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Invasão do Iraque sem autorização da ONU foi um erro

Hans Blix* - O Estadao de S.Paulo

20 Dezembro 2009 | 00h 00

Governo Bush ignorou normas internacionais

Antes do início da guerra no Iraque, em março de 2003, EUA e Grã-Bretanha convenceram o mundo de que seu objetivo era eliminar as armas de destruição em massa. Mas Tony Blair fez recentemente comentários que sugerem que o objetivo principal da operação era o de depor Saddam Hussein.

Então, não deveríamos concluir que a questão foi alegada por ser o melhor modo de convencer o mundo da necessidade da guerra? Os comentários de Blair não excluem a convicção da existência de armas de destruição em massa, mas, considerando que centenas de inspeções não haviam encontrado armas e a evidência principal havia caído por terra, essa convicção teria como base a falta de uma posição crítica.

Como é possível que o mundo se deixasse enganar durante mais de dez anos? No fim da Guerra do Golfo, em 1991, o Conselho de Segurança da ONU ordenou ao Iraque que declarasse suas armas de destruição em massa e as destruísse sob supervisão internacional.

Mas o Iraque preferiu destruir grande parte de seu arsenal sem nenhuma inspeção, dando origem à suspeita de que as armas haviam sido escondidas. Essa suspeita foi alimentada pelas recusas iraquianas em permitir que os inspetores da ONU entrassem nos locais suspeitos e por suas respostas evasivas aos inspetores.

É possível que Saddam quisesse criar a falsa impressão de que ainda tinha armas de destruição. Mas é mais provável que ele tenha sido levado por um orgulho ferido, pelo desejo de desafiar e pelo conhecimento de que alguns dos inspetores trabalhavam para serviços de inteligência do Ocidente.

Apenas em setembro de 2002, quando os EUA já haviam enviado tropas ao Kuwait, o Iraque aceitou as inspeções da ONU. Naquela altura, uma nova doutrina declarava que os EUA poderiam iniciar uma ação armada preventiva sem a autorização da ONU.

Muitos funcionários do governo de George W. Bush consideravam a ONU um impedimento. Diversos assessores de Bush pensavam que as inspeções eram uma farsa. Britânicos e americanos previam que elas não seriam autorizadas e o Conselho de Segurança permitiria a ação militar para acabar com o regime iraquiano.

As inspeções, porém, não apresentaram nenhum indício de armas e esvaziaram as provas que haviam sido invocadas. O Iraque resolveu cooperar e não mostrou uma atitude desafiadora que autorizasse o uso da força. Portanto, enquanto o trem da guerra seguia avançando, a posição da ONU apontava, cada vez menos, para a autorização da invasão.

O que Londres poderia ter feito para evitar o desenlace? Poderia ter estabelecido como condição para sua participação que a guerra fosse autorizada pela ONU. Com o início das inspeções, em outubro de 2002, a proposta de intervenção deveria avançar lentamente. Karl Rove declarou que o outono de 2003 seria o último momento mais propício para a invasão. Por que então tudo ocorreu tão rápido em 2002? Se a mudança do regime, e não as armas, fosse o objetivo principal, a rapidez se justificaria.

A responsabilidade pela guerra deve ser julgada com base no conhecimento que os aliados tinham na época. A falta de provas não deteve a guerra. O Conselho de Segurança até exigiu novas inspeções por não estar convencida da existência de armas, mas era tarde demais.

Ao contrário dos EUA, a Grã-Bretanha não estava disposta a defender uma guerra preventiva contra o Iraque sem a autorização da ONU. Nessas circunstâncias, apresentou-se a justificativa de que a guerra havia sido autorizada pelo conselho em resoluções anteriores.

Foi irrelevante o fato de que China, França, Alemanha e Rússia se opuseram à ação. Se hipocrisia for considerar o vício uma virtude, então os argumentos distorcidos usados por aqueles que violaram as normas internacionais significariam o respeito pela Carta da ONU.

*Hans Blix foi o chefe da equipe de inspeção no Iraque

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