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Irmão Sam

Ele não tinha a menor simpatia por Jango, pressionava o brasileiro por vantagens econômicas e preparou sua queda, afirma cientista político

Wilson Tosta, O Estado de S. Paulo

16 Novembro 2013 | 16h25

RIO - Meio século depois do fim violento do governo de JFK, o historiador e cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira vê sinais de conservadorismo e mudança na administração que dizia defender a democracia ao mesmo tempo que patrocinava a tentativa de invasão de Cuba por contrarrevolucionários que secretamente treinou. Apesar de mudar a estratégia de enfrentamento da União Soviética - de retaliação massiva para dissuasão e contenção -, JFK, lembra Moniz, manteve a política de pressão em relação a Cuba. E, sob o disfarce de defesa de regimes democráticos, para ter discurso contra o governo cubano ligado à URSS, a gestão Kennedy patrocinou ações de terrorismo "como instrumento de política exterior", assinala o historiador.

As provas dessa política contraditória, de discurso idealista e prática realista, estão em arquivos americanos. Uma das fontes é o registro dos trabalhos da Comissão Frank Church do Senado americano que, nos anos 1970, investigou ações de inteligência e operações encobertas dos EUA no exterior. Está lá em detalhes a preparação dos grupos especiais de contrainsurreição e o treinamento em táticas militares e de guerrilha para intervir em vários países, inclusive no Brasil. Há ainda planos, arquivados na Biblioteca John F. Kennedy e na Biblioteca Lyndon B. Johnson, desclassificados em 1976, inclusive sobre o golpe militar que derrubou João Goulart em 1964.

Embora Kennedy não estivesse mais vivo quando Jango caiu, os dois viveram uma relação de desconfiança, diz Moniz, para quem JFK preparou as condições para a queda de Goulart. O presidente americano e seu governo consideravam o brasileiro fraco e pressionavam por vantagens econômicas, e JG resistiu aos EUA na Organização dos Estados Americanos (OEA). "Goulart considerou que Kennedy provocara, ‘sem necessidade’, o risco de uma guerra nuclear", diz Moniz, ao analisar a postura brasileira na crise dos mísseis de Cuba.

Mudanças, pero no mucho

"Houve mudança e também continuidade no governo Kennedy. A estratégia de segurança nacional e a política internacional dos EUA frente à União Soviética foram, durante a presidência do republicano Dwight Eisenhower, baseadas no princípio do poder massivo de retaliação. Kennedy, ao assumir em 1961, mudou para a política de dissuasão e contenção. Mas deu continuidade na questão de Cuba, autorizando a invasão da Baía dos Porcos, e só não decidiu bombardear a ilha durante a crise dos mísseis, em 1962, porque tal iniciativa certamente romperia a Aliança Atlântica.

Julgava Jango

"A relação sempre foi de desconfiança. Kennedy e seu círculo de assessores não tinham a menor simpatia por Goulart. Arthur Schlesinger Jr., um dos principais assessores da Casa Branca, julgava Jango um ‘demagogo fraco e oscilante’. Até o irmão de Kennedy, Robert, veio ao Brasil para defender os negócios da empresa Hanna, cobrar as indenizações para a Amforp e a ITT e pressioná-lo a não comerciar com os países do Leste Europeu, não comprar petróleo da União Soviética nem helicópteros da Polônia. Goulart sabia que as razões de Robert Kennedy não eram ideológicas, mas comerciais. Respondeu-lhe que o Brasil daria a preferência aos EUA, desde que esses oferecessem iguais condições de comércio.

Provocações

"Goulart considerou que Kennedy provocara, ‘sem necessidade’, o risco de uma guerra nuclear e instruiu o embaixador do Brasil junto à OEA, Ilmar Pena Marinho, no sentido de aprovar o bloqueio e a inspeção dos navios que se dirigissem a Cuba, porém exigindo que antes de qualquer ação militar observadores da ONU comprovassem que o arsenal soviético realmente existia e de lá não fora retirado. Também enviou a Havana o general Albino Silva, chefe da Casa Militar da Presidência, para transmitir pessoalmente a Fidel Castro a posição do Brasil, contrária à instalação de mísseis nucleares em seu território por significarem risco para sua segurança e para a própria paz mundial, conquanto compreendesse sua necessidade de armamentos defensivos.

Os planos Brother Sam

"Kennedy buscou preservar, ainda que aparentemente, o invólucro democrático-representativo dos regimes nos países da América Latina para ter condições morais que justificassem a campanha não só contra Cuba como contra qualquer revolução social no continente. Ele e seus colaboradores, os homens da Nova Fronteira, não tinham, entretanto, preconceitos contra golpes de Estado ou mesmo contra assassinatos e outros atos terroristas. Durante seu governo, os EUA recorreram amplamente ao terrorismo, sob todas as modalidades, como instrumento de política exterior, como demonstrado pela comissão do Congresso americano presidida pela senador Frank Church, prepararam os grupos especiais de contrainsurreição, com treinamento em táticas militares e paramilitares, bem como em técnicas de guerrilhas para intervir inclusive no Brasil. Desde pelo menos julho de 1963, os EUA elaboraram vários planos de emergência, denominados Brother Sam, a fim de intervir militarmente contra o governo Goulart. Esses planos, foram desclassificados em 1976 e publicados no Brasil, em 1977, pela Civilização Brasileira, no livro Parker, Phyllis R. - 1964 - O Papel dos EUA no Golpe de Estado de 31 de Março.

JFK e os golpistas brasileiros

"Kennedy preparou todas as condições para derrubar Goulart. Além dos planos para eventual intervenção no Brasil, soldados do 1º Batalhão da Polícia do Exército brasileiro, em 10 de outubro de 1963, vasculharam um sítio em Jacarepaguá, no Rio, perto de uma propriedade de Goulart, e descobriram 10 metralhadoras Thompson, calibre 45, 20 carregadores, 72 caixas de cartuchos Remington Kleanbore 45, 10 granadas Federal Blast Dispersion Tear Gas (CN) e um radiotransmissor-receptor portátil, marcado com o símbolo do programa Ponto IV (Mãos Apertadas), da Embaixada dos EUA. As fotos foram publicadas em O Estado de São Paulo e as investigações evidenciaram uma trama para eliminar Goulart e seus filhos, assim como muitos políticos e generais favoráveis ao governo."

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