pode preencher os silêncios/que a fome abre/em ossos/em nervos/ em veias vorazes?” A edição de inverno de 2009 traz algumas preciosidades e uma grata surpresa para os fãs de romances policiais dos anos 50. Em Night and Day, How the Private Eye Eats - and Drinks (Noite e Dia, Como o Detetive Particular Come - e Bebe), Caroline Cummins fala dos hábitos alimentares de Philip Marlowe, o famoso detetive criado pelo escritor americano Raymond Chandler. O texto é entrecortado por trechos dos clássicos inesquecíveis Adeus, Minha Adorada, O Longo Adeus, O Sono Eterno... E confirma a predileção do durão Marlowe por café preto - três, quatro xícaras ao acordar, “um desjejum para atacar tanto a ressaca física quanto a existencial”, seguidas de ovos, bacon e torradas. Em Stink (Fedorento), Eric LeMay faz uma vibrante apologia dos queijos malcheirosos e ensina a julgar a qualidade de um poema como se julga um queijo. Aliás, o laticínio já suplantou musas perfumadas e inspirou poetas como o francês Léon-Paul Fargue, para quem o queijo fedorento é “o pé de Deus”. A revista Alimentum é patrocinada por The French Culinary Institute. Informações: www.alimentumjournal.com

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